“Somos servos inúteis, porque fizemos somente o que devíamos fazer”

E qual de vós terá um servo a lavrar ou a apascentar gado, a quem, voltando ele do campo, diga: Chega-te, e assenta-te à mesa? E não lhe diga antes: Prepara-me a ceia, e cinge-te, e serve-me até que tenha comido e bebido, e depois comerás e beberás tu? Porventura dá graças ao tal servo, porque fez o que lhe foi mandado? Creio que não. Assim também vós, quando fizerdes tudo o que vos for mandado, dizei: Somos servos inúteis, porque fizemos somente o que devíamos fazer.”
(Lucas 17 : 7-10)

Com esta frase, Jesus não aprova esse tratamento arbitrário do patrão, mas se serve de uma realidade muito cotidiana para as pessoas que O escutavam, de forma a ilustrar qual deve ser a disposição da criatura humana diante do seu Criador: de nossa existência à bem-aventurança eterna, que nos é prometida, tudo procede de Deus como um imenso presente. Daí que o homem sempre esteja em dívida com o Senhor, e por mais que faça no serviço ao Senhor as suas ações estas não passam de ser uma pobre correspondência aos dons divinos. O orgulho diante de Deus não tem sentido numa criatura. O que aqui nos pede Jesus, melhor do que ninguém fez a Virgem Maria, que respondeu diante do anúncio divino: ‘Eis a escrava do Senhor’ (Lc 1, 38). Ela se reconhece na expressão: Somos servos inúteis, fizemos apenas o que devíamos fazer.

O que fazemos, reconhecendo afetuosa e alegremente o nosso nada e o nosso pecado, ditosos de assim proclamar a plenitude e santidade do ser divino. Daqui nascem aqueles sentimentos de adoração, louvor, temor filial e amor; daqui, aquele grito de coração: Tu és Santo, tu é o Senhor, tu és o Altíssimo. Estes sentimentos brotam do coração, não somente quando estamos em oração, mas ainda quando contemplamos as obras de Deus, obras naturais, em que se refletem as perfeições do Criador, obras sobrenaturais, em que os olhos da fé nos descobrem uma verdadeira semelhança, uma participação da vida divina.

Temos só um dever na terra: cumprir bem nossa obrigação. Apesar de ser uma simplificação muito fácil, esse modo de dizer ensina que temos de ser responsáveis por aquilo que fazemos. E aquilo que fazemos dirá aos outros quem somos.

Assim como o empregado que sabe o que tem de fazer e faz. Faz porque tem de fazer e pronto. A cozinheira responsável faz bem a comida e não precisa ficar esperando elogios. Se os elogios vierem, graça a Deus! Mas se não vieram ela já cumpriu sua obrigação.

Os elogios, quando sinceros, têm a vantagem de mostrar que acertamos. Podem ser elogios diretos ou indiretos. Elogio direto vem com palavras de aprovação; e os elogios indiretos podem vir com gestos de aprovação, como é o caso da comida da cozinheira: se todos comem e repetem é um sinal de que a comida estava saborosa. Como nossa vida é bastante complexa, como somos seres superiores, temos também, por natureza, muitas obrigações; não apenas obrigações de trabalho.

Temos obrigações de religião; por isso se somos cristãos precisamos respeitar as exigências inerentes à nossa fé. Temos obrigações sociais; por isso se queremos conviver bem com as pessoas, precisamos descobrir quais são nossas obrigações para com elas e tentar uma convivência responsável e amigável. Temos obrigação para com mesmos; por isso precisamos cuidar de nossa saúde, da saúde do corpo e da saúde da alma e assim por diante.

Mesmo se estivéssemos sozinhos no mundo, ainda assim não estaríamos livres de obrigações. Mas quem entende a si mesmo e percebe suas relações com o mundo e com as pessoas, não encara as obrigações como um peso e sim como uma realidade de vida, que pode lhe fazer feliz.

Convido-o a rezar comigo:

Deus, meu Pai, uma coisa que eu gostaria de ouvir de Vós, quando eu chegar ao céu, é este elogio: tu cumpriste a tua obrigação, entre na alegria do Teu Senhor. Mas para eu receber esse elogio preciso muito da vossa ajuda; preciso saber distinguir a vossa vontade, para não cair no engano de só fazer a minha. Jesus de Nazaré tinha um único objetivo: fazer a vossa vontade. Assim Ele disse, e assim Ele cumpriu até ao fim de Sua vida, quando, pregado na cruz e já sem forças reclamou: TUDO ESTÁ CONSUMADO. Depois, porém, num último esforço, entregou Seu espírito em vossas mãos, num gesto de submissão total. Ele fez tudo bem feito. Ele cumpriu Sua obrigação. Pai Santo dê-me a graça de cumprir, como Ele, bem a minha missão para que, alegremente, eu mereça receber o grande elogio: Vinde, bendito do meu Pai, pelo dever cumprido. Amém.

Escrito por: Padre Bantu Mendonça

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