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O Combate Espiritual – Capítulo VII

Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas convêm;
todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas edificam.”
(1 Coríntios 10:23)

Um bom uso dos poderes e primeiramente que se tenha a inteligência em guardar-se da ignorância e da curiosidade

Se a desconfiança de nós mesmos e a confiança em Deus são as nossas únicas armas neste Combate, então não somente não alcançaremos a vitória, como também cairemos em ruínas maiores. E é por isso que devemos a estas armas adicionar uma terceira que já mencionamos antes: o exercício de nossas faculdades. Este exercício se há de fazer principalmente com o entendimento e com a vontade.

Quanto ao entendimento, havemos de  guardá-lo de duas coisas que costumam o perverter. Uma é a ignorância, que o ofusca e o impede de conhecer seu próprio objeto: a verdade. E é com o exercício que o havemos de aclarar e apurar, para que possa bem ver e conhecer o que deve ser feito para afastar a alma das paixões desordenadas e orná-la com as santas virtudes.

Esta luz se pode alcançar de duas maneiras. A primeira e a mais importante é a oração: rogando ao Espírito Santo que ilumine nossos corações. Ele não nos recusará sua luz sagrada se procurarmos a Deus sinceramente, com desejo de fazer sua santa vontade, e se pusermos tudo, até o nosso juízo, aos pés de nossos confessores. A segunda é uma contínua aplicação do espírito a examinar às coisas cuidadosamente e de boa fé, para  julgá-las conforme os ensinamentos do Espírito Santo, e não de acordo com a lei do mundo, que apresentada pelos sentidos avalia apenas como parecem ser de fora.

Este exame devidamente feito nos convence de que o que o mundo corrompido ama, deseja e procura com tanta prontidão é nada mais que ilusão e mentira; que as honras e os prazeres da terra não são mais que vaidade e aflição do espírito; que as injúrias e as afrontas, de que o mundo nos carrega, produzem glória verdadeira, e as tribulações alegria; que o perdoar aos inimigos e amá-los constitui a verdadeira grandeza da alma e nossa maior semelhança com Deus; que vale mais desprezar o mundo que ser Rei dele; que obedecer de boa vontade, por amor de Deus, às criaturas mais vis é coisa mais grandiosa e generosa  que a dominação exercida sobre os maiores Príncipes;  que havemos de prezar mais o humilde conhecimento de nós mesmos que a superioridade de todas as ciências; e que o vencer e mortificar os próprios apetites, por menores que sejam, merece maior louvor e estimação que o conquistar muitas cidades, vencer com armas na mão exércitos poderosos, fazer milagres e ressuscitar mortos.

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O Combate Espiritual – Capítulo I

Então, meu filho, fortalece-te na graça do Cristo Jesus. O que ouviste de mim na presença de numerosas testemunhas, transmite-o a pessoas de confiança, que sejam capazes de ensinar a outros. Como bom soldado do Cristo Jesus, assume a tua parte de sofrimento. Ninguém que esteja engajado
no serviço das armas se embaraça nos negócios da vida civil,
se deseja agradar a quem o alistou. Igualmente o atleta, na luta esportiva,
só recebe a coroa, se lutar segundo as regras
.”

(II Tm 2 : 1-5)

Em que consiste a perfeição cristã; o que é necessário combater para adquiri-la; e       as quatro coisas necessárias neste combate

Se quereis, ô alma cristã, atingir o auge  da perfeição, vos unir estreitamente a Deus, e vir a ser um mesmo espírito com Ele, é necessário para a conclusão bem sucedida desse projeto (o maior e mais nobre que se possa imaginar) que saibamos antes em que consiste a verdadeira e perfeita espiritualidade. Porque muitos, sem cuidar de outra coisa, a fazem consistir no rigor da vida, na mortificação da carne, nos cilícios, nos jejuns e outras asperezas semelhantes e trabalhos corporais. Outros, em particular as mulheres, entendem que já tem muito adiantado o caminho para perfeição quando rezam muitas orações, participam de muitas missas e longos Ofícios Divinos, e frequentemente visitam às igrejas e se aproximam do santo Altar para comungar. Muitos outros (entre os quais talvez alguns, que revestidos de hábito religioso) imaginam que a perfeição depende plenamente de frequentar o Coro, do silêncio, da solidão e da observância da disciplina regular.

E assim todos creem que ou nestas ou em outras semelhantes ações é fundada a Perfeição da vida espiritual; mas é certo que eles se enganam. De fato,  as obras exteriores são, algumas vezes, meios de adquirir o espírito, outras vezes são fruto do mesmo espírito, mas não podemos dizer que nelas só consiste a perfeição cristã e a verdadeira espiritualidade.

Não ha dúvida que são meios muito poderosos para adquirir a santidade; aplicados com sabedoria e discrição, eles servem maravilhosamente para nos fortificar contra a malícia e a fragilidade de nossa natureza, para se armar contra os ataques e enganos de nossos comuns inimigos e para obter de Deus os socorros espirituais necessários aos justos, principalmente àqueles que começam.

Nas pessoas verdadeiramente espirituais, as quais castigam o corpo, esses atos são pois frutos do espírito, porque tendo ofendido o seu Criador, fazem-nos como punição de suas revoltas passadas e para terem os seus corpos sujeitos e humilhados ao seu santo serviço; e assim elas vivem solitárias  e no silêncio para evitar as menores faltas e não ter conversas além das que tem com os céus;  se ocupam ao culto divino e nas obras de piedade; elas oram, e meditam a Vida e a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, não por curiosidade nem por amor às consolações sensíveis, mas no desejo de melhor conhecer sua própria malícia e a infinita misericórdia de Deus, e para inflamar cada dia mais seus corações no amor divino; e no desprezo e ódio de si mesmos, vencem suas próprias paixões e seguem as pisadas do filho de Deus, levando também sua Cruz às costas; frequentam os santos sacramentos com o único propósito de honrar a Majestade de Deus, de se unir mais estreitamente a Ele e de se fortificar contra as tentações do inimigo.

Porém, estas obras exteriores podem ser talvez, ocasião de maior precipício que os pecados conhecidos, para aqueles que poem  todo o edifício de sua perfeição nestas ações exteriores. Pois apesar destas obras serem santas, o seu “mau uso” pode ser ocasião da sua própria ruína, ou seja, preocupados unicamente com as práticas da devoção, abandonam seu coração às inclinações da natureza e às armadilhas do demônio. O espírito maligno, vendo então que já estão descuidados do caminho direito, deixa-os não só continuar naqueles exercícios, mas ainda os deixa vaguear , segundo sua errada imaginação, entre as delícias do paraíso, onde acreditam desfrutar, na companhia dos anjos, da presença do próprio Deus; de modo que quando se acham absortos em  meditações cheias de pensamentos sublimes, curiosos e agradáveis, e esquecendo o mundo e as criaturas, imaginam terem sido transportados até o terceiro céu.

Mas se um pouco examinamos sua conduta, vemos imediatamente que em muitos erros estão envolvidos, e como estão longe da perfeição  que procuramos. Porque estes em qualquer coisa grande ou pequena querem ser preferidos aos outros; fascinados por seu mérito e obstinados em sua maneira de ver; cegos para suas próprias falhas, eles sempre têm seus olhos abertos para as ações dos outros para controlar e censurar.

Que se alguém os toca, ainda que levemente, na vã estimação que eles fazem de si e na opinião em que querem ser tidos pelos outros, ou os quer tirar daquelas devoções, nos quais de costume se ocupam, todos se alteram e se inquietam demasiadamente.

E se Deus, para os levar ao verdadeiro conhecimento de si mesmos e ao caminho da perfeição, lhes dá trabalhos, ou doenças, ou permite perseguições (as quais nunca vem sem sua Vontade, sem seu querer ou permitir, e são a verdadeira pedra de tocar da fidelidade de seus servos), isso tudo é para que descubram o mal que tem no fundo de seus corações e o interior corrupto tomado pela soberba, porque tanto nas provações como nos eventos felizes da vida, eles não sabem o que é se resignar a Vontade de Deus, se humilhar perante sua mão poderosa, se submeter a seus justos e impenetráveis julgamentos, e nem se sujeitar a todas as criaturas como ao exemplo de seu humilhado e atribulado Filho, que amou seus perseguidores. Estes são os instrumentos da Bondade Divina que cooperam à mortificação, perfeição e salvação deles mesmos. Dai vem que estes tais estão expostos à grande perigo de se perderem, porque tendo a vista interior ofuscada pelo amor-próprio e vendo nada de louvável além deles mesmos e suas ações, imaginam-se em estágio avançado no caminho da perfeição e cheios de soberba julgam aos outros, e assim não há quem os possa converter, somente um milagre da graça.

A experiência esta ai para provar que é mais fácil trazer ao bom caminho um pecador declarado que um pecador que se disfarça e se cobre com um manto de virtudes aparentes.

Compreendes agora, alma cristã, que a vida espiritual não consiste das práticas exteriores que acabamos de falar. E em que consiste então? Ela consiste no reconhecimento da  bondade e grandeza de Deus e do nada a que se reduz o nosso ser humano, do amor do Senhor e o ódio a nós mesmos, da submissão do espírito a Deus e às criaturas por amor de Deus, da abnegação completa de nossa vontade e nossa inteira resignação a seus decretos soberanos. E façamos tudo isto pura e simplesmente pela glória de Deus e por Ele pedir e merecer ser amado e servido.

Esta é a lei do amor impressa pela mão do mesmo Senhor no coração se seus servos fiéis. Esta é a abnegação que ele requer de nós. Este é o seu jugo suave e o fardo leve que ele nos convida a tomar sobre nossas costas. Esta é a obediência que ele nos ensina por sua palavra e seu exemplo. Se então desejas chegar ao auge da perfeição, deves fazer uma contínua violência a si mesma, para domar generosamente e aniquilar todas as más afeições de seu coração, mesmo as que lhe pareçam ser pequenas. É necessário preparar-se com toda a prontidão de ânimo para este Combate, porque  a coroa da vitória se dá  somente aos soldados de valor.

Considere que lutar contra si mesmo, tomando a si mesmo como um adversário, é o ponto de guerra mais rude a combater, e que se é alcançada  uma vitória, ela será a mais frutuosa e mais agradável aos olhos de Deus.

Porque se  tiverem coragem de meter debaixo dos pés e vencer todos os desordenados desejos, más inclinações e os menores movimentos da vontade, agradareis mais a Deus, e lhe fareis muito maior serviço do que lhe faríeis, se conservando ainda alguma delas, vos acoitásseis até correr sangue, e jejuásseis mais do que fizeram os antigos Ermitões e Anacoretas do deserto,  ou mesmo que se convertêsseis ao bem milhares e milhares de almas.

De fato, ainda que Deus estime e queira mais a conversão das almas que a mortificação de um pequeno apetite, permanece verdadeiro que vosso principal cuidado deve ser de querer e de fazer aquilo que Deus deseja  particularmente de vós. (vontade de Deus = sua santificação, cf. I Ts 4:3)

Ele sem dúvida estima muito mais que  ponhais cuidado e trabalheis em mortificar vossas paixões, que se faça a mais importantes das obras em aparência que realizaríeis com um coração dominado pela paixão.

Agora que sabes em que consiste a perfeição cristã e que para adquiri-la haveis de entrar em uma contínua e dura guerra contra si próprio, saibais que para isso tendes necessidade de se munir de quatro coisas, como de armas muito seguras e muito necessárias para a vitória, e assim ficar vencedora neste Combate Espiritual. Esta são:

  • Desconfiança de nós mesmos;
  • Confiança em Deus;
  •  O bom uso de nossas faculdades;
  • O exercício da oração.

Das quais tentaremos, com a graça de Deus, falar de maneira clara e sucinta, nos próximos capítulos.

Porque és morno, nem frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca

Carta à Igreja de Laodiceia (Ap 3, 14-22):

14Ao anjo da Igreja em Laodiceia, escreve: Assim fala o Amém, a Testemunha fiel e verdadeira, o Princípio da criação de Deus.
15 Conheço tua conduta: não és frio nem quente. Oxalá fosses frio ou quente!
16 Assim, porque és morno, nem frio nem quente, estou para te vomitar de minha boca.
17 Pois dizes: sou rico, enriqueci-me e de nada mais preciso. Não sabes, porém, que és tu o infeliz: miserável, pobre, cego e nu!
18 Aconselho-te a comprares de Mim ouro purificado no fogo para que enriqueças, vestes brancas para que te cubras e não apareça a vergonha da tua nudez, e colírio para que unjas os olhos e possas enxergar.
19 Quanto a Mim, repreendo e corrijo todos os que amo. Recobra, pois, o fervor e converte-te!
20 Eis que estou à porta e bato: se alguém ouvir minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele comigo.
21 Ao vencedor concederei sentar-se comigo no meu trono, assim como Eu também venci e estou sentado com meu Pai em seu trono.
22 Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às Igrejas.

Em todos os tempos, os cristãos estão sujeitos a cair na mesma situação da comunidade de Laodiceia e merecer a terrível rejeição de Deus: “Estou para vomitar-te de minha boca“.

A carta à Igreja de Laodiceia, comunidade fundada por Epafras, discípulo de São Paulo, faz parte do conjunto literário destinado às sete igrejas da Ásia Menor.

Todas elas seguem o mesmo esquema: mencionam primeiramente os títulos e as qualidades de Jesus Cristo; depois, admoestam cada comunidade pela sua conduta; por fim, terminam com uma promessa para os que se mantenham fiéis. Seu conteúdo doutrinário é muito semelhante ao dos Evangelhos Sinóticos, Epístola aos Colossenses, Epístola de São Tiago e tantos outros livros do Novo Testamento. O tema cristológico é patente, ressaltando a divindade de Jesus.

Pode-se supor que estas comunidades estavam passando por um período de crise sob o ponto de vista espiritual, por causa de alguns erros que começavam a se introduzir nelas, como o gnosticismo. Certamente foi essa situação o motivo pelo qual João recebeu a inspiração para escrever essas cartas. Porém, quem fala nelas é o próprio Jesus Cristo, o qual conhece o estado de cada comunidade e por isso as adverte.

Cidade opulenta e autosuficiente

A cidade de Laodiceia foi fundada em 250 a.C. por Antíoco II, da dinastia selêucida, com a intenção de fazer dela um centro helenístico nos confins da Frígia. Deu-lhe esse nome em homenagem à sua esposa, Laodice. Está situada perto de Filadélfia, de Hierápolis e de Colossas, por ela superadas como polo de desenvolvimento econômico. Não muito longe dessa cidade existiam mananciais de águas quentes, as quais chegavam mornas à região urbana.

Laodiceia transformou-se em rico centro comercial, sobretudo por sua indústria têxtil de lã preta e linho, seus artesanatos em ouro e sua academia especializada em oftalmologia, na qual se preparava um colírio, feito com pó de uma pedra da Frígia, que era exportado para todo o Império Romano. A cidade desfrutava de tal opulência que, para restabelecer-se do terremoto ocorrido no ano 60 d.C., não necessitou da ajuda oferecida pela Metrópole. Todos estes aspectos que influem no ambiente e na vida da comunidade laodicense, entrarão na recriminação de Nosso Senhor, como veremos a seguir.

Os verdadeiros destinatários

Ao anjo da Igreja em Laodiceia…“. Desde a Antiguidade surgiram muitas hipóteses a respeito de quais seriam os verdadeiros destinatários das sete cartas, formalmente endereçadas a um anjo.

Ora, os espíritos angélicos não precisam de conversão e todas essas cartas estão cheias de reprovações, conselhos, advertências e promessas. Então, a quem são elas dirigidas?

A palavra profética sempre tem um destinatário concreto que, na maioria dos casos, é a comunidade, o povo de Deus que recebe a mensagem (cf. Am 5, 4; Os 4, 1; Is 2, 1; Jr 2, 1-2). Por isso, no caso das sete Igrejas, “o anjo” receptor deve tomar-se no sentido de uma personificação global dos fiéis da Igreja particular.

Mas essas mensagens possuem também um alcance geral e perene. São palavras de juízo, de purificação e exortação que Cristo dirige à Igreja de todos os tempos. As alusões a situações particulares tomam um caráter universal, tornando-se válidas para os cristãos de todas as épocas que se encontrem em situações espirituais semelhantes às das mencionadas igrejas da Ásia Menor.

Deste modo, poderíamos dizer que temos no livro do Apocalipse uma verdadeira carta de amor de Cristo para os seus, reveladora de verdades que iluminam as mentes em todos os tempos.

Terríveis consequências da tibieza

Conheço tua conduta: não és frio nem quente. Oxalá fosses frio ou quente!“. João, como médico das almas, sabe em que situação se encontra a comunidade à qual se dirige. Constata a presença de um morbus spiritualis, de uma enfermidade que tem como pressuposto a decadência de certo grau de fervor inicial para um estado de relaxamento, de languidez de espírito.

Neste contexto, frio é quem está nas vias do pecado, em oposição à entrega fervorosa daquele que caminha para a santidade com entusiasmo.

Os tratadistas de vida espiritual são unânimes em apontar o perigo do estado de tibieza para incentivar em seus leitores o hábito de fazer exame de consciência, procurando verificar se cumprem com o dever de cristãos segundo a vontade de Deus ou se, pelo contrário, estão em decadência e mediocridade de espírito.

Assim, porque és morno, nem frio nem quente, estou para te vomitar de minha boca“. Como acima dissemos, Laodiceia recebia mornas as águas dos mananciais e a água morna produz náuseas. Não agrada a Deus o homem indeciso e indolente em seus compromissos de cristão, mas sim o ardoroso e decidido. E a experiência pastoral demonstra ser mais comum a conversão sincera de grandes pecadores, do que dos homens de vida cristã medíocre.

Os frios, de que aqui fala o Senhor, podem ser os transgressores da Lei que pecam por ignorância ou fraqueza. Quando, porém, se dão conta de sua situação de pecadores, reconhecem que não têm méritos diante do Altíssimo e postam-se numa atitude de inteira humildade e submissão, esperando como um esmoler a misericórdia de Deus: “O publicano, mantendo-se à distância, não ousava sequer levantar os olhos para o céu, mas batia no peito dizendo: Meu Deus, tem piedade de mim, pecador!” (Lc 18, 13).

Pelo contrário, o morno – ou seja, o cristão pouco comprometido – sente-se seguro em sua campânula de conforto e confia em se salvar sem muito esforço. Como não se reconhece pecador nem aspira à santidade, suas poucas orações são rotineiras, muitas vezes rezadas com fastio e, portanto, sem verdadeira piedade. Assim, é mais perigoso o estado de tibieza espiritual que o de frieza.

Símbolos da cura espiritual

Pois dizes: sou rico, enriqueci-me e de nada mais preciso“. A visão que a igreja de Laodiceia tem de si mesma não reflete seu verdadeiro estado. É fácil se iludir de que tudo está bem numa comunidade ou pessoa, mas não é possível enganar a Deus. Ele conhece o estado real de cada ser.

Não sabes, porém, que és tu o infeliz: miserável, pobre, cego e nu!“. Para reconhecer e detestar as misérias que ofendem a Deus, e formar o propósito firme de recusá-las e repará-las, requer-se uma graça toda especial; mas também é necessário praticar a virtude sobrenatural da penitência.

As sete igrejas mencionadas por São João no Apocalipse: Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laodiceia. Numa cidade conhecida por seus bons tratamentos oftalmológicos, a comunidade se tornou cega e não procurou o Grande Médico. É preciso ter a humildade do publicano e reconhecer a própria situação.

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Seja humilde e reconheça os seus erros!

A bondade de Deus não abandonou os que Ele criou, mas continua a voltar-se para eles e a lembrar-lhes: «Vinde a Mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e aliviar-vos-ei» (Mt 11,28). Isso é: estais cansados, estais infelizes, tivestes a experiência do mal da vossa desobediência. Vinde, convertei-vos; vivei pela humildade, vós que estáveis mortos devido ao orgulho.

Oh, meus irmãos, o que não faz o orgulho, e que poder é o da humildade! Que necessidade havia de todos esses desvios? Se desde o início o homem tivesse permanecido humilde e tivesse obedecido a Deus […], não teria caído. Mesmo após a queda, Deus ofereceu-lhe uma ocasião de se arrepender e de obter misericórdia; mas ele manteve-se orgulhoso. Com efeito, Deus veio dizer-lhe: «Adão, onde estás» (Gn 3,9), ou seja: «De que glória caíste?» […] Depois perguntou-lhe: «Porque pecaste? Porque desobedeceste?», querendo com isto que ele respondesse: «Perdoa-me». Mas […] não encontrou nem humildade nem arrependimento, mas sim o contrário. O homem respondeu: «A mulher que me deste escarneceu de mim» (v. 12); não disse «a minha mulher» mas «a mulher que me deste», como quem diz: «o fardo que colocaste sobre a minha cabeça». E é assim, meus irmãos: quando um homem não aceita reconhecer que pecou, não receia acusar o próprio Deus.

Deus dirige-se em seguida à mulher e pergunta-lhe: «Porque foi que, também tu, desobedeceste ao mandamento?», como se dissesse: «Tu, pelo menos, diz: Desculpa-me, para que a tua alma se humilhe e obtenha misericórdia». Mas […] a mulher responde: «A serpente enganou-me» (v. 13), como que a dizer: «Se ele pecou, que culpa tenho eu?» Que dizeis, infelizes? […] Reconhecei o vosso erro; tende piedade da vossa nudez! Mas nem um nem outro se dignou reconhecer que pecara.

Escrito por: Doroteu de Gaza (c. 500-?), monge na Palestina.

Por que me confessar?

Na verdade, nossas maiores confusões partem do fato de nos perguntarmos as- sim: “Por que confessar-me a um sacerdote, homem pecador com o eu, e não di- retamente – e só – a Deus?” Quando assim fazemos, nossos olhos estão apenas em nós e em nossa “liberdade” e/ou comodidade, e não em Deus, em Sua liber- dade e misericórdia.

É obedecendo às palavras de Cristo que nos confessamos não somente a Deus, mas também a um sacerdote, homem igual a mim e a você. Acontece, po- rém, que ele foi escolhido por Deus e Dele recebeu uma graça e uma autoridade, através destas palavras ditas pelo próprio Cristo e transmitidas a todos os sacer- dotes: “Aqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoa- dos; aqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos” (Jo 20, 23). Em relação a isso, à graça e autoridade que Jesus lhe deu, não importando sua condi- ção de pecador, é que o sacerdote é diferente de mim e de você.

O sacramento da reconciliação (outro nome da confissão) é um mistério da misericórdia de Deus. Veja comigo: fato de nos confessarmos com um homem, pecador, só conta a nosso favor, justamente porque esse sacerdote com o qual me confesso sabe o que é a fraqueza humana, experimenta na sua vida o que é a luta contra o pecado, “sabe compadecer-se dos que estão na ignorância, porque também ele está cercado de fraqueza” (Hb 5 2). Porém, não obstante a essa sua condição humana e frágil, sobre ele repousa uma graça e uma autoridade, dada por Cristo, para perdoar nossos pecados.

Em (Lc 5, 12-16) temos a cura de um leproso, realizada por Jesus: “Ordenou-lhe Jesus que não o contasse a ninguém, dizendo-lhe, porém: ‘Vai e mostra-te ao sacerdote…’” (v.14a). Prestando atenção e “mergulhando” nessa passagem bíbli- ca, nós podemos ouvir as palavras de Jesus, que fala ao leproso, mas fala tam- bém a todas as pessoas que pecaram, se arrependeram e querem voltar à comu- nhão com Deus e com os irmãos. Observe que Cristo ordena que o leproso não conte nada a ninguém, mas em relação ao sacerdote Cristo diz:“Vai e mostra-te”. É também por isso que devo confessar-me a um sacerdote, obedecendo a Cristo, que quis escolher mediadores da Sua misericórdia.

Nossa posição em relação à confissão é uma questão de e humildade. Preci- so crer que há um Deus que, por amor a mim, me perdoa através das palavras e gestos de uma pessoa humana; depois, preciso reconhecer que resisto a ser pequeno diante de Deus. Infelizmente, o que muitas ve- zes quero fazer é viver sem Deus, sem seu perdão, ser Deus no lugar Dele e sal- var-me a mim mesmo, ou negar minha necessidade de salvação, sem ter que “en- cará-lo”. Seria muito fácil e cômodo se eu me confessasse para o nada, para mim mesmo ou, como muitas vezes dizem, “diretamente a Deus”. Mas, se Deus apare- cesse agora e dissesse que só deveríamos nos confessar a Ele, diretamente, sem nenhuma mediação humana – acredite – a resistência, as dúvidas e/ou a falta de fé seria exatamente as mesmas: por que me confessar a Deus? E a minha liber- dade? Continuariam a se perguntar. Sabe por quê? Porque o problema está den- tro de nós e não fora, e não em Deus ou nos seus sacerdotes.

A verdade de fundo para toda essa resistência é o medo de Deus. Você e eu te- mos medo de Deus, assim como Adão e Eva, depois de terem pecado (cf. Gn 3, 8-10). Por exemplo, se alguém ofende gravemente um grande amigo, será fácil contar a ofensa pra qualquer pessoa, até dizer a outros o quanto se está arrepen- dido, mas será muito difícil conversar sobre a ofensa e pedir perdão para o pró- prio amigo, a quem ofendemos. Passaremos um tempo evitando sua presença e será dificílimo olhar-lhe nos olhos. Se tivermos coragem para, livremente, pedir- mos perdão a esse amigo, é porque o conhecemos, sabemos que Ele não nos con- denará e que podemos contar com seu perdão.

Daí, concluímos que precisamos, você e eu, conhecer mais a Deus, travar uma amizade sincera com Ele, para que não sejamos daqueles que se afastam da Igreja e de Deus por acharem que Ele é um homem cujo principal divertimento é anotar um por um os nossos pecados, para depois castigar-nos. Se não formos a- migos de Deus e vivermos seguindo apenas a opinião que os outros têm Dele, correremos o risco de achar muito comum que haja em cada esquina um posto de distribuição de drogas, abortivos e anticoncepcionais e, ao contrário, ficare- mos escandalizados pelo fato de Deus ter desejado nos dar, em cada sacerdote, um “posto de distribuição” da Sua infinita misericórdia.

O sacramento da confissão é o único “tribunal” no qual entro, confesso-me cul- pado, e saio completamente absolvido.

“Não fique nervoso quando for se confessar, vá alegre pois Ele vai lhe perdoar. Eu não posso deixar para depois, eu preciso mergulhar na misericórdia do Se- nhor hoje. Confessem seus pecados, não tenham medo da misericórdia divina.”

Padre José Augusto

Fonte: Comunidade Católica Shalom