Todo homem pode ir a Cristo?

Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou o não trouxer;
e eu o ressuscitarei no último dia

(João 6:44)

E dizia: Por isso eu vos disse que ninguém pode vir a mim,
se por meu Pai não lhe for concedido

(João 6:65)

Estas palavras do Senhor Jesus cristo se opõem diretamente à expressão popu- lar de que cada pessoa ou aceita ou rejeita Jesus Cristo como Salvador. E estas palavras  simples  de  Cristo  são  tão ofensivas  aos homens hoje como o foram quando Ele as falou pela primeira vez. Para que não houvesse nenhum mal en- tendimento sobre o que queria dizer, repetiu tudo outra vez, mudando as pala- vras só o bastante para tornar claro o significado, e  enfatizar  a  escravidão  da vontade humana nas coisas espirituais. É verdade que cada homem pode rejeitar a Cristo, mas ninguém, a não ser aqueles que recebem fé po- dem aceitá-lO. E quem quiser olhar na língua original (grego) esperando que a expressão seja de algum modo mais suave vai ficar desapontado. O texto grego diz: “Ninguém é capaz de vir a mim, a não ser que o Pai que enviou o atraia”.

É triste ver crentes professos negando estas palavras tão claras de Jesus e se o- pondo e difamando homens por pregarem o que Jesus falou. Parece com o espí- rito daqueles que, ao ouvirem Jesus pronunciar estas palavras há tempos atrás, deram-lhe as costas e não andaram mais com Ele. Por outro lado aqueles que, como Pedro, apegaram à autoridade de Cristo e se apegaram a Ele, não devem abusar de Suas palavras nem tirar conclusões erradas delas. Que possamos pen- sar nelas hoje, de tal maneira que produzam humildade e gratidão de coração.

Já se fez um esforço para explicar estas palavras dizendo-se que Deus atrai todo mundo, mas que alguns não cedem nem vêm, ao passo que outros cedem e vêm. Se isto for verdade, então Deus realmente não atrai ninguém a Cristo, mas tenta simplesmente atrair. Não seria a atração do Pai a causa de alguém vir a Cristo, mas sim a própria boa vontade de alguém em vir. E, se os homens estão dispos- tos a vir a Cristo, não necessitam ser atraídos. O texto significa que ninguém está disposto a vir, a menos que seja atraído. O pecador fica longe por sua própria vontade: ele só vem através do poder do Pai de o atrair. Se Deus não pode atrair o pecador a Cristo, então quem pode? O pecador? O próprio pregador? Se dis- sermos isto é o mesmo que dizer que uma pessoa pode ficar suspendido no ar se- gurando os próprios cardarços.

A ESCRAVIDÃO DA VONTADE HUMANA NAS COISAS ESPIRITUAIS

A vontade humana é a capacidade ou órgão de ação e tem competência em as- suntos morais e naturais, mas está sujeita e presa a uma natureza corrupta e de- pravada nas coisas santas e espirituais. Negar isto e dizer que o homem é tão capaz de escolher a santidade quanto é de escolher o pecado, é negar a queda do homem e colocá-lo onde Adão estava antes de pecar e ca- ir. Vamos tentar entender este texto em atitude de oração e com muito cuidado. Jesus disse que nenhum homem podia vir a Ele, a menos que fosse atraído (trazi- do) pelo Pai.

1. Vir a Cristo é o mesmo que crer nEle. É o ato de vontade pelo qual o pe- cador depende de Cristo para a salvação. A ação física não é envolvida ! O pro- cesso é mental e espiritual. No versículo 35, “Vir a Cristo” é “crer em Cristo” são usados num mesmo sentido. Vir a Cristo envolve renunciar toda a confi- ança em si, confiando unicamente em Cristo como Salvador e Se- nhor.

2. Minha compreensão deste texto não contradiz ao ensinamento bíblico que diz que “todo aquele que crê” pode ser salvo. Quem me ouve pregar agora ou já me ouviu pregar antes, sabe que tenho enfatizado, e ainda faço, sobre a disposição e capacidade de Cristo de salvar cada alma que vem a Ele. As palavras de Jesus: “E o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora” (João 6:37), talvez se- jam mais citadas do que qualquer outra passagem na Bíblia.  O que fizemos no passado, fazemos no presente e ainda faremos no futuro é afirmar que ninguém virá a Cristo, a menos que seja atraído (trazido) pelo Pai, e que todos aqueles que forem atraídos pelo Pai virão.

Eis uma ilustração simples, análoga à que o próprio Cristo deu em Lucas 14:16- 23. Ofereço um jantar ás 20 horas e faço um convite geral a todos na comunida- de para que compareçam. Digo: “Quem quiser, pode vir”. Mas suponha que não tenha amigo nenhum na comunidade. Todos me odeiam, e portanto, o convite é completamente desprezado e rejeitado. Ninguém virá. Mas há pessoas educadas nessa rejeição, que dão várias desculpas. Um diz que tem que trabalhar na lavou- ra, outro diz que tem que fazer um teste com o carro novo que comprou e outro diz que acabou de casar e quer ficar em casa com a esposa. Será que não dá para eu entender que não vieram simplesmente porque não quiseram? Ninguém tra- balha na lavoura à noite; o do carro podia ir nele e o recém-casado podia trazer a esposa ! todos estavam convidados. Meu convite para “quem quiser? trouxe al- guém? Não! Ninguém apareceu, pois me odeiam e não tem comunhão comigo. É a mesma coisa com o convite de Deus para “quem quiser”. Ninguém virá. Na pa- rábola, representando a grande festa do Evangelho de Deus, cada um dá uma desculpa e ninguém aceita o convite. Em João 5:40. Cristo diz:”E não quereis vir a mim para terdes vida“. Esta passagem explica o “não pode” do meu texto. Não podem porque não querem. É a incapacidade da vontade do homem que por na- tureza é inimigo de Deus (Romanos 8:7), e a quem as coisas do Espírito de Deus são loucura (I Coríntios 2:14).

3. Todo homem tem a permissão de vir a Cristo, mas nenhum homem tem o po- der para vir a Cristo, se não for atraído pelo Pai. As palavras ter a permissão e ter o poder não são a mesma coisa. O dicionário explica: “Poder expressa capa- cidade quer física ou mental; permissão expressa a autorização ou aprovação. Quando um rapaz pergunta a uma moça se permite que a acompanha até a casa e ela responde “sim”, ela está simplesmente lhe dando permissão e não a capaci- dade ou força de andar ao lado dela. Se ele perguntar se tem a capacidade (força ou poder) de acompanhá-la até sua casa, provavelmente responderá: “Parece bastante forte para chegar até lá”. Eu posso perguntar; “Tenho a sua permissão para levantar este carro”? Você pode responder; “Sim tem a minha permissão”. Mas se eu perguntar; “Eu tenho o poder (força) para levantar este carro”? Você pode estar com dúvida que é possível que eu possa fazer isso.Um expressa a per- missão, outro a força (poder). Nosso texto não nega a permissão para que os ho- mens venham a Cristo, mas nega o poder deles de virem. Cada pecador que ouve o Evangelho tem permissão de vir a Cristo. De fato, tem até uma ordem para vir. Porém, sua incapacidade não é física nem na- tural,  é mental e espiritual. É a disposição arruinada e pecaminosa da mente e do coração que o torna incapaz.

4. As Escrituras fazem distinção entre ter uma coisa ao alcance da mão, e ter es- ta mesma coisa ao alcance do coração. Lemos em Provérbios 3:27-28: “Não dei- xes de fazer bem a quem merece, estando em tuas mãos a capacidade de fazê- lo. Não digas ao teu próximo: Vai, e volta amanhã que te darei, se já o tens con- tigo”. Há poder em sua mão, quando existe os meios para se fazer certa coisa. Lemos em 1 Crônicas 28:2-3 que Davi propôs no coração construir uma casa pa- ra o Senhor, mas não teve permissão para fazê-lo porque era um homem de san- gue. Tem-se o poder no coração, quando deseja ou se está disposto a fazer certa coisa. Um ato voluntário depende tanto dos meios quanto da disposição, e quan- do há falta de um dos dois, pode-se dizer que realmente não dá para se fazer tal coisa. Um homem cobiçoso pode ser milionário, mas é preciso mais do que di- nheiro, a fim de fazê-lo ajudar o pobre com alegria. É preciso que sinta no cora- ção o desejo de dar. Cada pecador que ouve o Evangelho tem nas suas mãos o meio de ser salvo, mas não tem, no coração, o desejo de crer no Evangelho. A regeneração, de acordo com a Confissão de Fé de New Hampshire consiste em dar uma disposição santa na mente, a fim de se assegurar a aceitação voluntária do Evangelho. Faraó tinha meios para entender a missão de Moisés e deixar Israel ir, mas era um degenerado e odiava a Deus, por isso não se dispôs a libertar o povo de Deus. Nosso Senhor falava sobre uma disposi- ção pecaminosa e vontade depravada, ao dizer que ninguém podia vir a Ele, a menos que o Pai o atraísse. Quem é a pessoa que se atreve a negar que cada pe- cador, que não é regenerado, tem uma disposição pecaminosa? E esta disposição vem de uma mente que odeia a Deus e de um coração que é desesperadamente mau.

O PODER DO PAI DE ATRAIR (TRAZER)

Nosso texto atribui ao Pai o poder de atrair e afirma que é esta a razão única, que faz um pecador vir a Cristo. O que impede os pecadores de virem a Cristo é a falta de disposição que têm, a qual Cristo chama incapacidade; o que os traz a Cristo é o poder de Deus de atraí-los.

1. Nosso texto encoraja pastores e outros obreiros crentes que desejam ganhar almas para Cristo. Há um poder divino que torna nosso testemunho eficaz na salvação dos pecadores. Somos apoiados por Aquele que nos chamou e Ele não permitirá que Sua palavra volte para Si vazia. Contudo, os pecadores não virão a Cristo por si mesmos; por mais que imploremos, mas existe Alguém que pode atraí-los a Cristo. Assim, o poder de Deus é nossa esperança de sucesso após pregarmos a Cristo fielmente, que foi crucificado, como a única esperança dos homens perdidos. Devemos pregar com mansidão. A Bíblia diz: Instruindo com mansidão os que resistem, a ver se porventura Deus lhes dará arrependimento para conhecerem a verdade. E tornarem a desper- tar, desprendendo-se dos laços do diabo, em que à vontade deles estão presos“.

2. O que Deus faz para atrair um pecador a Cristo? Ele age na natureza do peca- dor, em sua mente, coração e vontade. Ele não o arrasta fisicamente, pelos cabe- los. Há um velho ditado que diz que a gente pode levar um cavalo até a água, mas não podemos fazê-lo beber. Você pode levar o Evangelho ao pecador, mas não pode fazer com que se aproprie dele. Você não pode obrigá- lo a fazer o que precisa para ser salvo. Jesus disse em João 6:51: “Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém comer deste pão, viverá para sempre”. Deus pode fazer o cavalo beber e também pode fazer o pecador confiar em Cristo. Nossa responsabilidade é levar Cristo, o Evangelho, ao peca- dor. É prerrogativa de Deus dar-lhe a fé para crer em Cristo.

Deus atrai o pecador através de um ensinamento interior. João 6:45: Todo a- quele que do pai ouviu e aprendeu vem a mim“. Este ensinamento não é feito através do ministério humano, pois muitos que ouvem a pregação nunca vão a Cristo. Este ensinamento é do Pai que dá um entendimento espiritual, atra- vés da graça. Thomas Goodwin, um pregador inglês, chama isto um instinto que Deus implanta na alma, de forma que o pecador confia instintivamente em Cris- to, para ser salvo. Do mesmo modo, Deus ensina aos crentes que se amem. Paulo escreveu aos Tessalonicenses em 1 Ts 4:9: “Quanto, porém, ao amor fraternal, não necessitais de que vos escreva, visto que vós mesmos estais instruídos por Deus que vos ameis uns aos outros”. No novo nascimento Deus implanta o ins- tinto do amor pelos irmãos no coração. Através do mesmo processo, implanta o instinto da fé em Cristo.

Deus não força o pecador a crer em Cristo. Ele exerce poder, mas não a força. Se fosse que Deus leva o pecador a Cristo à força, significaria que Deus leva o peca- dor a Cristo contra a vontade do pecador. Deus não faz isso, mas exerce poder, fazendo com que o pecador tenha a vontade. É com a vontade que o pecador re- jeita Cristo, e é com ela que ele O aceita. No primeiro caso (rejeitar Cristo), é a vontade do velho homem: “que se corrompe pelas concupiscências do engano”. No segundo (aceitar Cristo): “que segundo Deus é criado em verdadeira justiça e santidade”.

Eis uma ilustração de poder sem força. Imagine um cocho de 3 metros cheio de água. A extremidade à esquerda é mais alta que a da direita, por isso a água es- corre para a direita. Se quisesse fazer a água escorrer para a esquerda, teria que usar a força ! a água teria que ser forçada contra a lei da gravidade. Mas eu le- vantar a extremidade à direita, de maneira a ficar mais alta que a da esquerda, não seria necessária nenhuma força, a fim de fazer a água escorrer para a esquer- da ! ela seguiria o fluxo de acordo com a natureza de escorrer para baixo. Exerci poder ao mudar o nível do cocho, mas não usei força em relação à água.  Nem mesmo a toquei. Agi sobre o cocho. Da mesma maneira Deus atrai o pecador a Cristo ! Ele não lhe força a vontade. Deus exerce poder, causando uma mudança na natureza do homem. O Dr. Robertson, no seu livro “Retratos de Palavras” (Word Pictures em inglês), diz que: “Os impulsos da fé vêm de Deus. Jesus não espera que todos creiam e parece implicar que Judas realmente não creu”. Mas adiante, ele diz que: “Jesus fez uma diferença entre os crentes verdadeiros e os falsos. Estes falsos crentes que queriam só os pães e peixes e poder político, deram bruscamente as costas a Jesus. Mas os discípulos verdadeiros se recusa- ram a ir, quando Jesus perguntou se quiseram também abandoná-lo”.

Escrito por: C. D. Cole
Fonte:  www.palavraprudente.com.br

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