Como obtemos a Salvação? (Pecado mortal e pecado venial)

Lendo diversos sites pela internet, encontrei um artigo que respondia a seguinte pergunta: “A Bíblia ensina sobre pecado mortal e pecado venial ?”. Para respon- der, é apresentado inicialmente como a Igreja Católica Romana classifica os pe- cados (que apresentarei ao fim desse Post) e mais ao fim faz uma argumentação tentando mostrar que biblicamente os conceitos de pecado mortal e venial não são como a Igreja apresenta, e conclui que os que creem não serão julgados.
Antes de começar a falar nesse questionamento, peço que leiam e reflitam as seguintes passagens:

Meus filhinhos, estas coisas vos escrevo, para que não pequeis;
e, se alguém pecar, temos um Advogado para com o Pai, Jesus Cristo, o justo.
E ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos,
mas também pelos de todo o mundo. E nisto sabemos que o conhecemos:
se guardarmos os seus mandamentos.
Aquele que diz: Eu conheço-o, e não guarda os seus mandamentos,
é mentiroso, e nele não está a verdade.
Mas qualquer que guarda a sua palavra, o amor de Deus está nele verdadeiramente aperfeiçoado; nisto conhecemos que estamos nele.
Aquele que diz que está nele, também deve andar como ele andou
.”
(1 João 2 : 1-6)

“Qualquer que comete pecado, também comete iniqüidade;
porque o pecado é iniqüidade.
E bem sabeis que ele se manifestou para tirar os nossos pecados;
e nele não há pecado.
Qualquer que permanece nele não peca;
qualquer que peca não o viu nem o conheceu.”
(1 João 3 : 4-6)

“Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama;
e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei,
e me manifestarei a ele.”
(João 14 : 21)

E disse-lhe um: Senhor, são poucos os que se salvam? E ele lhe respondeu:
Porfiai por entrar pela porta estreita; porque eu vos digo que
muitos procurarão entrar, e não poderão.
Quando o pai de família se levantar e cerrar a porta, e começardes, de fora, a bater à porta, dizendo: Senhor, Senhor, abre-nos; e, respondendo ele, vos disser: Não sei de onde vós sois; Então começareis a dizer: Temos comido e bebido na tua presença, e tu tens ensinado nas nossas ruas.
E ele vos responderá: Digo-vos que não sei de onde vós sois; apartai-vos de mim, vós todos os que praticais a iniqüidade.
(Lucas 13 : 23-27)

Bem, agora voltemos ao caso do artigo acima citado, no qual o autor apresenta a seguinte frase:

<< Paulo afirma este fato em Romanos 8:1: “Portanto, agora nenhuma conde- nação há para os que estão em Cristo Jesus, que não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito.” Por que não são os crentes julgados? Por que não há condenação para aqueles que estão em Cristo Jesus? É porque a morte de Cristo satisfez a justa ira de Deus contra o pecado (I João 4) e agora aqueles que con- fiam em Cristo não pagarão a pena do pecado.>>

O autor não se atentou a um grande detalhe “que não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito“. Em (1 João 2), vemos que temos Cristo Jesus como Nosso Advogado somente se nós o conhecermos, ou seja “se guardarmos os seus mandamentos”; e assim “Aquele que diz que está ne- le, também deve andar como Ele andou”.

Então precisamos compreender : como “andar segundo o Espírito” ou “andar como Ele andou“. Para conseguirmos isso, João nos diz que não devemos pecar. Mas o que é o pecado? Existem pecados mais graves que outros? Sempre pode- mos obter perdão de Deus?

Bem, começo com as seguintes passagens:

Se alguém vir pecar seu irmão, pecado que não é para morte, orará,
e Deus dará a vida àqueles que não pecarem para morte.
Há pecado para morte, e por esse não digo que ore.
Toda a iniqüidade é pecado, e há pecado que não é para morte.

(1 João 5 : 16-17)

Em verdade, em verdade vos digo que,
se alguém guardar a minha palavra, nunca verá a morte
.”
(João 8:51)

Por isso, rejeitando toda a imundícia e superfluidade de malícia, recebei com mansidão a palavra em vós enxertada, a qual pode salvar as vossas almas.E sede cumpridores da palavra, e não somente ouvintes, enganando-vos com falsos discursos.”
(Tiago 1 : 21-22)

A partir daqui é apresentado o Catecismo da Igreja Católica (Terceira Parte- A vida em Cristo, Primeira Secção, Primeiro Capitulo, Artigo 8), que nos explica claramente o que é o pecado, as suas gravidades e consequências para nós. Jesus nos deu o caminho, a questão é se realmente andamos por Ele.
I. A misericórdia e o pecado

O Evangelho é a revelação, em Jesus Cristo, da misericórdia de Deus para com os pecadores (Cf. Lc 15). O anjo assim o disse a José: «Pôr-Lhe-ás o nome de Jesus, porque Ele salvará o seu povo dos seus pecados» (Mt 1, 21), o mesmo se diga da Eucaristia, sacramento da Redenção: «Isto é o meu sangue, o sangue da Aliança, que vai ser derramado por todos para a remissão dos pecados» (Mt 26, 28).

«Deus, que nos criou sem nós, não quis salvar-nos sem nós» (Santo Agostinho, Sermão 169). O acolhimento da sua misericórdia exige de nós a confissão das nossas faltas. «Se dizemos que não temos pecado, enganamo-nos, e a verdade não está em nós. Se confessarmos os nossos pecados, Ele é fiel e justo para perdoar os nossos pecados e para nos purificar de toda a maldade» (1 Jo 1, 8-9).

Como afirma São Paulo: «Onde abundou o pecado, superabundou a graça» (Rm 5, 20). Mas para realizar a sua obra, a graça tem de pôr a descoberto o pecado, para converter o nosso coração e nos obter «a justiça para a vida eterna, por Jesus Cristo, nosso Senhor» (Rm 5, 21). Como um médico que examina a chaga antes de lhe aplicar o penso, Deus, pela sua Palavra e pelo seu Espírito, projeta uma luz viva sobre o pecado:

«A conversão requer o reconhecimento do pecado. Contém em si mesma o juízo interior da consciência. Pode ver-se nela a prova da acção do Espírito de ver- dade no mais íntimo do homem. Torna-se, ao mesmo tempo, o princípio dum novo dom da graça e do amor: “Recebei o Espírito Santo”. Assim, neste “conven- cer quanto ao pecado”. descobrimos um duplo dom: o dom da verdade da cons- ciência e o dom da certeza da redenção. O Espírito da verdade é o Consolador» (João Paulo II, Enc. Dominum et vivificantem).

II. Definição de pecado

O pecado é uma falta contra a razão, a verdade, a recta consciência. É uma falha contra o verdadeiro amor para com Deus e para com o próximo, por causa dum apego perverso a certos bens. Fere a natureza do homem e atenta contra a soli- dariedade humana. Foi definido como «uma palavra, um acto ou um desejo con- trários à Lei eterna» (São Tomás de Aquino, Summa theologiae).

O pecado é uma ofensa a Deus: «Pequei contra Vós, só contra Vós, e fiz o mal diante dos vossos olhos» (Sl 51, 6). O pecado é contrário ao amor que Deus nos tem e afasta d’Ele os nossos corações. É, como o primeiro pecado, uma deso- bediência, uma revolta contra Deus, pela vontade de os homens se tornarem «como deuses», conhecendo e determinando o que é bem e o que é mal (Gn 3, 5). Assim, o pecado é «o amor de si próprio levado até ao desprezo de Deus» (Santo Agostinho, De civitate Dei). Por esta exaltação orgulhosa de si mesmo, o pecado é diametralmente oposto à obediência de Jesus, que realizou a salvação (Cf. Fl 2, 6-9).

É precisamente na paixão, em que a misericórdia de Cristo o vai vencer, que o pecado manifesta melhor a sua violência e a sua multiplicidade: incredulidade, ódio assassino, rejeição e escárnio por parte dos chefes e do povo, cobardia de Pilatos e crueldade dos soldados, traição de Judas tão dura para Jesus, negação de Pedro e abandono dos discípulos. No entanto, mesmo na hora das trevas e do príncipe deste mundo (Cf. Jo 14, 30), o sacrifício de Cristo torna-se secretamente a fonte de onde brotará, inesgotável, o perdão dos nossos pecados.

III. A diversidade dos pecados

É grande a variedade dos pecados. A Sagrada Escritura fornece-nos várias listas. A Epístola aos Gálatas opõe as obras da carne aos frutos do Espírito: «As obras da natureza decaída (“carne”) são claras: imoralidade, impureza, libertinagem, idolatria, feitiçaria, inimizades, discórdias, ciúmes, fúrias, rivalidades, dissen- sões, facciosismos, invejas, excessos de bebida e de comida e coisas semelhan- tes a estas. Sobre elas vos previno, como já vos tinha prevenido: os que pra- ticam acções como estas, não herdarão o Reino de Deus» (Gl 5, 19-21) (Cf. Rm 1, 28-32; 1 Cor 6, 9-10; Ef 5, 3-5; Cl 3, 5-9; 1 Tm 1, 9-10; 2 Tm 3, 2-5).

Os pecados podem distinguir-se segundo o seu objeto, como todo o ato humano; ou segundo as virtudes a que se opõem; por excesso ou por defeito; ou segundo os mandamentos que violam. Também podem agrupar-se segundo outros crité- rios: os que dizem respeito a Deus, ao próximo, à própria pessoa do pecador; pecados espirituais e carnais: ou, ainda, pecados por pensamentos, palavras, obras ou omissões. A raiz do pecado está no coração do homem, na sua vontade livre, conforme o ensinamento do Senhor: «do coração é que provêm pensa-mentos malévolos, assassínios, adultérios, fornicações, roubos, falsos teste-munhos, maledicências – coisas que tornam o homem impuro» (Mt 15, 19). Mas é também no coração que reside a caridade, princípio das obras boas e puras, que o pecado ofende.

IV. A gravidade do pecado: pecado mortal e pecado venial

Os pecados devem ser julgados segundo a sua gravidade. A distinção entre pecado mortal e pecado venial, já perceptível na Escritura (Cf. 1 Jo 5, 16-17), impôs-se na Tradição da Igreja. A experiência dos homens corrobora-a.

O pecado mortal destrói a caridade no coração do homem por uma infração grave à Lei de Deus. Desvia o homem de Deus, que é o seu último fim, a sua bem-aventurança, preferindo-Lhe um bem inferior. O pecado venial deixa subsistir a caridade, embora ofendendo-a e ferindo-a.

O pecado mortal, atacando em nós o princípio vital que é a caridade, torna ne- cessária uma nova iniciativa da misericórdia de Deus e uma conversão do cora- ção que normalmente se realiza no quadro do sacramento da Reconciliação:

«Quando […] a vontade se deixa atrair por uma coisa de si contrária à caridade, pela qual somos ordenados para o nosso fim último, o pecado, pelo seu próprio objecto, deve considerar-se mortal […], quer seja contra o amor de Deus (como a blasfémia, o perjúrio, etc.), quer contra o amor do próximo (como o homicí- dio, o adultério, etc.) […] Em contrapartida, quando a vontade do pecador por vezes se deixa levar para uma coisa que em si é desordenada, não sendo todavia contrária ao amor de Deus e do próximo (como uma palavra ociosa, um risco supérfluo, etc.), tais pecados são veniais» (São Tomás de Aquino, Summa theologiae).

Para que um pecado seja mortal, requerem-se, em simultâneo, três condições: «É pecado mortal o que tem por objeto uma matéria grave, e é cometido com plena consciência e de propósito deliberado» (João Paulo II. Ex. ap. Reconciliatio et paenitentia).

A matéria grave é precisada pelos dez Mandamentos, segundo a resposta que Jesus deu ao jovem rico: «Não mates, não cometas adultério, não furtes, não levantes falsos testemunhos, não cometas fraudes, honra pai e mãe» (Mc 10, 18). A gravidade dos pecados é maior ou menor: um homicídio é mais grave que um roubo. A qualidade das pessoas lesadas também entra em linha de conta: a violência cometida contra pessoas de família é, por sua natureza, mais grave que a exercida contra estranhos.

Para que o pecado seja mortal tem de ser cometido com plena consciência e total consentimento. Pressupõe o conhecimento do carácter pecaminoso do ato, da sua oposição à Lei de Deus. E implica também um consentimento suficientemen- te deliberado para ser uma opção pessoal. A ignorância simulada e o endureci- mento do coração (Cf. Mc 3, 5-6; Lc 16, 19-31.) não diminuem, antes aumentam, o carácter voluntário do pecado.

A ignorância involuntária pode diminuir, ou mesmo desculpar, a imputabilidade duma falta grave. Mas parte-se do princípio de que ninguém ignora os princípios da lei moral, inscritos na consciência de todo o homem. Os impulsos da sensibili- dade e as paixões podem também diminuir o carácter voluntário e livre da falta. O mesmo se diga de pressões externas e de perturbações patológicas. O pecado cometido por malícia, por escolha deliberada do mal, é o mais grave.

O pecado mortal é uma possibilidade radical da liberdade humana, tal como o próprio amor. Tem como consequência a perda da caridade e a privação da graça santificante, ou seja, do estado de graça. E se não for resgatado pelo arre- pendimento e pelo perdão de Deus, originará a exclusão do Reino de Cristo e a morte eterna no Inferno, uma vez que a nossa liberdade tem capacidade para fazer escolhas definitivas, irreversíveis. No entanto, embora nos seja possível julgar se um ato é, em si, uma falta grave, devemos confiar o juízo sobre as pessoas à justiça e à misericórdia de Deus.

Comete-se um pecado venial quando, em matéria leve, não se observa a medida prescrita pela lei moral ou quando, em matéria grave, se desobedece à lei moral, mas sem pleno conhecimento ou sem total consentimento.

O pecado venial enfraquece a caridade, traduz um afeto desordenado aos bens criados, impede o progresso da pessoa no exercício das virtudes e na prática do bem moral; e merece penas temporais. O pecado venial deliberado e não seguido de arrependimento, dispõe, a pouco e pouco, para cometer o pecado mortal. No entanto, o pecado venial não quebra a aliança com Deus e é humanamente repa- rável com a graça de Deus. «Não priva da graça santificante, da amizade com Deus, da caridade, nem, portanto, da bem-aventurança eterna» (João Paulo II, Ex. ap. Reconciliatio et paenitentia).

«Enquanto vive na carne, o homem não é capaz de evitar totalmente o pecado, pelo menos os pecados leves. Mas estes pecados, que chamamos leves, não os tenhas por insignificantes. Se os tens por insignificantes quando os pesas, treme quando os contas. Muitos objetos leves fazem uma massa pesada; muitas gotas de água enchem um rio; muitos grãos fazem um monte. Onde, então, está a nossa esperança? Antes de mais, na confissão…» (Santo Agostinho, In epistulam Iohannis Parthos tractatus).

«Todo o pecado ou blasfémia será perdoado aos homens, mas a blasfémia con- tra o Espírito não lhes será perdoada» (Mt 12, 31) (Cf. Mc 3. 29; Lc 12, 10). Não há limites para a misericórdia de Deus, mas quem recusa deliberadamente rece- ber a misericórdia de Deus, pelo arrependimento, rejeita o perdão dos seus peca- dos e a salvação oferecida pelo Espírito Santo (Cf. João Paulo II, Enc. Dominum et vivificantem). Tal endurecimento pode levar à impenitência final e à perdição eterna.

V. A proliferação do pecado

O pecado arrasta ao pecado; gera o vício, pela repetição dos mesmos atos. Daí resultam as inclinações perversas, que obscurecem a consciência e corrompem a apreciação concreta do bem e do mal. Assim, o pecado tende a reproduzir-se e reforçar-se, embora não possa destruir radicalmente o sentido moral.

Os vícios podem classificar-se segundo as virtudes a que se opõem, ou relacio- nando-os com os pecados capitais que a experiência cristã distinguiu, na sequên- cia de São João Cassiano (Conlatio) e São Gregório Magno (Moralia in Job). Chamam-se capitais, porque são geradores doutros pecados e doutros vícios. São eles: a soberba, a avareza, a inveja, a ira, a luxúria, a gula e a preguiça ou negligência (acédia).

A tradição catequética lembra também a existência de «pecados que bradam ao céu». Bradam ao céu: o sangue de Abel (Cf. Gn 4. 10); o pecado dos sodomitas (Cf. Gn 18, 20; 19, 13); o clamor do povo oprimido no Egipto (Cf. Ex 3, 7-10); o lamento do estrangeiro, da viúva e do órfão (Cf. Ex 22, 20-22); a injustiça para com o assalariado (Cf. Dt 24, 14-15; Tg 5, 4).

O pecado é um ato pessoal. Mas, além disso, nós temos responsabilidade nos pecados cometidos por outros, quando neles cooperamos:

– tomando parte neles, directa e voluntariamente;
– ordenando-os. aconselhando-os, aplaudindo-os ou aprovando-os;
– não os denunciando ou não os impedindo, quando a isso obrigados;
– protegendo os que praticam o mal.

Assim, o pecado torna os homens cúmplices uns dos outros, faz reinar entre eles a concupiscência, a violência e a injustiça. Os pecados provocam situações so- ciais e instituições contrárias à Bondade divina; as «estruturas de pecado» são expressão e efeito dos pecados pessoais e induzem as suas vítimas a que, por sua vez, cometam o mal. Constituem, em sentido analógico, um «pecado social» (João Paulo II, Ex. ap. Reconciliatio et paenitentia).

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