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O Combate Espiritual – Capítulo VIII

E peço isto: que o vosso amor cresça mais e mais em ciência e
em todo o conhecimento, para que aproveis as coisas excelentes, para que sejais sinceros, e sem escândalo algum até o dia de Cristo; cheios dos frutos de justiça, que são por Jesus Cristo, para glória e louvor de Deus.”
(Filipenses 1:9-11)

Dos obstáculos à justa apreciação das coisas e do modo de ver para as bem conhecer

O que nos impede de julgar corretamente às coisas é nossa tendência de nos deixar levar pelo amor ou ódio que nos é inspirado à primeira vista. O entendimento, obscurecido pelas paixões, não vê as coisas tais como elas são. Para evitar esta ilusão, estejais sempre com cuidado em conservar uma vontade inteiramente livre de toda afeição desordenada. Quando um objeto vos é apresentado, veja-o com os olhos da inteligência, considere-o amadurecidamente antes que o ódio o faça rejeitar, caso o objeto seja contrário às inclinações de vossa natureza, ou que o amor lhe faça abraçá-lo, caso ele flerte vossos desejos.

discernirVossa compreensão, livre das nuvens da paixão, possua uma visão plena e clara para conhecer a verdade; ela é apta a descobrir o mal sob um atrativo prazer enganoso e a discernir o bem sob o véu de um mal aparente. Mas se a vontade já se inclinou ao amor ou ao ódio por tal objeto, o entendimento é incapaz de bem julgar. A paixão que é colocada entre o objeto e o entendimento ofusca este último ao ponto de lhe fazer julgar o objeto como sendo algo diferente do que é realmente. A compreensão propõe então à vontade, sob esse deturpado julgamento, que ela em sua exaltação deixe-se ser arrastada ao amor ou ao ódio contra todas as leis da razão. A paixão obscurece mais e mais a inteligência, e a inteligência assim obscurecida faz parecer à vontade ser o objeto mais amável ou mais odioso que nunca. É assim que, sendo falha a observância da regra que coloquei e que aqui é de uma importância extrema, a inteligência e a vontade, estas faculdades tão nobres de nossa alma, vão miseravelmente a tropeçar, e a cair de erro em erro, até ao mais profundo do abismo.

Estejais então, alma cristã, com todo o cuidado de toda afeição demasiada de qualquer coisa que não tenha antes examinado com cuidado e reconhecido pelo que é verdadeiramente, à luz da inteligência, e mais ainda, à luz da graça da oração e dos conselhos do vosso Pai Espiritual.

Estas precauções, vós deveis lhes tomar principalmente em certas ações exteriores, que são boas e santas,  porque tem estas, mais que as outras, o perigo de engano e indiferença.  A má escolha do tempo ou lugar, um erro de medida, uma falta de obediência poderiam fazer você muito pernicioso, como pode ser convencido pelo exemplo de muitas pessoas que estão perdidas nos ministérios mais santos e mais louváveis.

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O Combate Espiritual – Capítulo VII

Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas convêm;
todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas edificam.”
(1 Coríntios 10:23)

Um bom uso dos poderes e primeiramente que se tenha a inteligência em guardar-se da ignorância e da curiosidade

Se a desconfiança de nós mesmos e a confiança em Deus são as nossas únicas armas neste Combate, então não somente não alcançaremos a vitória, como também cairemos em ruínas maiores. E é por isso que devemos a estas armas adicionar uma terceira que já mencionamos antes: o exercício de nossas faculdades. Este exercício se há de fazer principalmente com o entendimento e com a vontade.

Quanto ao entendimento, havemos de  guardá-lo de duas coisas que costumam o perverter. Uma é a ignorância, que o ofusca e o impede de conhecer seu próprio objeto: a verdade. E é com o exercício que o havemos de aclarar e apurar, para que possa bem ver e conhecer o que deve ser feito para afastar a alma das paixões desordenadas e orná-la com as santas virtudes.

Esta luz se pode alcançar de duas maneiras. A primeira e a mais importante é a oração: rogando ao Espírito Santo que ilumine nossos corações. Ele não nos recusará sua luz sagrada se procurarmos a Deus sinceramente, com desejo de fazer sua santa vontade, e se pusermos tudo, até o nosso juízo, aos pés de nossos confessores. A segunda é uma contínua aplicação do espírito a examinar às coisas cuidadosamente e de boa fé, para  julgá-las conforme os ensinamentos do Espírito Santo, e não de acordo com a lei do mundo, que apresentada pelos sentidos avalia apenas como parecem ser de fora.

Este exame devidamente feito nos convence de que o que o mundo corrompido ama, deseja e procura com tanta prontidão é nada mais que ilusão e mentira; que as honras e os prazeres da terra não são mais que vaidade e aflição do espírito; que as injúrias e as afrontas, de que o mundo nos carrega, produzem glória verdadeira, e as tribulações alegria; que o perdoar aos inimigos e amá-los constitui a verdadeira grandeza da alma e nossa maior semelhança com Deus; que vale mais desprezar o mundo que ser Rei dele; que obedecer de boa vontade, por amor de Deus, às criaturas mais vis é coisa mais grandiosa e generosa  que a dominação exercida sobre os maiores Príncipes;  que havemos de prezar mais o humilde conhecimento de nós mesmos que a superioridade de todas as ciências; e que o vencer e mortificar os próprios apetites, por menores que sejam, merece maior louvor e estimação que o conquistar muitas cidades, vencer com armas na mão exércitos poderosos, fazer milagres e ressuscitar mortos.

O Combate Espiritual – Capítulo VI

Espera no SENHOR, anima-te, e ele fortalecerá o teu coração;
espera, pois, no SENHOR.”
(Salmos 27:14)

De alguns avisos úteis para adquirir a desconfiança em nós e a confiança em Deus

Como a força que nos faz triunfar sobre nossos inimigos nasce principalmente da desconfiança de nós mesmos e da confiança em Deus, vejamos alguns conselhos que nos ajudarão, através da graça, a adquirir estas virtudes.

Aprenda então e grave profundamente em sua alma esta verdade incontestável de que não há nem dons naturais ou adquiridos, nem graças gratuitas, nem conhecimento perfeito da Santa Escritura, nem constância no serviço a Deus, que possa nos fazer realizar a  Vontade de Deus se, por qualquer obra boa e aceita a seus olhos divinos que tenhamos de fazer, e por qualquer tentação que tenhamos de vencer, e por qualquer perigo de que tenhamos de fugir e por qualquer cruz que tenhamos de levar conforme a sua santa vontade, não se achar o nosso coração ajudado e levantado de uma particular mercê e graça de Deus.

É necessário então que, durante nossa vida, em todos os dias, em todas as horas e em todos os momentos, tenhamos esta verdade diante dos olhos. Deste modo, em nenhum caso e por nenhum pensamento, poderemos confiar em nós mesmos.

E no que toca a confiança em Deus, haveis de saber, que tão fácil coisa é para Deus vencer poucos inimigos como vencer muitos, e da mesma maneira os fracos e inexperientes, como os fortes e experientes. Assim, ainda que uma alma esteja carregada de pecados, ainda que tenha todos os vícios e imperfeições do mundo, ainda que seja mais imperfeita do que se pode imaginar, ainda que tenha procurado por todas as vias e exercícios deixar o pecado e viver cristãmente  mas não tenha conseguido realizar a menor das boas ações, pelo contrario, tenha seguido com maior violência a carreira do mal; contudo , nem por isso deve deixar de confiar em Deus, nem deve jamais largar as armas e exercícios espirituais, antes lutar sempre com generosidade, porque haveis de saber que neste Combate Espiritual, a vitória é prometida aos que perseveram na luta e colocam a confiança no Senhor (cf. 1 Co 15:58). Se Deus permite por vezes  que seus soldados sejam feridos, jamais Ele os abandona. (cf. Gn 28:15) Lutar, este é o segredo da vitória. (cf Tg 1:12) Um remédio esta pronto para cada ferida, e este remédio cura infalivelmente aqueles que buscam o Senhor e esperam seu resgate. O dia que eles menos esperarem, eles acharão seus inimigos estendidos aos seus pés.

O Combate Espiritual – Capítulo V

Se é preciso gloriar-se, é de minhas fraquezas que me gloriarei!”
(II Coríntios 11,30)

De um erro de muitos, que tem a pusilanimidade por Virtude

É uma ilusão comum a muitos tomar como virtude o medo e a confusão que tomam conta da alma depois do pecado. Enganados pelo sentimento de dor que se mistura com a inquietação, estas pessoas não se apercebem que seus problemas nascem de um orgulho oculto e uma presunção tola. Elas confiam em suas próprias forças; e quando, pela experiência do erro, percebem que estas forças não lhes são suficientes, elas se perturbam e ficam surpresas com suas quedas, sendo para elas algo inesperado; e vendo derrubado o apoio frágil que lhes asseguravam, elas caem no desânimo e medo.

Não sucede assim ao humilde, o qual confiando só no seu Deus e nada presumindo  de si, em qualquer falta que ele cometa, ainda que lhe pese e esteja arrependido amargamente, ele não se inquieta nem se espanta, pois a tocha da verdade ilumina-o para que enxergue que tudo o que lhe sucedeu é proveniente de sua miséria e sua fraqueza.

O Combate Espiritual – Capítulo IV

Não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós, proveniente de Deus, e que não sois de vós mesmos? Porque fostes comprados por bom preço; glorificai, pois, a Deus no vosso corpo,
e no vosso espírito, os quais pertencem a Deus
.”
(1 Coríntios 6:19-20)

Como se pode saber se temos desconfiança de si mesmo e a confiança em Deus

Parece às vezes ao servo presumido, que tem alcançada a desconfiança de si e a confiança em Deus, e em verdade não é bem assim. Apurareis esta verdade a partir do efeito que as quedas produzirão sobre vós.

Porque, se estas quedas vos inquietam e vos afligem, e se elas vos tiraram a esperança de jamais avançar na virtude, isto é um sinal de que não colocastes vossa confiança em Deus, mas em vós mesmos.

E se vossa tristeza é grande e vossa desesperança profunda, isto é uma marca de que haveis muita confiança em vós mesmos e muito pouca no Senhor. De fato,  o homem que em grande parte desconfia de si mesmo e confia em Deus, quando cai, não se espanta, nem se melancoliza, nem se aflige pois reconhece que lhe sucedeu o mal por causa da sua fraqueza e da sua pouca confiança em Deus. Ele encontra nesta queda ocasião de se desconfiar mais e mais de suas forças e contar plenamente com a ajuda do Senhor. Horrorizado com suas  faltas e paixões desregradas, e com grande, quieta e pacífica dor de ter ofendido a Deus, retoma o seu caminho com redobrada coragem e ardor na luta que ele sustentará até a morte contra os inimigos da salvação.

Quisera eu que essas coisas fossem bem consideradas por certas pessoas que, após uma queda, não podem nem querem sossegar; que aspirassem ir o mais cedo possível encontrar seu pai espiritual para que pudessem se descarregar da ansiedade e inquietação que, tão e somente, procede do seu amor próprio. Dele ouvirão que o melhor a se fazer é se aproximarem do tribunal da penitência para se purificarem de suas sujeiras, e depois irem clamar na Santa Comunhão as forças necessárias para não mais caírem no pecado.

O Combate Espiritual – Capítulo III

Porque já é manifesto que vós sois a carta de Cristo, ministrada por nós, e escrita, não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo, não em tábuas de pedra, mas nas tábuas de carne do coração. E é por Cristo que temos tal confiança em Deus; Não que sejamos capazes, por nós, de pensar alguma coisa, como de nós mesmos; mas a nossa capacidade vem de Deus
(2 Coríntios 3:3-5)

DA confiança em deus

Ainda que a própria desconfiança seja tão necessária neste Combate, como vimos; contudo, se só dela temos por defesa, seremos em breve forçados a nos pôr em fuga ou a nos tomar como vencidos e desarmados pelo inimigo. Daí vem que além da desconfiança de nós mesmos, necessitamos da total confiança em Deus, dele só e nele só esperarmos todo o bem, todo o socorro e as graças que asseguram a vitória. (cf. Sl 60:11-12 ; 2Co 1:9 )

Ponde vossa confiança no Senhor e estareis seguros;”
(2 Crônicas 20:20)

Como é verdade que de nós, que somos nada, não podemos prometer outra coisa além de misérias e ruínas, donde devemos desconfiar totalmente de nossas forças;  também é certo que o Senhor nos fará vencer nossos inimigos se, para alcançar seus santos auxílios,  fortalecermos o nosso coração de uma viva confiança Nele (cf. Ro 10:11 ; 1Pe 5:5-11). E nós temos quatro meios de alcançar esta virtude.

O primeiro meio: pedindo a Deus. (cf. Ro 8:26 ; 1Jo 5:14)

O segundo meio:  considerando e vendo com os olhos da fé a Onipotência e Sabedoria infinita de sua Divina Majestade, a quem nada é impossível  ou dificultoso; sendo sua bondade sem limitação, seu inefável amor disposto a dar-nos de hora em hora, de momento em momento, toda a ajuda que precisamos para viver a vida espiritual e superarmos a nós mesmos. E a única coisa que Ele nos pede é que nos joguemos com total confiança nos braços de sua misericórdia. (cf. 1Jo 4:16 ; 2Tm 1:7 ; Mt 19:26)

E como será possível que o nosso divino Pastor, que, por trinta e três anos, correu atrás da ovelha perdida com gritos tão fortes e por caminho tão trabalhoso e espinhoso, que nele derramou todo o seu sangue e perdeu até mesmo a vida;  agora que a ovelha corre atrás Dele com a obediência de seus santos mandamentos, ou pelo menos  com o desejo (ainda que às vezes fraco, mas sincero) de lhe obedecer, chamando-o e puxando por Ele; como será possível, digo, que Ele não a veja com aqueles seus olhos de vida? Não a ouça, e não a ponha sobre os seus ombros divinos, festejando-a com todos os seus vizinhos e com os Anjos de sua glória? (cf. Mt 15:24-25 ; Ez 34:16 ; Lc 15:4-6)

Que, se não deixa o nosso misericordioso Senhor de buscar com grande amor e cuidado, e de achar na Drama do Evangelho o pecador cego e mudo, como será possível que largue aquele, que como ovelha perdida, brada e grita ao seu Pastor. (cf. Jo 9:1-7 ; Lc 11:14)

E quem poderá crer, que Deus, o qual bate sem cessar a porta de nosso coração com o desejo imenso de entrar e de cear nele, comunicando-lhe largamente seus dons; pode se fazer de desentendido, surdo e não queira entrar a esse coração que se abre e implora a sua visita?

O terceiro meio de adquirir esta salutar confiança: recorrer com a memória às verdades da Sagrada Escritura, que em mil lugares nos mostra claramente, que não ficou jamais confundido quem confiou em Deus. (cf. Ro 10:11 ; Fp 1:20 ; 1Pe 2:6)

O quarto modo, que servirá juntamente para adquirir a desconfiança de nós mesmos e a confiança em Deus, é o seguinte: não formemos nenhum projeto e nem tomemos nenhuma resolução dos quais não tenhamos antes considerado nossa fraqueza; munidos então de uma sábia desconfiança de nós mesmos, viremos nosso olhar para o poder, a sabedoria e a bondade de Deus e, cheios de confiança Nele, tomemos a resolução de agir e de combater generosamente; com estas armas unidas a oração (como diremos mais tarde) vamos obrar e combater. (cf. 2Co 12:9 ; 2Co 13:4 ; Ro 6:19)

Se não guardamos esta ordem, corremos grande risco de nos enganarmos, mesmo quando tudo parece nos indicar que a confiança em Deus é o princípio de nossas ações. Porque é tão natural ao homem a presunção de si mesmo, e esta é tão sutil, que permeia o nosso entendimento em nosso coração e se mistura imperceptivelmente na desconfiança de nós mesmos e na confiança que temos em Deus.

Estejamos pois, o quanto possível  em guarda contra à presunção e,  para estabelecer nossas obras sobre essas duas virtudes opostas a esse vício, tomando cuidado de que a consideração de nossa fraqueza vá sempre adiante da consideração da Onipotência de Deus, e ambas estas precedam as nossas ações. (cf. 2Co 10:18 ; Pv 28:26 ; 1Jo 2: 16)

O Combate Espiritual – Capítulo II

“Vigiai e orai, para que não entreis em tentação;
na verdade, o espírito está pronto, mas a carne é fraca
.”
(Mt 26:41)

A desconfiança de nós mesmos

A desconfiança de nós mesmos, nos é necessária neste combate de tal maneira, que sem ela devemos ter por certo que não só não poderíamos conseguir a desejada vitória, como não venceríamos a menor das paixões. (Mt 26:41)

Importa que desta verdade fiquemos bem persuadidos, porque nossa natureza corrompida nos empurra a ter uma vã e errada estimação de nós mesmos. Apesar de sermos um nada verdadeiramente, nem por isso deixamos de nos persuadir de que prestamos para alguma coisa, e que sem fundamento algum presumimos poder alcançar por nossas forças. (cf. Lc 17:10 ; Ro 6:16-23)

Este defeito se conhece dificultosamente, e desagrada muito aos olhos de Deus, que deseja e quer em nós um fiel conhecimento desta certíssima verdade na qual toda graça e toda virtude vem Dele, que é fonte de todo o bem, e que nós mesmos somos absolutamente incapazes de ter ao menos um pensamento bom, que lhe seja agradável. (cf. 1Co 2:12 ; 2Co 4:7 ; Ef 2:8)

E sendo também esta tão importante desconfiança uma obra do seu poder divino, um dom que ele dá aos seus amados servos, às vezes através de santas inspirações, outras vezes  com amargas provações, por tentações violentas e quase insuperáveis, ou com outros meios, que não podemos chegar a entender; apesar disto, querendo Ele que juntamente façamos de nossa parte o que convém, eu vos proponho quatro meios, que com a graça de Deus, podereis conseguir esta desconfiança. (1Pe 1:6 ; At 14:22 ; Ro 5:2-5 ; 1Co 2:5)

Porque Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar,
segundo a sua boa vontade
.”
(Filipenses 2:13)

O primeiro é que vos considereis e conheçais a vossa vileza, e limitado ser, e que não sois capazes de obrar bem algum por vós mesmos, por onde mereçais entrar no Reino dos Céus. (Lc 17:10 ; 2Co 9:8 ; Mc 8:34)

O segundo, é que com fervorosas e humildes orações peçais esta importante virtude ao Senhor, aquele que é o único que nos a pode dar. Confessemos primeiro que, não somente não a temos, mas que por nós mesmos estamos numa plena impotência de obtê-la. Desta maneira nós nos apresentamos aos pés do Senhor com uma confiança firme em Sua bondade, e perseveremos na oração, até quando sua Divina Providência julgue conveniente conceder nosso pedido. (Ef 3:20 ; Ro 15:13)

O terceiro meio é que nos acostumemos pouco a pouco a recear de nós mesmos e de nosso próprio julgamento, temendo a violenta inclinação de nossa natureza ao pecado, os inúmeros inimigos e a incomparável superioridade de suas forças, sua longa experiência de combate, suas astúcias e suas ilusões que os transformam a nossos olhos em anjos de luz, as armadilhas que eles nos pregam por todas as partes do caminho da virtude. (cf  Ef 6:10-18 ;  2Co 11:14)

O quarto meio é de entrarmos em nós mesmos  sempre que acontecer de cairmos em alguma falta, e então considerarmos vivamente até onde vai nossa fraqueza. Se Deus permite que tenhamos algumas quedas, é afim de que pela claridade desta luz, possamos nos conhecer melhor, desprezam-nos a nós mesmos como criaturas vis, e a desejar ser desprezado pelos outros (cf Lc 17:3). Sem esta vontade não pode haver desconfiança virtuosa, a qual tem todo o seu fundamento na verdadeira humildade e no conhecimento, que traz consigo a experiência (cf Ro 5:2-5). Porque bem claro se pode ver que quem deseja unir-se com a Luz Suprema e com a Verdade incriada, necessita do conhecimento de si mesmo, o qual a divina Piedade dá frequentemente aos soberbos e aos presunçosos através da experiência, deixando-os justamente cair em alguma falta da qual imaginam que poderão se livrar; assim desta forma acabam por se conhecer e por aprender a desconfiar em tudo de si mesmos. (2Co 11:30)

Mas não costuma valer-se o Senhor deste meio tão miserável, se não quando os outros meios mais piedosos  não obtiveram o efeito que esperava Sua misericórdia.  Esta permite que caia o homem com mais ou menos frequência, se ele tem mais ou menos orgulho e própria estimação, de modo que  onde não se acha sombra de presunção, como foi na Bem-aventurada Virgem Maria, da mesma maneira não haverá sinal algum de queda.

Assim, quando cairmos, corramos imediatamente com o pensamento ao humilde conhecimento de nós mesmos, e com oração pedir ao Senhor que nos dê a verdadeira luz para nos conhecermos e desconfiarmos inteiramente de nós mesmos, se não queiramos cair de novo nas mesmas faltas ou em faltas ainda mais prejudiciais à salvação de nossa alma.