Arquivo do dia: novembro 26, 2012

O Combate Espiritual – Capítulo VII

Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas convêm;
todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas edificam.”
(1 Coríntios 10:23)

Um bom uso dos poderes e primeiramente que se tenha a inteligência em guardar-se da ignorância e da curiosidade

Se a desconfiança de nós mesmos e a confiança em Deus são as nossas únicas armas neste Combate, então não somente não alcançaremos a vitória, como também cairemos em ruínas maiores. E é por isso que devemos a estas armas adicionar uma terceira que já mencionamos antes: o exercício de nossas faculdades. Este exercício se há de fazer principalmente com o entendimento e com a vontade.

Quanto ao entendimento, havemos de  guardá-lo de duas coisas que costumam o perverter. Uma é a ignorância, que o ofusca e o impede de conhecer seu próprio objeto: a verdade. E é com o exercício que o havemos de aclarar e apurar, para que possa bem ver e conhecer o que deve ser feito para afastar a alma das paixões desordenadas e orná-la com as santas virtudes.

Esta luz se pode alcançar de duas maneiras. A primeira e a mais importante é a oração: rogando ao Espírito Santo que ilumine nossos corações. Ele não nos recusará sua luz sagrada se procurarmos a Deus sinceramente, com desejo de fazer sua santa vontade, e se pusermos tudo, até o nosso juízo, aos pés de nossos confessores. A segunda é uma contínua aplicação do espírito a examinar às coisas cuidadosamente e de boa fé, para  julgá-las conforme os ensinamentos do Espírito Santo, e não de acordo com a lei do mundo, que apresentada pelos sentidos avalia apenas como parecem ser de fora.

Este exame devidamente feito nos convence de que o que o mundo corrompido ama, deseja e procura com tanta prontidão é nada mais que ilusão e mentira; que as honras e os prazeres da terra não são mais que vaidade e aflição do espírito; que as injúrias e as afrontas, de que o mundo nos carrega, produzem glória verdadeira, e as tribulações alegria; que o perdoar aos inimigos e amá-los constitui a verdadeira grandeza da alma e nossa maior semelhança com Deus; que vale mais desprezar o mundo que ser Rei dele; que obedecer de boa vontade, por amor de Deus, às criaturas mais vis é coisa mais grandiosa e generosa  que a dominação exercida sobre os maiores Príncipes;  que havemos de prezar mais o humilde conhecimento de nós mesmos que a superioridade de todas as ciências; e que o vencer e mortificar os próprios apetites, por menores que sejam, merece maior louvor e estimação que o conquistar muitas cidades, vencer com armas na mão exércitos poderosos, fazer milagres e ressuscitar mortos.

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