Santo Agostinho: a verdade e a felicidade residem em Deus.

Texto extraido do site: http://www.consciencia.org/
Escrito por: Miguel Duclós

Este texto procura elucidar brevemente os pontos do pensamento agostiniano que são necessários para poder compreender porque, para este autor, o homem pode conhecer apenas pela graça divina, mas tem o dever moral de preparar sua alma e seu corpo para receber esta luz e de fazer bom uso do livre-arbítrio. Procurei fazer associações despretensiosas com outros traços da cultura anterior a sua época, como a mitologia helênica.

No Livro VII de Confissões e no diálogo O Livre Arbítrio , Agostinho argumenta especificamente sobre o problema do mal. Tem ele o mal como algo presente, e nos primeiros livros das Confissões , identifica-o em sua infância e na sua juventude libertina, ocorridas antes do episódio de agosto de 386 que o levou à conversão, (1) e antes de sua convivência com Santo Ambrósio, que o batizou e a quem chama de agente de Deus.

Sendo Deus eterno e imutável, autor de coisas muito boas, qual é, então, a origem do mal? Agostinho sabe, quando isto pergunta, que a origem do mal é tradicionalmente explicada pela Igreja Católica com a queda do Arcanjo Lúcifer. Embora as referências Bíblicas ao Maligno como ex-Arcanjo sejam escassas, e o próprio nome Lúcifer (formado a partir do latim lux ) e a hierarquia angelical tenham sido forjadas com o decorrer da Idade Média, ainda assim encontramos algumas passagens bíblicas que ilustram bem este tema daqueles que querem ser como Deus e por isso são punidos. Alguns exemplos estão no Velho Testamento, em Isaías 14:

“12 Como caíste do céu, ó estrela da manhã, filha da alva! como foste lançado por terra, tu que debilitava as nações!
13 E tu dizias no teu coração: Eu subirei ao céu, acima das estrelas de Deus exaltarei meu trono, e no monte da congregação me assentarei, da banda dos lados do norte.
14 Subirei acima das mais altas nuvens e serei semelhante ao Altíssimo.
15 E contudo levado será ao inferno, ao mais profundo do abismo. ” (2)

Ou no Novo Testamento, no Apocalipse segundo São João, no capítulo 12, onde há uma mulher, possivelmente virgem Maria, que dá à Luz um varão “que há de reger todas as nações com vara de ferro” e é tentada pelo Dragão da maldade, que após isso tem de enfrentar as tropas celestiais:

“7 E houve uma batalha no céu. Miguel e seus anjos batalhavam contra o dragão, e batalhava o dragão e seus anjos.
Mas não prevaleceu, nem mais o seu lugar se achou nos céus.
E foi precipitado o grande Dragão, a antiga serpente, chamada o Diabo, e Satanás, que engana todo o mundo; ele foi precipitado na terra, e os seus anjos foram lançados com ele.

Satanás na terra tenta os homens, mas o Apocalipse prossegue explicando que é vencido pelo poder do Cordeiro, o Jesus Cristo.

Não podemos também esquecer que no Gênesis, a Serpente consegue seduzir Eva prometendo-lhe que esta ficaria igual a Deus se comesse o fruto proibido, e era por isso que Deus lhe proibira. Realmente, após comer a queda, Deus fala para seus anjos:  “E eis que o homem é um de nós, sabendo o que é bem e o mal; ora, pois, para que não estenda a tua mão, e tome também da árvore da vida, e coma e via eternamente” ( Gen, 3, 22). Começa então, segundo a Bíblia, a condição miserável do homem, obrigado a trabalhar para garantir seu sustento, e a se abrigar para fugir do frio. Este trecho sugere que o homem estará eternamente condenado a escolher entre o Bem e o Mal. Então, tanto a queda do primeiro anjo quanto a queda do primeiro homem é causada por um ato livre de vontade, em que se pretende ser igual a Deus.

No capítulo 3 do livro VII das Confissões , Agostinho se pergunta, a respeito de Lúcifer: “E se por uma decisão de sua vontade perversa, se transformou de anjo bom em demônio, qual é a origem daquela vontade má com que se mudou em diabo, tendo sido criado Anjo perfeito, por um criador tão bom?”. Logo, não ignora o problema da origem do mal tal qual a Igreja Católica o explica, mas vai ainda além, perguntando a origem da perversão da vontade nas criaturas boas criadas por Deus.

A argumentação segue considerando que, naturalmente, o mal não provém de Deus, mas está nas coisas criadas e na matéria. As coisas criadas “não existem absolutamente nem totalmente deixam de existir” (Livro VII, cap 11). As coisas existem enquanto participam da Suma Existência, daquele que é, do Imutável, e deixam de existir quando se afastam dele. As coisas que se corrompem são boas ao menos em parte, pois não haveria o que se corromper se fossem totalmente más. Porém, não são como Deus, absolutamente boas, pois se assim fosse seriam incorruptíveis. Assim, o mal ocorre quando as criaturas se afastam de da existência, ou seja, o mal não existe propriamente, mas é um não-ser. Tudo é verdadeiro enquanto existe e a falsidade só ocorre quando se toma por existente o não existente. Agostinho no capítulo 16 do livro VII, chega à definição do mal como uma perversão da vontade desviada da Substância Suprema – Deus.

Se Deus é a suma Existência e a Suma Bondade, os seres para alcançar a verdade tem de procurá-lo. Julgar que o caminho para se atingir a verdade seja humano, ou dependa apenas de esforços humanos, constitui soberba, pois a verdade é externa e independente do homem. Para Agostinho, o conhecimento da Verdade depende em última instância da Graça Divina, que agracia apenas alguns escolhidos. Qual é o dever moral do homem então, qual é o seu campo de ação, se ele parte em busca da verdade sem saber se a vai encontrar? Procurarei tratar deste tópico a seguir.

Como aponta Novaes, em seu artigo “Nota sobre o problema da universalidade em Agostinho, do ponto de vista da relação entre fé e razão”, Agostinho destoa tanto dos aristotélicos, quanto dos estóicos e epicuristas em sua concepção de felicidade. Os primeiros tomam a felicidade como uma atividade da alma em consonância com a virtude, os segundos como um vigor da alma e os terceiros como a vontade do corpo. Para um cristão, porém, a felicidade é um dom de Deus. Não obstante, o homem deve procurá-la através da purificação da alma. Para purificar a alma o homem tem de reconhecer a condição miserável da humanidade após o pecado original, e tem de ter a humildade de reconhecer o a felicidade como alheia a si. O homem tem de se tornar digno de receber a graça. A idéia da ascese da alma é muito importante também para os platônicos e neoplatônicos (3), que influenciaram Agostinho profundamente. Mas Agostinho vê nesta doutrina o erro crucial de Porfírio, por não ter reconhecido que o verdadeiro caminho não é humano, mas provém do Absoluto, de Deus. (4)

O homem é mais especial que as outras criações de Deus, e que os outros seres dotados de alma (animais), pois tem uma alma racional. O homem é especial porque foi feito à imagem e semelhança de Deus. {5} No Gênesis, antes da queda, Deus concede ao homem que usufrua livremente da terra. Para Agostinho, a semelhança do homem com o seu criador é a razão. Deus, conhecedor de todas as coisas, possui também a razão infinita. Porém a razão humana está corrompida, e distante da divina. O homem tem um “déficit moral”, e por isso não consegue cumprir plenamente a sua natureza de animal racional. E mesmo os bebes já nascem no pecado, como exemplifica Agostinho em sua autobiografia, quando se recrimina pelo seu deleite durante o amamentamento. Os desejos e as paixões impedem um bom uso da razão, e impedem uma vida contemplativa. Mesmo ao se recolher em seu monastério, se entregando à devoção religiosa ao lado de companheiros como Alípio e Evódio, Agostinho nunca conseguiu se livrar das preocupações mundanas. Era afastado do otium intelectuale , por exemplo, pelas suas obrigações com o povo em suas funções sacerdotais ou familiares.

O problema do pecado original é fundamental para compreender-se o que se segue, por isso me demorarei um pouco mais nele. Antes de comer do fruto da árvore da ciência do bem e do mal, a alma encontrou sua perfeição no paraíso. Livre de dúvidas e incertezas, o homem apenas era no seio da natureza. Nada foi negado a Adão e Eva, e eles estavam integrados à toda criação, circulando livremente e de maneira abençoada. Mas a vontade é infinita, e ao homem foi dado o poder de escolher. Assim, seduzida pela serpente Eva desobedece ao único mandamento até então, e o homem, sabendo o que é mal e o que é bem, pode escolher entre os dois, e pode portanto, se afastar do Bem do Supremo Ser. Ele passa a poder querer o mal, e é sobre este ponto de vista que a purificação da alma deve ser entendida. Esta é necessária para a escolha certa quando a graça se apresentar. A liberdade, para Agostinho, vem a ser a capacidade consciente e reflexa que tem o espírito de determinar por si e espontaneamente, a querer e preferir acima de tudo o Bem absoluto e perfeito, do modo que este se lhe apresente, e nunca preferindo nada contrário. Deus, do alto, abarca a todos aqueles que o invocam com um olhar e pode iluminar alguns com sua graça. Muitos são chamados, mas poucos escolhidos.

Esta é a causa dos pecados da humanidade, o livre-arbítrio. Pela perversão da vontade o homem escolhe a privação do ser. Este quadro só encontra redenção em Jesus Cristo, o mediador entre Deus e os homens. O cristão tem de aceitar pela fé o mistério da Trindade, que Jesus Cristo é o verbo encarnado, vindo ao mundo terrenos e morto pelos homens, para redimir a humanidade. É preciso pois, que o homem tenha fé, e acredite em algo além de si e do mundo sensorial, em algo invisível. Precisa ter a humildade de admitir seu “déficit moral” e que o caminho da verdade lhe é extraposto (NOVAES, 34).

A purificação da alma para receber a revelação é feita de várias formas. Agostinho defende ardorosamente um ascetismo, chegando a condenar o casamento e a procriação, e a cantar a maravilha do celibato. O homem precisa se livrar das paixões, e por paixões entende-se tudo aquilo que move (ou comove) a alma. Somente uma alma estável é capaz de perceber a Idéia. Para esta elevação do espírito, é necessário também o auto-conhecimento. (6)

Estando a alma purificada, está preparado o terreno para conhecer. A fé chama a razão para algo além dela própria, para o mistério. À razão cabe investigar os conteúdos da fé. Como aponta Novaes, não há uma oposição entre estas duas formas de conhecer, porém uma reciprocidade, uma completude, uma convergência. “Para entender, com o intuito de entender, uma condição é crer. Mas o que é entendido, o que é inteligido, exige novamente a fé, e assim por diante.” (NOVAES, 41). Há uma precedência do invisível sobre o visível, do transcendente (inteligível) sobre o sensível. A alma é hierarquicamente superior ao corpo. O homem precisa crer para entender. (7) Este entendimento é feito racionalmente, Mas o conhecimento da razão divina ultrapassa em muito a finitude da razão humana, e por isso o homem precisa novamente da fé para alcançar o conhecimento, sendo que este não se esgota nunca, nem quem bebe do conhecimento de Deus sacia sua sede. (8)

No Livro X das Confissões Agostinho faz uma brilhante exposição sobre a memória, chegando mesmo a dizer que a memória é o espírito, ou a parte mais importante da alma humana. Nesta exposição está contida o grosso da doutrina Agostiniana de reminiscência, e suas adaptações em relação ao platonismo. Farei mais um vôo panorâmico para explicá-la.

A memória era importante já desde a cultura helênica clássica. Na Teogonia de Hesíodo ela aparece como parte da primeira geração divina, como uma deusa, filha de Urano e Géia ( mnemósina ), que, amada por Zeus, foi mãe das nove Musas. De uma forma geral, pode-se dizer que sem memória não é possível conhecer. A memória está também associada ao destino das almas quando a morte ocorre e ela deixa o corpo, para ir ao Hades. Existe um poema órfico (9) que pretende guiar a alma ao chegar na mansão de Hades: (10)

Encontrarás à esquerda da Mansão do Hades, uma fonte,
E a seu lado, um branco cipreste.
Não te aproximas deste manancial.
Mas encontrarás um outro junto à Fonte da Memória,
De onde fluem águas frescas e, diante das quais há guardiões.
Diz-lhes: “Sou um filho da terra e do céu estrelado;
Mas minha raça é do céu (somente). Vós próprio o sabeis.
E – ai de mim! – estou ressequido de sede, e pereço. Dai-me rapidamente
A água fresca que flui da Fonte da Memória.
E eles mesmos te darão de beber do manancial sagrado,
E desde então tu dominarás entre os outros heróis“. (11)

As almas puras devem beber da sagrada fonte da memória, ao passo que as almas impuras devem banhar-se no rio Lete afim de se esquecer de seus “pecados” e iniquidades e poderem reencarnar. As almas puras poderão manter seu Ser e habitar junto aos deuses, em companhia dos heróis.

Mas voltemos à Agostinho. Diz o bispo de Hipona que nos recônditos do palácio da memória estão guardados todas as sensações e vivências dos indivíduos. Nas inúmeras concavidades e recônditos secretos estas imagens apresentam-se à inteligência, que as une, relaciona e ordena. Algumas imagens que residem na memória são fornecidas pelos sentidos, mas o entendimento que reside na memória não é. No livro X, capítulos 10-12 das Confissões , o autor exemplifica afirmando que, apesar de ter ouvido haver três espécies questões (12), não foi por nenhum dos sentidos do corpo que atingiu o significado contido nestes sons, mas o viu somente em espírito. Da mesma maneira, as inúmeras regras dos números e das dimensões estão guardadas na memória, mas não vieram pelos sentidos. Como resume Agostinho “os números são uma coisa e as idéias que eles exprimem outras”. (13)

De uma forma diferente, a felicidade também habita na memória. O homem antes do pecado original, foi em um tempo feliz, e ainda há resquícios desta felicidade. A vida feliz só pode ser alcançada quando se busca a Deus. É voltando a ele que o homem atinge a verdadeira felicidade, e seu ser se completa. Como diz Agostinho, “Tarde Vos Amei, Senhor”, pois sem que ele o soubesse, Deus sempre esteve presente em sua vida, e sua desesperança só teve fim quando retornou à Deus, ou quando se lembrou de Deus. Esta volta só pode ser feita por intermédio do Cristo. A teoria agostiniana de reminiscência afasta-se da teoria platônica, contudo. Nesta, a alma contempla as Formas eternas antes de nascer, em outro mundo. (14) Em Agostinho a contemplação da luz divina não é uma lembrança da vivência anterior da alma, mas uma irradiação presente. Deus ilumina o intelecto com sua luz, tornando-o capaz de conhecer segundo sua ordem natural.

Para Agostinho, todos os homens querem ser alegres e felizes, mas a verdadeira alegria só vem de Deus. A carne e seus apelos, a matéria, podem levar o homem a confundir-se e fazer aquilo que pode fazer, mas não aquilo que realmente quer fazer. Deus é a felicidade porque é a verdade. E a alegria reside na verdade. Esta é uma só, e Deus a sua fonte. Reside ela na memória, pois, como exemplifica Agostinho, desde o episódio de sua iluminação em que encontrou a serenidade de espírito, Agostinho encontrou sempre a mesma verdade, e dela se lembrou. Desde que conheceu a Deus, dele se esqueceu, e este permanece em sua memória como fonte de suas delícias.

Resumindo, o homem deve invocar a Deus, mas este já habita nele. Para voltar a encontrar a verdade, tem de purificar sua alma, livrando-se principalmente do orgulho e da soberba, das comoções da carne, seguindo exemplo de Jesus Cristo, que foi ao mesmo tempo Deus e homem, verbo imortal e carne perecível. Este morreu para salvar o homem do pecado original.

Notas

(1) Este episódio pode assim ser descrito brevemente: Agostinho buscava angustiado a solução para o problema da existência, em um sofrido conflito consigo mesmo, quando, no jardim de sua casa cai em pranto e se afasta do seu companheiro Alípio. Chorava então na sombra de uma figueira, clamando a Deus por uma solução, quando ouve uma voz de criança oriunda das vizinhanças, que em canto repetia “Toma e lê, Toma e lê”. Interpreta isso como um sinal para que leia alguma lição evangélica ao acaso, a exemplo do que ocorrera com Antão. Volta então à companhia de Alípio, aonde havia deixado a Bíblia e lê uma passagem de Paulo de Tarso. Seu coração então é penetrado pela luz da serenidade e sua alma inundada pela paz. Esta conhecida historieta, interpretada como um milagre, é narrada no capítulo 12 do Livro VIII das Confissões .
(2) A tradução usada da Bíblia foi a de João Ferreira de Almeida. Este trecho, contudo, é controverso, pois no início deste capítulo Isaías dá a entender que se trata de um poderoso tirano da Babilônia, possivelmente Nabucodonossor.
(3) Pode-se dizer de uma maneira geral a maior parte da obra de Platão está identificada com a procura da definição e prática da virtude. O tema da superioridade da alma sobre o corpo, e de sua purificação durante a vida para que não seja punida após a morte é explicitado, por exemplo no último livro da República e no diálogo Fédon .
(4) Esta desavença está mostrada em Sermo 150, 7, 9 apud Novaes, Moacyr, op. cit . Porfírio, como se sabe, foi o organizador das obras do principal neoplatônico, Plotino, este por sua vez discípulo de Amônio Sacas.
(5) Gen 1, 27 , que diz : “E criou o homem à sua imagem e semelhança, à imagem de Deus o criou: macho e fêmea os criou”. Uma nota destoante de nossos propósitos, mas interessante é a observação de que a criação da fêmea está contida neste versículo, porém Eva só é criada posteriormente em 2, 21. Isto deu origem à lenda de Lilibith, que teria sido a primeira companheira de Adão, símbolo máximo da feminilidade arrebatada.
(6) O tema do auto conhecimento – a essência, afinal, das Confissões , é, como sabemos, caro para toda a tradição filosófica, desde a sua origem. Platão no início do Protágoras encara este ( gnôthi s´authon – Conhece-te a ti mesmo) um dos princípios máximos da antiga filosofia Lacedemônica, sendo depois inscrito na entrada do Oráculo de Delphos. O outro princípio máximo dos lacedemônicos era “Nada em excesso”, que está de pleno acordo com o tema da mediania, da justa medida, da prudência, que permeia tanto a mitologia quanto a filosofia grega – por exemplo na Ética a Nicômaco de Aristóteles, aonde este define a virtude como um meio termo entre a falta e o excesso.
(7) “Se não crerdes não entendereis” é a fórmula agostiniana que ficou famosíssima como mais um dos chavões usados para exemplificar e sintetizar o pensamento de um filósofo, e foi retirada do profeta Elias, 7, 9. “Entretanto a cabeça de Efraim será Samaria, e a cabeça de Samaria, o filho de Remalias, se o não crerdes, certamente não ficareis firme”.
(8) Deus em sua totalidade é insondável, e qualquer tentativa de abarcá-lo com palavras está fadada ao fracasso. Agostinho retira do Êxodo o que julga ser a melhor definição. Neste trecho Moisés pergunta ao Senhor o que deve dizer na Aldeia quando lhe perguntarem quem encontrou, e Deus assim se define “Eu sou o que Sou”, ou em outras traduções, “Eu sou aquele que é”.
(9) O orfismo foi o criador da metempsicose (transmigração das almas), e associado ao pitagorismo, deu origem a uma das mais veneráveis e secretas seitas de todos os tempos. Baseia-se sobretudo no mito de Orfeu e Eurídice. Este mito pode ser assim resumido: Orfeu era filho do deus Eagro e da musa da Poesia trágica Calíope (portanto neto da memória). Encantava a todos com o seus versos e sua lira. Se casou com a adorável nêiade Eurídice, mas o matrimônio durou pouco, pois esta, fugindo de um pastor, morreu ao ser picada por uma cobra venenosa. As súplicas da música dolorosa de Orfeu tocaram aos deuses, e lhe foi concedido resgatar sua amada no reino das sombras (o Hades), desde que durante a volta não olhasse para trás e visse Eurídice sequer uma vez. Tomado pelo amor e curiosidade, Orfeu dá uma olhadela, e ele vê sua esposa sofrer a segunda morte. Este mito é erroneamente tomado como a única ocasião em que foi concedido a um mortal penetrar no reino do Hades com vida e retornar, mas isto não é verdade, pois Odisseu (ou Ulisses), como é relatado no canto XI da Odisséia, graças à deusa Circe, consegue penetrar na mansão de Hades e de sua terrível esposa Perséfone. Lá vagueiam cegas as almas dos mortos, e Odisseu conversa com eles, inclusive com sua mãe.
(10) O problema do guia no Hades era fundamental, visto que ao morrer as almas ficam cegas, e transformam-se em sombras. Para tomar o caminho certo nos recônditos do Hades, ir aos Campos Elíseos, por exemplo, era preciso que o homem tivesse um bom guia, um bom daimon. Aliás, a origem da palavra felicidade em grego ( eudaimonia ) está naqueles escolhidos pelos deuses para ter um daimon .
(11) Poema inscrito na tábua de Petélia, citado por Bertrand Russel em História da Filosofia Ocidental vol.1 e por Junito de Souza Brandão em Mitologia Grega , vol. 1.
(12) No exemplo ele fala de “se uma coisa existe ( an sit )? qual sua natureza ( quid sit )? e qual sua qualidade ( quale sit )?”.
(13) capítulo XII do Livro X. Em outras palavras, a imagem do número fornecida pelos sentidos é diversa de seu significado.
(14) Em Platão, como é sabido, conhecer é se lembrar. A melhor ilustração da teoria da reminiscência de Platão está contida no Mênon , em que Sócrates, dialogando com um jovem e inculto escravo, o força a reconhecer um problema complexo de leis geômétricas em quadradados, apenas através de hipóteses e da lógica.

BIBLIOGRAFIA PRINCIPAL

* Agostinho, Santo. Confissões . Tradução de J. Oliveira e A. Ambrósio de Pina. Livraria Apostolado da Imprensa, 5ª edição. Porto, Portugal, 1955 .
* Agostinho, Santo. Confissões e De Magistro da Coleção Os Pensadores. Editora Abril Cultural. Vida e Obra de José Américo de Mota Pessanha.
* Agostinho, Santo. Do Livre Arbítrio . Tradução de Antônio Soares Pinheiro. Editora da Universidade de Braga, Faculdade de Filosofia.
* Novaes, Moacyr. Nota sobre o problema da Universalidade em Agostinho, do ponto de vista da relação entre fé e razão. Cadernos História da Filosofia e Ciência. pg 31-54. vol. 7 nº2. Editora Unicamp. Campinas, 1997.

BIBLIOGRAFIA AUXILIAR

* Brandão, Junito de Souza. Mitologia Grega , volume 1. Editora Vozes. São Paulo, 1987.
* Homero Odisséia Tradução de Jaime Bruna. Editora Cultrix. São Paulo, 1976.
* Russel, Bertrand . História da Filosofia Ocidental . Tradução de Brenno Silveira. Companhia Editora Nacional. São Paulo, 1957.
* A Bíblia Sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida. Sociedade Bíblica do Brasil. Brasília, 1969.
* Web Site sobre Mitologia de Luciano Miranda. Texto sobre Orfeu. http://meltingpot.fortunecity.com/malta/242/mitologia.htm
* The Internet Classics Archives – do Massachussets Institute of Technology. http://classics.mit.edu/ – Consultas às edições online de obras clássicas.
* Anotações das aulas do professor Estevão no curso de História da Filosofia Medieval I, FFLCH- USP.

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