Arquivo do mês: agosto 2012

Celebrando o nosso nascimento no Calvário

O tema que nos acompanha nestes últimos dias do mês é a Eucaristia. O Concilio Vaticano II diz que a Eucaristia é o cume da vida da Igreja e nós podemos dizer que é a Eucaristia que dá uma forma à vida Cristã.

Meus filhos, sofro novamente como dores do parto,
até que Cristo esteja formado em vocês
”.
(Gal 4, 19)

E isso quer dizer: “Quando eu anunciei-vos o Evangelho e vos fiz conhecer a Jesus, deu-nos a vida, uma vida nova, uma maneira nova de pensar e agir”. Mas com o anúncio do Evangelho não todo terminado. Os cristãos da Galácia, os gálatas, passaram grandes tentações de procurar a própria salvação fora de Cristo: é por isso que Paulo deve constantemente formar neles a existência cristã “até que Cristo esteja formado em vocês”. E isso quer dizer: “até que a vossa vida tenha a forma de Cristo”.

Forma, não é apenas o jeito exterior, mas, sobretudo, o espírito, a interioridade, o pensamento, a maneira de pensar, de escolher.

Se nós somos cristãos, a forma que nós temos que dar à nossa vida é Cristo. É claro que cada um dará esta forma de Cristo a aquilo que ele é. É preciso que a vida que sai das nossas escolhas não seja simplesmente a vida dos caprichos e das preferências, mas que tenha verdadeiramente o carinho de Jesus.

A Eucaristia é isso mesmo porque ela é capaz de dar forma a nossa vida. Se nós aprendemos a viver bem, a entender aquela Missa a qual vocês participam, muito bem, porque aquela Missa dá uma forma cristã aos vossos pensamentos e a vossa vida.

O que nós queremos entender é que: de que maneira e por que, a Missa é capaz de dar uma forma cristã aos nossos pensamentos e as nossas escolhas. E fazemos isso escutando o Novo Testamento.

Durante a refeição, Jesus tomou o pão e, depois de o benzer, partiu-o e deu-lho, dizendo: Tomai, isto é o meu corpo. Em seguida, tomou o cálice, deu graças e apresentou-lho, e todos dele beberam. E disse-lhes: Isto é o meu sangue, o sangue da aliança, que é derramado por muitos. Em verdade vos digo: já não beberei do fruto da videira, até aquele dia em que o beberei de novo no Reino de Deus.”
(Mc 14:22-25)

(1) Jesus instituiu a Eucaristia no contexto duma ceia solene. A Eucaristia, nós sabemos disso, é uma palavra grega que quer dizer “rendimento de graças”, “ação de graças”.

Era uma lei para os Hebreus que não se pudesse comer sem render graças a Deus: a oração antes da refeição é uma oração fundamental para os Hebreus. De fato, Jesus fez isso: “Enquanto eles comiam, Jesus tomou o pão e, tendo pronunciado a bênção…” esta refeição é exatamente o rendimento de graças que dizia assim:

Bendito seja o Senhor nosso Deus, Rei do Universo, que nos alimenta e isso não por causa das nossas boas obras, que doa a tua bondade sobre nós sem limites, que nos alimenta e o mundo inteiro com a tua bondade, com piedade e dá pão a cada criatura”.

Então aqui tem o reconhecimento que aquilo que se come é dom de Deus, que aquilo que se vive é dom de Deus. A Eucaristia tem antes de tudo este primeiro significado: é no contexto do rendimento de graça a Deus por tudo aquilo que nos dá. De fato, como é que começa a oração Eucarística? “Corações ao alto… Rendamos graças ao Senhor nosso Deus… É verdadeiramente coisa boa e justa…”.

E depois o prefácio nos lembra as motivações para darmos graças a Deus, antes de tudo nós devemos render graças a Deus porque nos doou Jesus Cristo. O que devo fazer quando entro na Missa?

(2) O Evangelho diz que Jesus instituiu a Eucaristia na noite que foi entregue. Foi Deus a entregar seu Filho Jesus nas mãos dos homens.

“Tomem, isto é o meu corpo… Isto é o meu sangue que é derramado em favor de muitos”.

Estas palavras são uma profecia: na última ceia Jesus profetizou a sua própria morte, para ajudar os discípulos a entenderem a sua morte na cruz [Nos Evangelhos, por três vezes Jesus fala da sua paixão]. A ceia derradeira é uma profecia: Jesus na última ceia explicou não só a sua morte, mas o sentido completo dela.

Nós acostumados a dizer que Jesus Cristo morreu pela salvação de todo mundo: isso é certo. Porém se nos colocamos no Calvário, na sexta-feira à tarde, juntos com os judeus o que nós vemos? Três condenados a morte, que morrem do mesmo jeito. O que distinguia, diferenciava a cruz de Cristo das outras?

As outras cruzes se tornam uma desonra, me afastam, provoca nojo. A cruz de Cristo, pelo contrário me atrai, se torna um motivo de esperança para mim. Uma cruz se torna motivo de esperança.

Quando eu for levantado da terra, atrairei todos a mim.”
(Jo 12, 32).

Por que esta cruz, a cruz de Cristo se torna para mim motivo de esperança, glória, consolação?

Se nós na cruz de Jesus vemos Continuar lendo

Qualquer que procurar salvar a sua vida, perdê-la-á

… e qualquer que a perder por amor de Jesus,
salvá-la-á.”

Muitas pessoas quando ouvem ou lêem essa passagem (Marcos 8:35 , Lucas 9:24 , Mateus 16:25 ), ficam chocados ou não compreendem bem o que ela diz. Para ajudá-las no entendimento, colocarei trechos bíblicos que esclarecem.

Antes de mais nada, questiona-se como pode, aqueles que “procuram salvar a suas vida, perdê-la-ão“?   Primeiramente, como é possível “salvar nossa vida“?

Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele.”
(João 3:17)

E,

Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo.”
(Romanos 10:9)

Pois, como Jesus nos disse:

Eu sou o caminho, e a verdade e a vida;
ninguém vem ao Pai, senão por mim
.”
(João 14:6)

E também:

Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos para ele, e faremos nele morada.”
(João 14:23)

E por fim, Ele nos diz:

Eu sou a porta; se alguém entrar por mim, salvar-se-á, e entrará,
e sairá, e achará pastagens.”
(João 10:9)

Assim para salvar-nos devemos seguir ao Senhor, e para isso Ele nos diz…

Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo,
e tome cada dia a sua cruz, e siga-me
.”
(Lucas 9:23)

Assim todo aquele que quiser se salvar terá que renunciar a si próprio e tomar sobre si sua cruz. Daí, entendemos o porquê do “perdê-la-á“. Agora vamos compreender a segunda parte: “qualquer que a perder por amor de Jesus, salvá-la-á“.

Vamos lembrar o que Jesus nos diz em (João 11,25):

Eu sou a ressurreição e a vida;
quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá

E nos perguntamos: como pode estarmos mortos e ainda viver? E São Paulo nos responde em (Romanos 8:10):

E, se Cristo está em vós, o corpo, na verdade, está morto por causa do pecado, mas o espírito vive por causa da justiça.”

E como viveremos?

E, se o Espírito daquele que dentre os mortos ressuscitou a Jesus habita em vós, aquele que dentre os mortos ressuscitou a Cristo também vivificará os vossos corpos mortais, pelo seu Espírito que em vós habita.”
(Romanos 8:11)

E como saber se o Espírito que dentre os mortos ressuscitou a Jesus habita em nós? Nesta direção, primeiramente, temos (1 João 4:2)

Nisto conhecereis o Espírito de Deus:
Todo o espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus

Segundo, temos em (Gálatas 5:16-17):

“… deixai-vos conduzir pelo Espírito, e não satisfareis os apetites da carne.
Porque os desejos da carne se opõem aos do Espírito, e estes aos da carne; pois são contrários uns aos outros. É por isso que não fazeis o que quereríeis.”

E por fim, em (Romanos 8:13)

Porque, se viverdes segundo a carne, morrereis; mas, se pelo Espírito mortificardes as obras da carne, vivereis.”

Mas quais são estas obras da carne? São Paulo novamente nos esclarece (Gálatas 5:19-21):

Ora, as obras da carne são estas: fornicação, impureza, libertinagem, idolatria, superstição, inimizades, brigas, ciúmes, ódio, ambição, discórdias, partidos, invejas, bebedeiras, orgias e outras coisas semelhantes.
Dessas coisas vos previno, como já vos preveni:
os que as praticarem não herdarão o Reino de Deus
! “

E mortificando as obras do corpo, teremos como fruto:

“… caridade, alegria, paz, paciência, afabilidade, bondade, fidelidade,
brandura, temperança.”
(Gálatas 5:22-23)

E Jesus nos alerta:

Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus.”
(Mateus 7:21)

E,

Porquanto a vontade daquele que me enviou é esta:
Que todo aquele que vê o Filho, e crê nele, tenha a vida eterna;
e eu o ressuscitarei no último dia
.
(João 6:40)

E nisto esta a nossa esperança, que pela misericórdia de Deus viveremos …

Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie; Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas. ”
(Efésios 2:8-10)

Fazeis isto em memória de mim

Porque eu recebi do Senhor o que também vos ensinei:
que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão; E, tendo dado graças, o partiu e disse: Tomai, comei; isto é o meu corpo que é partido por vós; fazei isto em memória de mim. Semelhantemente também, depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Este cálice é o novo testamento no meu sangue;
fazei isto, todas as vezes que beberdes, em memória de mim
.
Porque todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice
anunciais a morte do Senhor, até que venha
.”
(1 Coríntios 11:23-26)

 

Celebrando a solenidade do Corpo e Sangue de Cristo, a Igreja entende manifestar o próprio agradecimento a Deus Pai pelo dom do Seu Filho Jesus para a nossa salvação. Além do mais, através desta solenidade, os mesmos fiéis são convidados a refletir sobre o mistério da Eucaristia, mistério do qual participamos no Domingo, dia do Senhor, quando fazemos o memorial da sua morte e ressurreição.

A Igreja desde a antigüidade nos ensina que o nosso Batismo é finalizado na Eucaristia, isso quer dizer que a nossa vida cristã se realiza e, ao mesmo tempo se fortalece, só através da Eucaristia, pois é naquela circunstância que nos alimentamos do mesmo Cristo que recebemos no Espírito no dia do Batismo. A vida cristã é vida em Cristo, pois a humanidade gloriosa de Cristo deve resplandecer na sua Igreja. As leituras que ouvimos nos apresentam o sentido da vida de Jesus que deve ser também o nosso. Aquilo que Jesus é por natureza, nós conseguimos alcançá-lo no sacramento e pela graça de Deus. Por essa razão é importante aproveitar da solenidade para pararmos um momento e refletir sobre o mistério da Eucaristia no qual é contido também o mistério da nossa mesma existência.

Na noite em que foi entregue, O Senhor Jesus tomou o pão e, depois de dar graças o partiu e disse: isto é o meu corpo que é dado por vós. Fazei isso em memória de mim. Do mesmo modo depois da ceia tomou o cálice…” (1 Cor 11, 23s). O problema que devemos enfrentar é este: o que Jesus quis dizer com este gesto? O que significa este rito? Porque Jesus pediu de repeti-lo?

Aquilo que Jesus realizou, se olhado bem de perto, purificado de qualquer pré-compreensão, é um ato extremamente humano, carregado de humanidade, pois com este gesto do pão e do vinho Jesus desvenda de uma vez para todas o sentido da sua vida. Outro dado importante é que este gesto, esta revelação, Jesus realizou perante os seus discípulos, ou seja, os únicos que o tinham acompanhado desde o começo. Isso quer dizer que, para desvendarmos o mistério deste rito, precisamos ser discípulos de Jesus, ou seja, precisamos querer conhecê-lo, amá-lo, segui-lo. O mistério da Eucaristia se desvenda ao longo do caminho do discipulado: não é algo que se aprende com os instrumentos da pura razão, mas se desenrola ao longo da vida cristã. E esta necessidade de sermos discípulos também é percebida quando Ele diz: “Porque o que come e bebe indignamente, come e bebe para sua própria condenação, não discernindo o corpo do Senhor“, pois mostra que somente aqueles que discernem o corpo do Senhor comem e bebem dignamente.

Em segundo lugar, é bom salientar que o gesto que Cristo realizou na ceia derradeira resume o sentido da sua vida. De fato, Jesus veio ao mundo para manifestar à humanidade toda, perdida no egoísmo, o sentido de uma vida no amor, uma vida que realiza aquela vocação originária, que Deus tinha entregue ao homem antes do pecado. Neste sentido, qualquer pecado é sempre algo que afeta a vocação ao amor. Jesus realizou a sua vida de amor entregando-se totalmente, doando-se sem poupar nada de si. O pensamento dele era só para as pessoas que estavam ao seu redor: nada para si, tudo para eles. A vida de Jesus foi uma vida totalmente partida, por assim dizer, para os seus. É isso que impressiona, folheando com amor as páginas do Evangelho. Quanto mais se doa, tanto mais Jesus cresce: nunca se esgota. Multidões de pessoas se aproximam a Ele cada uma querendo tirar o próprio proveito, e Jesus nunca fica vazio, mas sempre tem de sobra de tudo, de amor, de atenção. Jesus nunca se cansa de amar. O amor que Ele doa não depende do amor dos outros, daquilo que recebe em troca. A maneira de Jesus amar, que é o sentido autêntico do amor, é uma crítica radical e profunda da nossa maneira egoística de amar. Nós amamos com a pretensão humana de sermos correspondidos, pois a fonte do nosso amor está no outro.

Em Jesus a fonte do amor está em Deus, no Pai que Ele busca dia e noite. É este amor divino que Jesus derrama de mãos cheias na humanidade que encontra. Por isso não se machuca se não for correspondido, pois não é isso que procura, mas somente que alguém receba um pouco do amor divino, que alguém participe daquela superabundância de amor do qual Cristo mesmo vive e participa. Este amor desinteressado, cuja fonte está em Deus, critica na raíz os nossos amores demasiadamente interessados que, na realidade, são formas disfarçadas de egoísmo. Por isso ficamos machucados se não formos correspondidos; ficamos tristes e até deprimidos toda vez que o nosso amor, por assim dizer, é desatendido. Nessa altura poderíamos nos perguntar: como é possível viver no mundo amando a todos e a todas sem nos esgotar? Como é possível vivermos como se fossemos também nós como Cristo, uma fonte inesgotável de amor (cf. Jo 7:37-39)?

Todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste cálice estareis proclamando a morte do Senhor até que ele venha” (1 Cor 11, 26).

Parece impossível viver a nossa vocação ao amor, que é a forma como Jesus nos amou, sem nos esgotarmos. Precisamos de algo que possa derreter o egoísmo que está enraizado em nós. Precisamos de algo que possa preencher o nosso vazio, pois toda vez que amamos e não somos correspondidos, ficamos com um vazio terrível dentro de nós. Toda vez que percebemos que alguém está se aproximando de nós por puro interesse, isso provoca sentimentos extremamente negativos. Para que a nossa fonte de amor nunca se esgote  precisamos do Corpo de Cristo, do corpo do Filho de Deus que veio ao mundo esbanjando amor sem nunca se esgotar.

Na ceia derradeira Jesus não apenas nos convidou para celebrarmos um rito, mas para imitarmos a sua vida. “Fazeis isto em memória de mim”, não é apenas um comando que se refere à forma externa dos gestos que Ele realizou naquela circunstância, mas sobretudo ao sentido que aqueles gestos tinham. Jesus na ceia derradeira convidou os discípulos a continuar na história o mesmo jeito dele amar, ofereceu para eles o alimento que os sustentariam. Sem a Eucaristia ninguém consegue amar do jeito que Jesus amou. Por isso no domingo, quando nos aproximamos da mesa Eucarística, não estamos cumprindo um preceito ou uma obrigação, mas estamos tomando o único alimento que nos permite realizar a nossa vocação. Jesus nos convidou para comer, ou seja, num sentido espiritual, a interiorizar o seu corpo, ou seja, a sua pessoa, o seu jeito de ser, de viver, de amar. Jesus nos convidou a internalizar a sua mesma vida para que a pudéssemos doar aos outros.

Agradecemos a Deus de ter nos oferecido o Seu Filho Jesus, alimento espiritual da nossa vida, motivo da nossa alegria plena.

Escrito por: Pe. Paolo Cugini em Bíblia Interpretada.

“Porque não nos pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus, o Senhor; e nós mesmos somos vossos servos por amor de Jesus. Porque Deus, que disse que das trevas resplandecesse a luz, é quem resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo. Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus, e não de nós. Em tudo somos atribulados, mas não angustiados; perplexos, mas não desanimados. Perseguidos, mas não desamparados; abatidos, mas não destruídos;”
(2 Coríntios 4:5-10)