Arquivo do mês: maio 2012

Soneto a Cristo Crucificado

Não me move, meu Deus, para querer-Te
O céu que me tens prometido,
Nem me move o inferno tão temido
Para deixar por isso de ofender-Te.

Tu me moves, Senhor, move-me ver-Te
Cravado em uma Cruz e escarnecido,
Move-me ver teu Corpo tão ferido,
Movem-me tuas afrontas e tua morte.

Move-me, enfim, o teu amor, e de tal maneira,
Que a não haver céu, ainda Te amara,
E a não haver inferno Te temera.

Nada tens que me dar porque Te queira,
Pois mesmo que eu não esperasse o que espero,
O mesmo que Te quero Te quereria.

São João de Ávila

(tradução do espanhol para português e os comentários seguintes extraídos da página Spe Deus)

Nunca o amor de Cristo crucificado havia atingido um tal grau de pureza e intensidade na sensibilidade da expressão poética (…) Este soneto esquece as recompensas e punições para suscitar um amor, que por ser verdadeiro, não necessita do castigo, mas nasce limpo e profundo da contemplação dolorosa do martírio com que Cristo redime o homem. Essa é a única razão eficaz que pode mover a afastar-se da ingratidão do ultraje, a quem vem para nos amar de modo tão excessivo. (…) As duas últimas estrofes (…) reforçam e convencem a amar a Cristo acima de qualquer outra consideração ilegítima e mesquinha.

O estilo é direto, energético, quase penitencial (…). Não é a beleza criativa da linguagem que define este soneto, mas a força de renunciar a tudo o que não seja amar a quem, por amor, deixou massacrar o Seu Corpo.

Pe. Angel Martin

Anúncios

O Concílio Vaticano II

“O Concílio Vaticano II constituiu uma dádiva do Espírito à sua Igreja. É por este motivo que permanece como um evento fundamental não só para compreender a história da Igreja no fim do século mas também, e sobretudo, para verificar a presença permanente do Ressuscitado ao lado da sua Esposa no meio das vicissitudes do mundo. Mediante a Assembleia conciliar, […] pôde-se constatar que o patrimônio de dois mil anos de fé se conservou na sua originalidade autêntica”. (João Paulo II – 2000)

Como interpretar o Concílio Vaticano II? O evento conciliar é uma ruptura na história da Igreja? Ou, conforme o convite do magistério, não será que é necessário interpretar os textos do concílio à luz da grande tradição da Igreja?

Este foi o tema principal de uma convenção internacional com seis encontros, de 1º de março até a quinta-feira, 17 de maio, na Pontifícia Universidade Lateranense.

Historiadores e teólogos italianos e franceses discutiram a Gaudium et Spes no encontro conclusivo, cujo material de apresentação informava:

“Passados 50 anos desde o começo dos trabalhos, a questão da hermenêutica conciliar ainda hoje levanta uma discussão profunda entre os historiadores e os teólogos. Enquanto alguns insistem na novidade do evento e nas suas decisões em relação ao passado, outros tentam encaixar os seus ensinamentos na continuidade da história da Igreja”.

Para esclarecer os termos deste debate, o Comitê Pontifício de Ciências Históricas, em colaboração com o Centro de Estudos e Pesquisas sobre o Concílio Vaticano II, da Universidade Lateranense, e o Institut Français, Centre Saint-Louis, organizaram estes encontros para uma releitura dos grandes textos do Concílio, acompanhada pela explicação esclarecedora de um teólogo e de historiador.

Os relatores presentes em cada conferência provêm, cada um, de uma universidade francesa e de uma italiana ou pontifícia. Para tentar fazer um balanço das reuniões, ZENIT entrevistou o professor Philippe Chenaux, diretor do Centro de Estudos sobre o Concílio Vaticano II, da Pontifícia Universidade Lateranense.

Leia a entrevista aqui!

Logo abaixo apresento o vídeo do Padre Paulo Ricardo sobre o Concílio Vaticano II, e também todos os documentos desta reunião, para que você conheça o que ela nos propõe.

Documentos do Concílio Vaticano II

Constituições

Declarações

Decretos

  • AD GENTES – sobre a atividade missionaria da Igreja

Mensagem de Pentecostes

Dentro de alguns dias, festejaremos o Pentecostes. No tempo de Jesus, e ainda hoje, os judeus celebram neste dia a entrega das tábuas da Lei a Moisés, no Sinai. Foi o cumprimento da promessa feita a Abraão, aliança feita doravante, já não a um homem ou a uma família, mas a um povo, escolhido, eleito. Neste mesmo dia, os cristãos celebram a vinda do Espírito Santo, o dom prometido por Jesus e já anunciado pelo profeta Joel (cf. Jl 3,1), o cumprimento da nova e eterna Aliança, inaugurada pela morte e ressurreição de Cristo, o nascimento do novo povo de Deus, a Igreja.

Chegada, pois, a tarde daquele dia, o primeiro da semana, e cerradas as portas onde os discípulos, com medo dos judeus, se tinham ajuntado, chegou Jesus, e pôs-se no meio, e disse-lhes: Paz seja convosco. E, dizendo isto, mostrou-lhes as suas mãos e o lado. De sorte que os discípulos se alegraram, vendo o Senhor. Disse-lhes, pois, Jesus outra vez: Paz seja convosco; assim como o Pai me enviou, também eu vos envio a vós. E, havendo dito isto, assoprou sobre eles e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo. Aqueles a quem perdoardes os pecados lhes são perdoados; e àqueles a quem os retiverdes lhes são retidos.”
(João 20:18-23)

No dia de Pentecostes, em Jerusalém, o Espírito veio como um vento que enchia a sala onde estavam os Apóstolos. Senhor e fonte de vida, ele sopra onde quer, dizia Jesus a Nicodemos (cf. Jo 3,8). Tornemo-nos disponíveis a esse sopro. Que ele nos transforme e nos conduza na missão que recebemos no dia da Ascensão: «Ide, anunciai a Boa Nova!».

(Mensagem enviada pelo Evangelho Quotidiano aos leitores.)

E não nos deixes cair em tentação

A formulação deste pedido é para muitos escandalosa: Deus não nos conduz à tentação. Na realidade, diz-nos S. Tiago: “Ninguém que caia em tentação pode dizer: fui levado por Deus à tentação. Pois Deus não pode ser tentado a fazer o mal e Ele mesmo não leva ninguém à tentação” (Tg 1,13). A tentação vem do demônio, mas faz parte da missão messiânica de Jesus vencer as grandes tentações que desviaram a humanidade de Deus e continuam a desviar. Ele deve, como vimos, suportar as tentações até a morte na cruz e assim nos abrir o caminho da redenção. Não é só depois da morte, mas também nela e em toda a sua vida, que, por assim dizer, deve “descer ao inferno”, ao espaço das nossas tentações e derrotas, para nos pegar pela mão e nos trazer para cima. A Carta aos Hebreus atribuiu a este aspecto um valor muito especial, evidenciou-o como uma parte essencial do caminho de Jesus: “Porque Ele mesmo foi conduzido à tentação e sofreu, pode ajudar aqueles que são levados à tentação” (Hb 2,18). “Nós de fato não temos um Sumo Sacerdote que não possa compadecer-se com as nossas fraquezas, mas um que em tudo foi tentado como nós, mas que não pecou” (Hb 4, 15).

Uma vista de olhos no Livro de Jó, no qual, sob muitos aspectos, é já desenhado o mistério de Cristo, pode ajudar-nos em outros esclarecimentos. Satanás escarnece do homem para escarnecer de Deus: a sua criatura, que Ele criou à sua imagem, é uma criatura miserável. Tudo o que nela parece bom é apenas fachada; na realidade, o que interessa ao homem, a cada homem, é apenas e sempre o próprio bem-estar. Este é o diagnóstico de Satanás, que o Apocalipse caracteriza como o “acusador dos nossos irmãos“, “que os acusa dia e noite diante de Deus” (Ap 12,10). A difamação do homem e da criação é, em última análise, difamação de Deus, justificação para a sua renúncia. Satanás quer demonstrar em Jó a sua tese: quando tudo lhe for tirado, também ele deixará cair a sua piedade. Então Deus dá a Satanás a liberdade para a provação, mesmo se com limites bem definidos.

Deus não deixa o homem cair, mas ser provado. Aqui aparece de modo muito suave, quase imperceptível, o mistério da representação que alcança grande forma em Isaías, capítulo 53: os sofrimentos de Jó servem para a justificação do homem. Ele restabelece, por meio da sua fé conservada  no sofrimento, a honra do homem. Assim, os sofrimentos de Jó são antecipadamente sofrimentos em comunhão com Cristo, que restabeleceu para todos nós a honra perante Deus e nos mostra o caminho para, mesmo na obscuridade, não perdermos a fé em Deus.

O Livro de Jó pode também nos ajudar numa distinção entre provação e tentação. Para se tornar maduro, o homem precisa de provação, para realmente encontrar uma piedade numa sempre mais fundamentada comunhão de ser com a vontade de Deus. Tal como o sumo da uva deve fermentar para se tornar um vinho generoso, do mesmo modo o homem precisa de purificações, de transformações, que são perigosas para ele, nas quais pode cair, mas que também são caminhos indispensáveis para chegar a si mesmo e a Deus. O amor é sempre mais um processo de purificações, de renúncias, de dolorosas transformações de nós mesmos e assim caminho de maturidade. Quando S. Francisco Xavier em oração com Deus podia dizer: “Eu amo-te não porque tu tens o céu ou a terra para dar, mas simplesmente porque tu és — meu rei e meu Deus”, é porque certamente tinha sido necessário um longo caminho de interiores purificações até chegar a esta última liberdade: um caminho da maturação, no qual a tentação e o perigo da queda espreitavam, e, no entanto, um caminho necessário.

Assim, já podemos explicar de modo mais concreto o sexto pedido do Pai-Nosso. Com ele dizemos a Deus: “Eu sei que preciso de provações para que o meu ser se torne puro. Se tu sobre mim dispões estas provações, se tu — como em Jó — dás ao mal um pedaço de espaço livre, então pensa, por favor, na medida limitada da minha força. Não confies demasiado em mim. Não puxes para demasiado longe os limites dentro dos quais eu posso ser tentado e estejas próximo com a tua mão protetora, quando se tornar demasiado para mim”. Foi neste sentido que S. Cipriano explicou este pedido. Ele diz: quando pedimos “e não nos conduzas à tentação”, expressamos a consciência de que o inimigo não pode tudo contra nós, se não lhe for antes permitido, de modo que, no nosso temor, a nossa doação e a nossa atenção se voltam para Deus, porque ao mal nada é permitido, se não lhe for dado o pleno poder para isso” (De dom.or. 25, p. 285s).

E ele explica então ponderadamente a forma psicológica da tentação, de tal modo que pode haver duas diferentes razões pelas quais Deus concede ao mal um poder limitado. Isso pode acontecer por penitência, para dominar o nosso orgulho, para que experimentemos de novo a pobreza da nossa fé, da nossa esperança e do nosso amor e não nos vangloriemos de sermos grandes por nós mesmos: pensemos no fariseu que conta a Deus as suas próprias obras e que parece não necessitar de nenhuma graça. Infelizmente, S. Cipriano não explica mais detalhadamente o que significa a segunda espécie da provação — a tentação que Deus nos impõe ad gloriam, para a Sua glória. Mas não devemos aqui pensar que Deus carregou com uma carga de tentação especialmente pesada aqueles homens que Lhe estavam mais próximos, os grandes santos, desde Sto. Antão no deserto até Sta. Teresa de Lisieux no mundo piedoso do seu Carmelo. Eles se situam, por assim dizer, no seguimento de Jó, como apologia do homem, que é ao mesmo tempo defesa de Deus. Mais ainda: eles estão de um modo muito especial em comunhão com Jesus Cristo, que sofreu até o fim as nossas tentações. Eles são chamados a vencer as tentações no seu próprio corpo, na sua própria alma, suportá-las por nós, as almas habituais, e nos ajudar a chegar àquele que tomou sobre si a carga de todos nós.

Na nossa oração do sexto pedido do Pai-Nosso deve estar contida, por um lado, a disponibilidade para tomarmos sobre nós mesmos a carga na provação que nos está atribuída. Mas por outro lado trata-se precisamente do pedido para que Deus não nos atribua mais do que aquilo que podemos agüentar; que Ele não nos deixe escapar das Suas mãos. Nós dizemos esta oração na certeza confiante para a qual S. Paulo nos deu estas palavras: “Deus é fiel; Ele não vai permitir que sejais tentados acima das vossas forças. Na tentação Ele há-de encontrar para vós um caminho de saída, de tal modo que a ela possais resistir” (1 Cor 10,13).

Fonte: livro Jesus de Nazaré do Cardeal Joseph Ratzinger (BentoXVI)

Ave Maria em imagens

Como estamos no mês de Maria, o mês da nossa mãe Imaculada e Cheia de Graça, que nos protege com seu manto e através de seu Filho nos cobre de bençãos, oremos o Ave Maria profundamente pelas imagens e ouvindo a versão cantada por Chitãozinho e Xororó.

Ave Maria

Cheia de Graça, o Senhor é convosco

Bendita sois vós entre as mulheres

Bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus

Santa Maria Mãe de Deus rogai por nós pecadores

Agora e na hora de nossa morte.

Amém!

O verdadeiro amor na familia

Passam-se os anos e constata-se que mais e mais o verdadeiro amor que constroi  a família está sumindo, e as pessoas vivendo paixões egoístas, e ainda dizendo estar amando. Para refletir sobre isso, apresento abaixo um texto escrito por Dom João Carlos Petrini, Bispo de Camaçari (BA) e presidente da Comissão Episcopal para a Vida e a Família, da CNBB; e depois trechos da Exortação Apostólica Familiaris Consortio escrita por João Paulo II que fala sobre a função da família cristã no mundo de hoje.

Numa sociedade que o individualismo tem uma grande força, as realizações, interesses, prazeres e desejos pessoais vêm antes das relações familiares. A família é vista como estorvo, pois exige sacrifícios, e é jogada fora. A família precisa vencer este egoísmo e crescer no amor.

O grande desafio da família é crescer no verdadeiro amor e para isso é preciso olhar para o modelo da Santíssima Trindade e para Jesus, porque ali se encontra o amor em sua perfeição mais elevada.

E qual é a característica do amor na Santíssima Trindade? Na Santíssima Trindade uma Pessoa se doa totalmente a Outra. O Pai se doa ao Filho e o Filho se doa ao Pai e o dom entre eles é o Espírito Santo.

E por outro lado qual é a característica de Jesus? É o amor que se doa. Ele ama com a paixão de um homem por uma mulher num amor de doação. Assim Ele ama a Igreja, dando Sua vida por ela. A Eucarístia e a Cruz são o ponto alto disso.

Assim, o grande desafio é não ficar numa vivência de amor precária, primitiva, vulnerável, uma maneira de amar típica de um adolescente que diz “eu gosto dessa pessoa e a quero para mim”. A maneira mais madura de amar que vem do exemplo de Jesus é aquela que diz “eu gosto daquela pessoa e estou disposto a doar a minha vida para a felicidade e o bem dela”.

Para enfrentar este desafio é necessário ter consciência do que é a relação com Cristo, entender o Sacramento do Matrimônio e entender o valor do sacrifício em benefício do outro. Aconselho os casais a participar de movimentos voltados para a família, pois a troca de experiência com outras famílias pode ajudar a entender os desafios do cotidiano e como lidar com as situações específicas de cada família.

A comunhão de amor entre Deus e os homens, conteúdo fundamental da Revelação e da experiência de fé de Israel, encontra uma sua significativa expressão na aliança nupcial, que se instaura entre o homem e a mulher.

É por isto que a palavra central da Revelação, «Deus ama o seu povo», é também pronunciada através das palavras vivas e concretas com que o homem e a mulher se declaram o seu amor conjugal. O seu vínculo de amor torna-se a imagem e o símbolo da Aliança que une Deus e o seu povo. E o mesmo pecado, que pode ferir o pacto conjugal, torna-se imagem da infidelidade do povo para com o seu Deus: a idolatria é prostituição, a infidelidade é adultério, a desobediência à lei é abandono do amor nupcial para com o Senhor. Mas a infidelidade de Israel não destrói a fidelidade eterna do Senhor e, portanto, o amor sempre fiel de Deus põe-se como exemplar das relações do amor fiel que devem existir entre os esposos.

A comunhão entre Deus e os homens encontra o seu definitivo cumprimento em Jesus Cristo, o Esposo que ama e se doa como Salvador da humanidade, unindo-a a Si como seu corpo.

Ele revela a verdade originária do matrimônio, a verdade do «princípio» e, libertando o homem da dureza do seu coração, torna-o capaz de a realizar inteiramente.

Esta revelação chega à sua definitiva plenitude no dom do amor que o Verbo de Deus faz à humanidade, assumindo a natureza humana, e no sacrifício que Jesus Cristo faz de si mesmo sobre a cruz pela sua Esposa, a Igreja. Neste sacrifício descobre-se inteiramente aquele desígnio que Deus imprimiu na humanidade do homem e da mulher, desde a sua criação; o matrimônio dos batizados torna-se assim o símbolo real da Nova e Eterna Aliança, decretada no Sangue de Cristo. O Espírito, que o Senhor infunde, doa um coração novo e torna o homem e a mulher capazes de se amarem, como Cristo nos amou. O amor conjugal atinge aquela plenitude para a qual está interiormente ordenado: a caridade conjugal, que é o modo próprio e específico com que os esposos participam e são chamados a viver a mesma caridade de Cristo que se doa sobre a Cruz.

Acolhendo e meditando fielmente a Continuar lendo

O ateísmo de hoje

O Prefeito da Congregação para o Clero, Cardeal Mauro Piacenza, recordou  esta semana aos sacerdotes o seu chamado à santidade e os exortou a trabalhar pela nova evangelização para evitar que as nações cristãs caiam em um novo tipo de ateísmo.

As nações cristãs já não sentem a tentação de ceder a um ateísmo genérico (como no passado), mas correm o risco de serem vítimas desse ateísmo particular que vem do fato de terem esquecido a beleza e o calor da Revelação Trinitária“, advertiu o Cardeal na carta publicada por ocasião da Jornada Mundial de Oração para a Santificação do Clero.

Pensando nisso resolvi pesquisar sobre o ateísmo e seus diferentes momentos, para que assim pudesse melhor ajudar aos meus irmãos no conhecimento de Deus.

Formas e raízes do ateísmo

A razão mais sublime da dignidade do homem consiste na sua vocação à união com Deus. É desde o começo da sua existência que o homem é convidado a dialogar com Deus: pois, se existe, é só porque, criado por Deus por amor, é por Ele por amor constantemente conservado; nem pode viver plenamente segundo a verdade, se não reconhecer livremente esse amor e se entregar ao seu Criador. Porém, muitos dos nossos contemporâneos não atendem a esta íntima e vital ligação a Deus, ou até a rejeitam explicitamente; de tal maneira que o ateísmo deve ser considerado entre os fatos mais graves do tempo atual e submetido a atento exame.

Com a palavra «ateísmo», designam-se fenômenos muito diversos entre si. Com efeito, existem os que:

  • negam expressamente Deus;
  • pensam que o homem não pode afirmar seja o que for a seu respeito;
  • tratam o problema de Deus de tal maneira que ele parece não ter significado;
  • ultrapassando indevidamente os limites das ciências positivas, ou pretendem explicar todas as coisas só com os recursos da ciência, ou, pelo contrário, já não admitem nenhuma verdade absoluta;
  • exaltam de tal modo o homem, que a fé em Deus perde toda a força, e parecem mais inclinados a afirmar o homem do que a negar Deus;
  • concebem Deus de uma tal maneira, que aquilo que rejeitam não é de modo algum o Deus do Evangelho;
  • que nem sequer abordam o problema de Deus: parecem alheios a qualquer inquietação religiosa e não percebem por que se devem ainda preocupar com a religião.

Além disso, o ateísmo nasce muitas vezes dum protesto violento contra o mal que existe no mundo, ou de se ter atribuído indevidamente o carácter de absoluto a certos valores humanos que passam a ocupar o lugar de Deus. A própria civilização atual, não por si mesma mas pelo fato de estar muito ligada com as realidades terrestres, torna muitas vezes mais difícil o acesso a Deus.

Sem dúvida que não estão imunes de culpa todos aqueles que procuram voluntariamente expulsar Deus do seu coração e evitar os problemas religiosos, não seguindo o ditame da própria consciência; mas os próprios crentes, muitas vezes, têm responsabilidade neste ponto. Com efeito, o ateísmo, considerado no seu conjunto, não é um fenômeno originário, antes resulta de várias causas, entre as quais se conta também a reação crítica contra as religiões e, em alguns países, principalmente contra a religião cristã. Pelo que os crentes podem ter tido parte não pequena na gênese do ateísmo, na medida em que, pela negligência na educação da sua fé, ou por exposições falaciosas da doutrina, ou ainda pelas deficiências da sua vida religiosa, moral e social, se pode dizer que antes esconderam do que revelaram o autêntico rosto de Deus e da religião.

O ateísmo sistemático

O ateísmo moderno apresenta muitas vezes uma forma sistemática, a qual, prescindindo de outros motivos, leva o desejo de autonomia do homem a um tal grau que constitui um obstáculo a qualquer dependência com relação a Deus. Os que professam tal ateísmo, pretendem que a liberdade consiste em ser o homem o seu próprio fim, autor único e demiurgo da sua história; e pensam que isso é incompatível com o reconhecimento de um Senhor, autor e fim de todas as coisas; ou que, pelo menos, torna tal afirmação plenamente supérflua. O sentimento de poder que os progressos técnicos hodiernos deram ao homem pode favorecer esta doutrina.

Não se deve passar em silêncio, entre as formas atuais de ateísmo, aquela que espera a libertação do homem sobretudo da sua libertação econômica. A esta, dizem, opõe-se por sua natureza a religião, na medida em que, dando ao homem a esperança duma enganosa vida futura, o afasta da construção da cidade terrena. Por isso, os que professam esta doutrina, quando alcançam o poder, atacam violentamente a religião, difundindo o ateísmo também por aqueles meios de pressão de que dispõe o poder público, sobretudo na educação da juventude.

Atitude da Igreja perante o ateísmo

A Igreja, fiel a Deus e aos homens, não pode deixar de reprovar com dor e com toda a firmeza, como já o fez no passado, essas doutrinas e atividades perniciosas, contrárias à razão e à experiência comum dos homens, e que destronam o homem da sua inata dignidade.

Procura, no entanto, descobrir no espírito dos ateus as causas da sua negação de Deus, e, consciente da gravidade dos problemas levantados pelo ateísmo, e, levada pelo amor dos homens, entende que elas devem ser objeto de um exame sério e profundo.

A Igreja defende que o reconhecimento de Deus de modo algum se opõe à dignidade do homem, uma vez que esta dignidade se funda e se realiza no próprio Deus. Com efeito, o homem inteligente e livre, foi constituído em sociedade por Deus Criador; mas é sobretudo chamado a unir-se, como filho, a Deus e a participar na sua felicidade. Ensina, além disso, a Igreja que a importância das tarefas terrenas não é diminuída pela esperança escatológica, mas que esta antes reforça com novos motivos a sua execução. Pelo contrário, se faltam o fundamento divino e a esperança da vida eterna, a dignidade humana é gravemente lesada, como tantas vezes se verifica nos nossos dias, e os enigmas da vida e da morte, do pecado e da dor, ficam sem solução, o que frequentemente leva os homens ao desespero.

Entretanto, cada homem permanece para si mesmo um problema insolúvel, apenas confusamente pressentido. Ninguém pode, na verdade, evitar inteiramente esta questão em certos momentos, e sobretudo nos acontecimentos mais importantes da vida. Só Deus pode responder plenamente e com toda a certeza, Ele que chama o homem a uma reflexão mais profunda e a uma busca mais humilde.

Quanto ao remédio para o ateísmo, ele há-de vir da conveniente exposição da doutrina e da vida íntegra da Igreja e dos seus membros. Pois a Igreja deve tornar presente e como que visível a Deus Pai e a seu Filho encarnado, renovando-se e purificando-se continuamente sob a direção do Espírito Santo. Isto há-de alcançar-se, antes de mais, com o testemunho duma fé viva e adulta, educada de modo a poder perceber claramente e superar as dificuldades. Magnífico testemunho desta fé deram e continuam a dar inúmeros mártires. Ela deve manifestar a sua fecundidade, penetrando toda a vida dos fiéis, mesmo a profana, levando-os à justiça e ao amor, sobretudo para com os necessitados. Finalmente, o que contribui mais que tudo para manifestar a presença de Deus é a caridade fraterna dos fiéis que unânimemente colaboram com a fé do Evangelho e se apresentam como sinal de unidade.

Ainda que rejeite inteiramente o ateísmo, todavia a Igreja proclama sinceramente que todos os homens, crentes e não-crentes, devem contribuir para a reta construção do mundo no qual vivem em comum. O que não é possível sem um prudente e sincero diálogo. Deplora, por isso, a discriminação que certos governantes introduzem entre crentes e não-crentes, com desconhecimento dos direitos fundamentais da pessoa humana. Para os crentes, reclama a liberdade efetiva, que lhes permita edificar neste mundo também o templo de Deus. Quanto aos ateus, convida-os cortêsmente a considerar com espírito aberto o Evangelho de Cristo.

Pois a Igreja sabe perfeitamente que, ao defender a dignidade da vocação do homem, restituindo a esperança àqueles que já desesperam do seu destino sublime, a sua mensagem está de acordo com os desejos mais profundos do coração humano. Longe de diminuir o homem, a sua mensagem contribui para o seu bem, difundindo luz, vida e liberdade; e, fora dela, nada pode satisfazer o coração humano: «fizeste-nos para Ti, Senhor, e o nosso coração está inquieto, enquanto não repousa em Ti» (Santo Agostinho).

O agnosticismo

O agnosticismo reveste muitas formas. Em certos casos, o agnóstico recusa-se a negar Deus. Postula, pelo contrário, a existência dum ser transcendente, incapaz de Se revelar e do qual ninguém seria capaz de dizer fosse o que fosse. Em outros casos, não se pronuncia sobre a existência de Deus, declarando ser impossível prová-la, e até afirmá-la ou negá-la.

O agnosticismo pode, por vezes, encerrar uma certa busca de Deus. Mas pode igualmente representar um indiferentismo, uma fuga perante a questão última da existência e uma preguiça da consciência moral. Com muita frequência, o agnosticismo equivale a um ateísmo prático.

Fonte:  Concílio Vaticano II e Catecismo da Igreja Católica

Leia também a Audiência de João Paulo II: Dar testemunho de Deus Pai é a resposta cristã ao ateísmo