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O que é conversão?

O conteúdo fundamental do Antigo Testamento está resumido na mensagem de João Batista:  Convertei-vos! Não se acede a Jesus sem o Batista; não existe possibilidade de chegar a Jesus sem responder ao apelo do precursor; aliás:  Jesus assumiu a mensagem de João na síntese da sua própria pregação:  convertei-vos e acreditai no Evangelho (cf. Mc 1, 15). A palavra grega converter-se significa:  reconsiderar pôr em questão o próprio modo de viver e o comum; deixar entrar Deus nos critérios da própria vida; não julgar simplesmente de acordo com as opiniões correntes. Converter-se significa por conseguinte:  não viver como vivem todos, não fazer como fazem todos, não sentir-se justificados em ações duvidosas, ambíguas, perversas simplesmente porque há quem o faça; começar a ver a própria vida com os olhos de Deus, portanto procurar o bem, mesmo se não é agradável; não apostar no juízo da maioria, mas no juízo de Deus por outras palavras:  procurar um novo estilo de vida, uma vida nova. Tudo isto não implica um moralismo; a limitação do cristianismo à moralidade perde de vista a essência da mensagem de Cristo:  o dom de uma nova amizade, o dom da comunhão com Jesus e por conseguinte com Deus. Quem se converte a Cristo não pretende criar uma autonomia moral própria, não pretende construir com as próprias forças a sua bondade. “Conversão” (Metanoia) significa precisamente o contrário:  abandonar a auto-suficiência, descobrir e aceitar a própria indigência, indigência dos outros e do Outro, do seu perdão, da sua amizade. A vida não convertida é autojustificação (não sou pior do que os outros); a conversão é a humildade de se confiar ao amor do Outro, amor que se torna medida e critério da minha própria vida.

Devemos ter também presente o aspecto social da conversão. Sem dúvida, a conversão é em primeiro lugar um ato pessoalíssimo, é personalização. Eu separo-me da fórmula “viver como todos” (já não me sinto justificado pelo fato de que todos fazem o que eu faço) e encontro perante Deus o meu próprio eu, a minha responsabilidade pessoal. Mas a verdadeira personalidade também é sempre uma nova e mais profunda socialização. O eu abre-se de novo ao tu, em toda a sua profundidade, e desta forma nasce um novo Nós. Se o estilo de vida difundido no mundo implica o perigo da despersonalização, do viver não a minha vida mas a vida dos outros, na conversão deve realizar-se um novo Nós do caminho comum com Deus. Ao anunciar a conversão também devemos oferecer uma comunidade de vida, um espaço comum do novo estilo de vida. Não se pode evangelizar só com palavras; o evangelho cria vida, cria comunidade de caminho; uma conversão meramente individual não tem consistência…

Na chamada à conversão está implícito como sua condição fundamental o anúncio do Deus vivo. O teocentrismo é fundamental na mensagem de Jesus e também deve ser o centro da nova evangelização. A palavra-chave do anúncio de Jesus é:  Reino de Deus. Mas Reino de Deus não é uma coisa, uma estrutura social ou política, uma utopia. O Reino de Deus é Deus. Reino de Deus significa:  Deus existe. Deus vive. Deus está presente e age no mundo, na nossa na minha vida. Deus não é uma remota “causa última”, Deus não é o “grande arquiteto” do deísmo, que construiu a máquina do mundo e agora se encontra fora. Ao contrário:  Deus é a realidade mais presente e decisiva em qualquer ato da minha vida, em todos os momentos da história. Na sua conferência de despedida da cátedra na universidade de Monastério, o teólogo J. B. Metz disse coisas que dele não se esperavam. No passado, Metz ensinou-nos o antropocentrismo o verdadeiro acontecimento do cristianismo teria sido a viragem antropológica, a secularização, a descoberta do secularismo no mundo. Depois, ensinou-nos a teologia política o carácter político da fé; depois a “memória perigosa”; finalmente a teologia narrativa. Depois deste caminho longo e difícil hoje dizemos:  o verdadeiro problema do nosso tempo é a “crise de Deus”, a ausência de Deus, camuflada por uma religiosidade vazia. A teologia deve voltar a ser realmente teo-logia, um falar de Deus e com Deus. Metz tem razão:  para o homem, o “unum necessarium” é Deus. Tudo muda se Deus está ou não está presente. Infelizmente também nós cristãos vivemos muitas vezes como se Deus não existisse (“si Deus non daretur“). Vivemos segundo o slogan:  “Deus não está presente, e se está, não tem incidência”. Por isso a evangelização deve, antes de mais, falar de Deus, anunciar o único Deus verdadeiro:  o Criador o Santificador o Juiz (cf. Catecismo da Igreja Católica).

Também neste ponto se deve ter presente o aspecto prático. Deus não se pode dar a conhecer unicamente com as palavras. Não se conhece uma pessoa, se não sabemos diretamente nada dela. Anunciar Deus é introduzir na relação com Deus:  ensinar a rezar. A oração é fé em ato. E só na experiência da vida com Deus se manifesta também a evidência da sua existência. Eis por que são tão importantes as escolas de oração, de comunidade de oração. Existe complementariedade entre oração pessoal (“no próprio quarto”, sozinhos perante os olhos de Deus), oração comum “paralitúrgica” (“religiosidade popular”) e oração litúrgica. Sim, a liturgia é, em primeiro lugar, oração; a sua especificidade consiste no fato que o seu sujeito primário não somos nós (como na oração privada e na religiosidade popular), mas o próprio Deus a liturgia é actio divina, Deus age e nós respondemos à ação divina.

Falar de Deus e falar com Deus são duas ações que devem andar sempre juntas. O anúncio de Deus orienta para a comunhão com Deus na comunhão fraterna, fundada e vivificada por Cristo. Portanto a liturgia (os sacramentos) não é um tema paralelo à pregação do Deus vivo, mas a concretização da nossa relação com Deus. Neste contexto, seja-me permitida uma observação geral sobre a questão litúrgica. O nosso modo de celebrar a liturgia com frequência é demasiado racional. A liturgia torna-se ensinamento, cujo critério é:  fazer-se compreender a consequência é com frequência a banalização do mistério, o prevalecer das nossas palavras, a repetição das fraseologias que parecem mais acessíveis e mais agradáveis ao povo. Mas isto é um erro não só teológico, mas também psicológico e pastoral. A onda do exoterismo, a difusão de técnicas asiáticas de distensão e auto-esvaziamento mostram que nas nossas liturgias falta algo.

Precisamente no nosso mundo de hoje precisamos do silêncio, do mistério supra-individual, da beleza. A liturgia não é invenção do sacerdote celebrante ou de um grupo de especialistas; a liturgia (o “rito”) cresceu num processo orgânico ao longo dos séculos, leva em si o fruto da experiência de fé de todas as gerações. Mesmo se os participantes talvez não entendam todas as palavras, compreendem o significado profundo, a presença do mistério, que transcende todas as palavras. O celebrante não é o centro da ação litúrgica; o celebrante não está em frente do povo em seu nome não fala de si nem para si, mas “in persona Christi“. Não contam as capacidades pessoais do celebrante, mas unicamente a sua fé, na qual se torna transparente: “Ele deve crescer e eu diminuir” (Jo 3, 30).

Escrito por: Cardeal Joseph Ratzinger

Porque és morno, nem frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca

Carta à Igreja de Laodiceia (Ap 3, 14-22):

14Ao anjo da Igreja em Laodiceia, escreve: Assim fala o Amém, a Testemunha fiel e verdadeira, o Princípio da criação de Deus.
15 Conheço tua conduta: não és frio nem quente. Oxalá fosses frio ou quente!
16 Assim, porque és morno, nem frio nem quente, estou para te vomitar de minha boca.
17 Pois dizes: sou rico, enriqueci-me e de nada mais preciso. Não sabes, porém, que és tu o infeliz: miserável, pobre, cego e nu!
18 Aconselho-te a comprares de Mim ouro purificado no fogo para que enriqueças, vestes brancas para que te cubras e não apareça a vergonha da tua nudez, e colírio para que unjas os olhos e possas enxergar.
19 Quanto a Mim, repreendo e corrijo todos os que amo. Recobra, pois, o fervor e converte-te!
20 Eis que estou à porta e bato: se alguém ouvir minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele comigo.
21 Ao vencedor concederei sentar-se comigo no meu trono, assim como Eu também venci e estou sentado com meu Pai em seu trono.
22 Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às Igrejas.

Em todos os tempos, os cristãos estão sujeitos a cair na mesma situação da comunidade de Laodiceia e merecer a terrível rejeição de Deus: “Estou para vomitar-te de minha boca“.

A carta à Igreja de Laodiceia, comunidade fundada por Epafras, discípulo de São Paulo, faz parte do conjunto literário destinado às sete igrejas da Ásia Menor.

Todas elas seguem o mesmo esquema: mencionam primeiramente os títulos e as qualidades de Jesus Cristo; depois, admoestam cada comunidade pela sua conduta; por fim, terminam com uma promessa para os que se mantenham fiéis. Seu conteúdo doutrinário é muito semelhante ao dos Evangelhos Sinóticos, Epístola aos Colossenses, Epístola de São Tiago e tantos outros livros do Novo Testamento. O tema cristológico é patente, ressaltando a divindade de Jesus.

Pode-se supor que estas comunidades estavam passando por um período de crise sob o ponto de vista espiritual, por causa de alguns erros que começavam a se introduzir nelas, como o gnosticismo. Certamente foi essa situação o motivo pelo qual João recebeu a inspiração para escrever essas cartas. Porém, quem fala nelas é o próprio Jesus Cristo, o qual conhece o estado de cada comunidade e por isso as adverte.

Cidade opulenta e autosuficiente

A cidade de Laodiceia foi fundada em 250 a.C. por Antíoco II, da dinastia selêucida, com a intenção de fazer dela um centro helenístico nos confins da Frígia. Deu-lhe esse nome em homenagem à sua esposa, Laodice. Está situada perto de Filadélfia, de Hierápolis e de Colossas, por ela superadas como polo de desenvolvimento econômico. Não muito longe dessa cidade existiam mananciais de águas quentes, as quais chegavam mornas à região urbana.

Laodiceia transformou-se em rico centro comercial, sobretudo por sua indústria têxtil de lã preta e linho, seus artesanatos em ouro e sua academia especializada em oftalmologia, na qual se preparava um colírio, feito com pó de uma pedra da Frígia, que era exportado para todo o Império Romano. A cidade desfrutava de tal opulência que, para restabelecer-se do terremoto ocorrido no ano 60 d.C., não necessitou da ajuda oferecida pela Metrópole. Todos estes aspectos que influem no ambiente e na vida da comunidade laodicense, entrarão na recriminação de Nosso Senhor, como veremos a seguir.

Os verdadeiros destinatários

Ao anjo da Igreja em Laodiceia…“. Desde a Antiguidade surgiram muitas hipóteses a respeito de quais seriam os verdadeiros destinatários das sete cartas, formalmente endereçadas a um anjo.

Ora, os espíritos angélicos não precisam de conversão e todas essas cartas estão cheias de reprovações, conselhos, advertências e promessas. Então, a quem são elas dirigidas?

A palavra profética sempre tem um destinatário concreto que, na maioria dos casos, é a comunidade, o povo de Deus que recebe a mensagem (cf. Am 5, 4; Os 4, 1; Is 2, 1; Jr 2, 1-2). Por isso, no caso das sete Igrejas, “o anjo” receptor deve tomar-se no sentido de uma personificação global dos fiéis da Igreja particular.

Mas essas mensagens possuem também um alcance geral e perene. São palavras de juízo, de purificação e exortação que Cristo dirige à Igreja de todos os tempos. As alusões a situações particulares tomam um caráter universal, tornando-se válidas para os cristãos de todas as épocas que se encontrem em situações espirituais semelhantes às das mencionadas igrejas da Ásia Menor.

Deste modo, poderíamos dizer que temos no livro do Apocalipse uma verdadeira carta de amor de Cristo para os seus, reveladora de verdades que iluminam as mentes em todos os tempos.

Terríveis consequências da tibieza

Conheço tua conduta: não és frio nem quente. Oxalá fosses frio ou quente!“. João, como médico das almas, sabe em que situação se encontra a comunidade à qual se dirige. Constata a presença de um morbus spiritualis, de uma enfermidade que tem como pressuposto a decadência de certo grau de fervor inicial para um estado de relaxamento, de languidez de espírito.

Neste contexto, frio é quem está nas vias do pecado, em oposição à entrega fervorosa daquele que caminha para a santidade com entusiasmo.

Os tratadistas de vida espiritual são unânimes em apontar o perigo do estado de tibieza para incentivar em seus leitores o hábito de fazer exame de consciência, procurando verificar se cumprem com o dever de cristãos segundo a vontade de Deus ou se, pelo contrário, estão em decadência e mediocridade de espírito.

Assim, porque és morno, nem frio nem quente, estou para te vomitar de minha boca“. Como acima dissemos, Laodiceia recebia mornas as águas dos mananciais e a água morna produz náuseas. Não agrada a Deus o homem indeciso e indolente em seus compromissos de cristão, mas sim o ardoroso e decidido. E a experiência pastoral demonstra ser mais comum a conversão sincera de grandes pecadores, do que dos homens de vida cristã medíocre.

Os frios, de que aqui fala o Senhor, podem ser os transgressores da Lei que pecam por ignorância ou fraqueza. Quando, porém, se dão conta de sua situação de pecadores, reconhecem que não têm méritos diante do Altíssimo e postam-se numa atitude de inteira humildade e submissão, esperando como um esmoler a misericórdia de Deus: “O publicano, mantendo-se à distância, não ousava sequer levantar os olhos para o céu, mas batia no peito dizendo: Meu Deus, tem piedade de mim, pecador!” (Lc 18, 13).

Pelo contrário, o morno – ou seja, o cristão pouco comprometido – sente-se seguro em sua campânula de conforto e confia em se salvar sem muito esforço. Como não se reconhece pecador nem aspira à santidade, suas poucas orações são rotineiras, muitas vezes rezadas com fastio e, portanto, sem verdadeira piedade. Assim, é mais perigoso o estado de tibieza espiritual que o de frieza.

Símbolos da cura espiritual

Pois dizes: sou rico, enriqueci-me e de nada mais preciso“. A visão que a igreja de Laodiceia tem de si mesma não reflete seu verdadeiro estado. É fácil se iludir de que tudo está bem numa comunidade ou pessoa, mas não é possível enganar a Deus. Ele conhece o estado real de cada ser.

Não sabes, porém, que és tu o infeliz: miserável, pobre, cego e nu!“. Para reconhecer e detestar as misérias que ofendem a Deus, e formar o propósito firme de recusá-las e repará-las, requer-se uma graça toda especial; mas também é necessário praticar a virtude sobrenatural da penitência.

As sete igrejas mencionadas por São João no Apocalipse: Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laodiceia. Numa cidade conhecida por seus bons tratamentos oftalmológicos, a comunidade se tornou cega e não procurou o Grande Médico. É preciso ter a humildade do publicano e reconhecer a própria situação.

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Ser Cristão – Parte I

Arrependei-vos e crede no Evangelho” disse Jesus (Mc 1, 15). Esta é a mensagem da Quaresma, a mais concisa e simples. Converter-se e crer no evangelho são, de fato, dois elementos inseparáveis. É na adesão à Boa Nova que nós é anunciada que conseguimos a força para nos converter. O Evangelho não nos chama a viver de privações e a corrigir nossa vida moral para modelar, para nós mesmos, uma forma mais admirável de existência. O Evangelho nos propõe outra coisa: crer que Jesus é o Filho de Deus e que Ele veio trazer o cumprimento do plano de Deus. É para participar nesta nova criação e a este novo mundo que desejamos de todo o nosso ser entrar em uma purificação semelhante ao dilúvio de Noé : apagar tudo o que nos impede de viver com Cristo, para que deixe existir apenas o que pode servir de ponto de apoio para a nova vida com Ele. Nós purificamos nossas vidas e mudamos nosso estilo de vida, para que nossa fé seja verdadeiramente a coluna vertebral de nossa existência.

Para que se dizer cristão, se isso não muda a nossa maneira de ser? Gostaria de salientar dois aspectos desta conversão para o qual o Cristo nos convida.

A primeira é a dimensão pessoal da conversão. Ninguém pode se converter em seu lugar, e Deus não lhe pedi para fazer o programa de conversão dos outros. Isto é o que por vezes os fariseus fizeram no Evangelho, e sabemos como Jesus os tratou. Deus não nos pede para dizer o que os outros devem fazer. Ele quer que mudemos as vidas de nós mesmos. Nós não podemos mudar tudo, nem mudar tudo de uma vez. No entanto, se mudarmos alguma coisinha, ano após ano, e nos atermos a isto, terminaremos por ter uma nova vida. Cada um de nós se encontra diante da pergunta: o que faço para mudar este ano? Onde será este mundo novo em minha vida?

E o segundo aspecto é que esta conversão pessoal que ninguém pode fazer em meu lugar (e que eu não posso fazer em lugar de ninguém), não pode ser desvinculada da Igreja, Corpo de Cristo. E é a isto que nos convida o Papa Bento XVI, em sua mensagem de Quaresma, quando cita a carta aos hebreus: «Façamos atenção uns aos outros para nos estimularmos na caridade e nas boas obras» (10, 24).  Se eu não posso formular os critérios da conversão para meu irmão, eu devo no entanto o olhar e tentar compreender qual mensagem me é enviada através dele. Humildemente eu devo reconhecer que minha maneira de viver pode também o ajudar a se converter. Sejamos atentos uns aos outros, não vivamos nossa conversão como uma obra completamente particular que não vê ninguém. Somos convidados a converter cada uma de nossas vidas neste povo renovado.

Que Deus nos dê de contemplar Jesus Cristo o homem novo, que pode fazer todas as coisas novas, em sua Igreja, no mundo e em cada uma de nossas vidas.

Cardeal André XXIII – Arcebispo de Paris

Quaresma

  • O que é a Quaresma?

A Quaresma é o tempo que precede e dispõe à celebração da Páscoa. Tempo de escuta da Palavra de Deus e de conversão, de preparação e de memória do Batismo, de reconciliação com Deus e com os irmãos, de recurso mais freqüente às “armas da penitência cristã”: a oração, o jejum e a esmola (ver Mateus 6,1-6 ; 16-18).

  • Por que 40 dias?

A duração da Quaresma está baseada no símbolo do número quarenta na Bíblia. Nesta, é falada dos quarenta dias do dilúvio, dos quarenta anos de peregrinação do povo judeu pelo deserto, dos quarenta dias e Moisés e de Elias na montanha, dos quarenta dias que Jesus passou no deserto antes de começar sua vida pública, dos 400 anos que durou o exílio dos judeus no Egito. Na Bíblia, o número quatro simboliza o universo material, seguido de zeros significa o tempo de nossa vida na terra, seguido de provações e dificuldades. A prática da Quaresma data do século IV, quando se dá a tendência a constituí-la em tempo de penitência e de renovação para toda a Igreja, com a prática do jejum e da abstinência. Conservada com bastante vigor, ao menos em um princípio, nas Igrejas do oriente, a prática penitencial da Quaresma tem sido cada vez mais abrandada no ocidente, mas deve-se observar um espírito penitencial e de conversão.

  • Como viver esse tempo de Quaresma?

Durante este tempo especial de purificação, contamos com uma série de meios concretos que a Igreja nos propõe e que nos ajudam a viver a dinâmica quaresmal. Antes de tudo, a vida de oração, condição indispensável para o encontro com Deus. Na oração, se o cristão inicia um diálogo íntimo com o Senhor, deixa que a graça divina penetre em seu coração e, a semelhança de Santa Maria, se abra à ação do Espírito cooperando com ela com sua resposta livre e generosa (ver Lucas 1,38).

Como também devemos intensificar a escuta e a meditação atenta à Palavra de Deus, a assistência freqüente ao Sacramento da Reconciliação e a Eucaristia, e mesmo a prática do jejum, segundo as possibilidades de cada um.

A mortificação e a renúncia nas circunstâncias ordinárias de nossa vida também constituem um meio concreto para viver o espírito de Quaresma. Não se trata tanto de criar ocasiões extraordinárias, mas bem, de saber oferecer aquelas circunstâncias cotidianas que nos são incômodas, de aceitar com alegria os diferentes contratempos que nos apresenta o dia a dia. Da mesma maneira, o saber renunciar a certas coisas legítimas nos ajuda a viver o desapego e o desprendimento. Dentre as diversas práticas quaresmais que a Igreja nos propõe, a vivência da caridade ocupa um lugar especial. Assim nos recorda São Leão Magno: “estes dias de quaresma nos convidam de maneira apremiante ao exercício da caridade; se desejamos chegar à Páscoa santificados em nosso ser, devemos por um interesse especialíssimo na aquisição desta virtude, que contém em si as demais e cobre multidão de pecados“. Esta vivência da caridade deve ser vivida de maneira especial com aqueles a quem temos mais próximos, no ambiente concreto em que nos movemos. Assim, vamos construindo no outro “o bem mais precioso e efetivo, que é o da coerência com a própria vocação cristã” (João Paulo II).

  • Por que fazer sacrifícios?
A palavra sacrifício vem do latim sacrum-facere, significa “fazer sagrado”. Então, fazer um sacrifício é fazer alguma coisa sagrada, quer dizer, oferecê-la por amor a Deus, porque o ama. Por exemplo, ser amável com um vizinho com quem você tem um relacionamento difícil ou ajudar alguém em seu trabalho. A cada um de nós há algo que nos custa fazer na vida de todos os dias. Se oferecemos isto a Deus por amor, estamo fazendo sacrifício.
  • Videos e textos relacionados

O que é a Quaresma? –  Pe. Paulo Ricardo

Por que fazer penitência na Quaresma –  Denis Duarte

Formas de Penitência e suas razões – Pe. Paulo Ricardo

O que é  a Quarta-feira de Cinzas – Pe. Paulo Ricardo

Mensagem do Papa para Quaresma 2012

Ensinamentos sobre a Quaresma –  Canção Nova

Músicas para a Liturgia da QuaresmaCanção Nova

Seis passos para viver bem a Quaresma – Padre Paulo Ricardo

  • Qual é a Liturgia para a Quaresma de 2012?
Neste ano de 2012, os textos que nos serão apresentados ao longo destas cinco semana, mostram-nos um percurso claro e definido: Deus mostra-nos que é possível alcançar a verdadeira felicidade (1º domingo) e a sua Palavra ensina-nos o caminho (2º domingo), Palavra que nos chama à conversão e à renovação (3º domingo). Aceitar esta Palavra implica, pois, mudar de vida. Fiquemos, contudo, certos do amor de Deus, gratuito e incondicional (4º domingo). Quanto a nós, temos de estar atentos ao seu plano de salvação e ir ao encontro dos outros, no amor e no serviço (5º domingo).

A “nova evangelização” a que a Igreja nos convida a todos nesta Quaresma impele-nos a não guardarmos este segredo do amor misericordioso de Deus e a partilhá-lo à nossa volta.

  • Oração 

Mostrai-me, Senhor, os vossos caminhos,
ensinai-me as vossas veredas.
Guiai-me na vossa verdade e ensinai-me,
porque Vós sois Deus, meu Salvador.

Lembrai-Vos, Senhor, das vossas misericórdias
e das vossas graças que são eternas.
Lembrai-Vos de mim segundo a vossa clemência,
por causa da vossa bondade, Senhor.

O Senhor é bom e reto,
ensina o caminho aos pecadores.
Orienta os humildes na justiça
e dá-lhes a conhecer a sua aliança.

Vendo a fé daqueles homens, perdoou-lhe

E vieram ter com ele conduzindo um paralítico, trazido por quatro.
E, não podendo aproximar-se dele, por causa da multidão, descobriram o telhado onde estava, e, fazendo um buraco, baixaram o leito em que jazia o paralítico. E Jesus, vendo a fé deles, disse ao paralítico:
Filho, perdoados estão os teus pecados
.”
(Marcos 2:3-6)

«Vendo Jesus a fé daqueles homens, disse ao paralítico: ‘Os teus pecados estão perdoados’». Como é grande o Senhor! Por causa de uns, perdoa aos outros; de uns recebe a oração, a outros perdoa os pecados. Por que razão, ó homem, não poderá o teu semelhante interceder por ti, quando é um servo que do Senhor alcança e obtém, pela súplica insistente, a graça?

Quem julga, pois, que aprenda a perdoar; e quem estiver doente, a suplicar. E se não esperais o perdão imediato das faltas graves, recorrei a intercessores, recorrei à Igreja, que rezará por vós, e, em consideração a ela, o Senhor vos concederá o perdão que podia ter-vos recusado. Não negamos a realidade histórica da cura do paralítico, apenas queremos aqui realçar sobretudo a sua cura interior, por causa dos pecados que lhe foram perdoados. […]

O Senhor quer salvar os pecadores e demonstra a Sua divindade através do conhecimento que tem dos corações e dos prodígios das Suas acções: «Que é mais fácil? Dizer ao paralítico ‘Os teus pecados estão perdoados’, ou dizer ‘Levanta-te, pega no teu catre e anda’?» E assim faz-lhes ver a imagem completa da Ressurreição, uma vez que, ao curar as feridas do corpo e da alma […], é o homem todo que fica curado.

Fonte: Homilia de Santo Ambrósio.

Se alguém vir pecar seu irmão, pecado que não é para morte, orará,
e Deus dará a vida àqueles que não pecarem para morte.
Há pecado para morte, e por esse não digo que ore
.”
(1 João 5:16)

Na aparição de Senhora em Lourdes a Bernadete, a Virgem pede insistentemente por Penitência:

 “Penitência! Penitência! Penitência! Reze pela conversão dos pecadores! “

Sobre a vida de São Francisco de Assis

Este vídeo apresenta resumidamente a vida de São Francisco de Assis. Este material foi produzido a partir do livreto “São Francisco de Assis – Uma vida de Fraternidade e Alegria”, produzido pelo Frei Gilberto Teixeira da Silva.

 
CÂNTICO DAS CRIATURAS , de S. Francisco de Assis

Altíssimo, Omnipotente, Bom Senhor
Teus são o Louvor, a Glória, a Honra e toda a Bênção.
 
Louvado sejas, meu Senhor,
com todas as Tuas criaturas, especialmente o senhor irmão Sol,
que clareia o dia e que, com a sua luz, nos ilumina. Ele é belo
e radiante, com grande esplendor; de Ti, Altíssimo, é a imagem.
 
Louvado sejas, meu Senhor,
pela irmã Lua e pelas estrelas, que no céu formaste, claras.
preciosas e belas.
 
Louvado sejas, meu Senhor.
pelo irmão vento, pelo ar e pelas nuvens, pelo sereno e por todo o tempo em que dás sustento às Tuas criaturas.
 
Louvado sejas, meu Senhor,
pela irmã água, útil e humilde, preciosa e casta.
 
Louvado sejas, meu Senhor,
pelo irmão fogo, com o qual iluminas a noite.
Ele é belo e alegre, vigoroso e forte.
 
Louvado sejas, meu Senhor,
pela nossa irmã, a mãe terra, que nos sustenta e governa, produz frutos diversos, flores e ervas.
 
Louvado sejas, meu Senhor,
pelos que perdoam pelo Teu amor e suportam as enfermidades e
tribulações.
 
Louvado sejas, meu Senhor,
pela nossa irmã, a morte corporal, da qual homem algum pode
escapar.
 
Louvai todos e bendizei o meu Senhor!
Dai-Lhe graças e servi-O com grande humildade!

Sempre é o pedido de Nossa Senhora:Rezem! Por que?

Segue abaixo uma belíssima reflexão da- da, em 12 de fevereiro de 1988, pelo Frei Slavko Barbaric, que era alemão e esteve por muitos anos como padre em Medju- gorje, cidade na Bósnia onde desde 1981 é declarado que Nossa Senhora aparece a quatro videntes e deixa mensagens e segredos.

Se eu relembro, se eu penso sobre muitas perguntas que recebi aqui e sobre as minhas respostas para os peregrinos, uma das perguntas mais comuns era sem- pre, ” Nossa Senhora pede apenas para Rezar. Rezar. Rezar. E mais uma vez, quando lemos suas mensagens encontramos apenas este apelo junto com as outras mensagens de paz e de conversão“. Os pe- regrinos perguntam isso porque talvez, ou muitos deles, querem receber de Nos- sa Senhora um convite mais concreto . Por exemplo, quando os peregrinos vêm do Brasil, eles perguntam: “Por que Nossa Senhora não fala sobre justiça social ou injustiças?“. Quando eles vêm da Polônia ou na Tchecoslováquia, “Por que Ela não fala sobre os problemas dos sistemas de ditaduras?“. E, assim, quando eles vêm de um movimento da vida, eles perguntam: “Por que Nossa Senhora não fala sobre aborto e muitas outras coisas? “. E, é verdade, Nossa Senhora sempre fala sobre a oração. A mensagem mais importante em suas mensa- gens é a oração. Eu não quero agora defender Nossa Senhora do porquê Ela não fala sobre os outros problemas que existem no mundo, mas eu penso algo que me ajuda a entender por que Ela faz as coisas dessa maneira. Eu vou dar dois exemplos.

Um jovem veio da Suíça para Medjugorje em 25 de fevereiro de 1985. Ele veio com muitos problemas, especialmente com problemas espirituais bem como psi- cológicos. Ele tinha perdido a sua paz,e não conseguia se sentar ao piano para fa- zer seu exame final de música. Ele veio aqui e durante a aparição ele tocou a Ave Maria de Schubert. Ele não participou da aparição, mas apenas tocou o piano. Ele me disse que durante a aparição, quando ele tocou “Ave Maria”, sentiu a paz e a alegria de uma maneira incrível. Daquele dia em diante sua vida mudou. Sen-  tou-se no seu exame final de música e agora é um professor de música e mantém contato regular conosco. Depois de sua terceira peregrinação a Medjugorje, ele me escreveu uma carta e pediu: “Padre, o que está acontecendo comigo? Pela primeira vez na minha vida, depois destas peregrinações, eu descobri que as pes- soas pobres existem no mundo. A partir deste momento e destas experiên- cias, não posso mais ficar tranquilo, porque os pobres existem“. E começou um novo movimento chamado MEPB, em italiano, Medjugorje Pre-Bambino. Em português Medjugorje para as crianças. Ele agora tem um comitê que organiza concertos em toda a Suíça e todo o dinheiro arrecadado em seus concertos ele está dando para as crianças. Em dezembro passado, antes do Natal, eles abriram uma casa para 200 crianças pobres, a 70 km de Bombaim, na Índia. Agora, ele está construindo uma outra casa no Brasil que também é para crianças pobres. Em sua última carta ele escreveu para mim: “Padre, parece que nossa Senhora não gosta da minha música porque eu não tenho mais tempo para isso, eu tenho muito trabalho a fazer para os pobres“.

Para mim é interessante porque ele não encontrou nas mensagens «Procure os pobres» ou «Construa uma casa próximo a Bombaim» ou «Dê uma casa para as Irmãs que estão à procura de uma casa». Ele rezou, se converteu e na sua con- versão descobriu o que poderia fazer.

Esta é sempre a minha resposta aos peregrinos: convertam-se, rezem, e a- través de sua conversão, vocês descobrirão onde é o seu lugar e qual é a sua tarefa neste mundo. Porque a conversão é um chamado para nós. Você vai descobrir o seu lugar no mundo e em sua família. Quando Deus nos cri- ou, deu à humanidade este mundo e disse: “Trabalhe e submeta este mundo, es- ta criação.” Através do pecado, perdemos o nosso lugar e por esta razão que nós experimentamos conflitos e guerras. Nós somos incapazes de encontrar o nosso lugar através destes conflitos, essas guerras, mas seremos capazes de entender como usar os nossos dons para o bem através da conversão. Conversão signi- fica compreender de novo o que somos chamados a fazer.

Este jovem, para mim, é um caso Continuar lendo