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Quinta-feira Santa

Depois de cantar esse especial hino de louvor escrito por Santo Tomas de Aquino, medite a passagem São João 17, onde Nosso Senhor numa oração ao Pai nos revela seu grande amor por nós.

Pange lingua gloriosi corporis mysterium, sanguinisque pretiosi,
Canta, ó língua, o mistério 
deste Corpo glorioso, e do Sangue precioso

quem in mundi pretium fructus ventris generosi, Rex effudit gentium.
derramado sobre o mundo, fruto de ventre fecundo, Rei de todas as nações

Nobis datus, nobis natus ex intacta Virgine et in mundo conversatus,
Foi-nos dado e nasceu para nós da Virgem pura e nesta terra, Ele desceu,

sparso verbi semine, sui moras incolatus miro clausit ordine.
semeou sua Palavra, cumprindo aqui o seu tempo, grande sinal nos deixou.

In supremae nocte cenae recum bens cum fratribus, observata lege plene
Na noite santa da Ceia, com os irmãos, reunido, observando todo o rito,

cibis in legalibus, cibum turbae duodenae se dat suis manibus.
daquilo que é prescrito, por suas mãos, em alimento, aos doze, se entregou.

Verbum caro, panem verum verbo carnem efficit, 
O Verbo encarnado torna pelo seu Verbo, pão e vinho,

fitque sanguis Christi merum, et si sensus deficit
no seu Corpo e no seu Sangue, para além do entendimento,

ad firmandum cor sincerum sola fides sufficit.
do sincero coração a fé é o suficiente.

Tantum ergo Sacramentum veneremur cernui;
Este grande sacramento, inclinados, adoremos;

et antiquum documentum novo cedat ritui;
os antigos manuscritos dão lugar a novo rito;

praestet fides supplementum sensuum defectui.
Sirva a fé de complemento na fraqueza dos sentidos.

Genitori, Genitoque laus et iubilatio,
Seja dado ao Pai e ao Filho, o louvor, o júbilo,

salus, honor, virtus quoque sit et benedictio:
saudação, honra, virtude assim como a bênção.

procedenti ab utroque compar sit laudatio.
Ao que de ambos procede demos o mesmo louvor.

Amen.
Amem.

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Tríduo Pascal – Catequese do Papa

Na última quarta-feira, o  nosso Papa Bento XVI nos apresentou uma belíssima catequese, explicando o significado do Tríduo  Pascal e nos advertindo de certos males que vêem tomando a humanidade. Veja abaixo alguns trechos escritos e os vídeos de toda a catequese.

“O homem por si só é tentado a opor-se à vontade de Deus, a ter a intenção de seguir a própria vontade, de sentir-se livre somente se é autônomo; opõe a pró- pria autonomia contra a heteronomia de seguir a vontade de Deus. Esse é todo o drama da humanidade”.

O Santo Padre ressaltou que “o critério que guiou cada escolha de Jesus durante toda a sua vida foi a firme vontade de amar o Pai, de ser um com o Pai, e ser-Lhe fiel”.

“No reviver o santo Tríduo, disponhamo-nos a acolher também nós na nossa vida a vontade de Deus, conscientes de que na vontade de Deus, também se parece dura, em contraste com as nossas intenções, encontra-se o nosso ver- dadeiro bem, o caminho da vida”.

Feliz Páscoa!

Vivendo bem a Semana Santa

Começo esse post com um comentário maravilhoso em vídeo  do Prof. Felipe Aquino sobre a Semana Santa: veja AQUI!

Agora apresento um texto extraído do livro “Viver a Páscoa”, de Anselm Grün, que nos descreve tudo o que  viveremos durante esse Tempo da Paixão. Segue abaixo:

Com o DOMINGO DE RAMOS começa para nós a verdadeira celebração da morte e ressurreição de Jesus. Damos início à recordação do sofrimento de Jesus com uma procissão triunfal. Como no tempo de Jesus, que entrou em Je- rusalém celebrado como um rei, também nós entramos na igreja com ramos de palmeira.

Com a procissão de Ramos reconhecemos que é esse Jesus, que se dispõe a tri- lhar o calvário. Ele é o Messias que nos da liberdade e o rei que governa o mundo todo. Quando seguimos a Jesus como o verdadeiro rei e o louvamos com nossas canções, experimentamos nós mesmos o caminho para nossa dignidade de reis.


Somos todos reis e rainhas. Quando o sofrimento se abate sobre nós, precisamos sempre lembrar que a dignidade divina reside em nós. Jesus trilhou o caminho da humilhação, foi rebaixado ao extremo, mas jamais deixou de estar consciente de sua dignidade divina. Da mesma forma, também não podemos nos deixar des- truir pelo sofrimento. Nossa dor pode até mesmo nos fazer calar, como aconte- ceu com Jesus, e pode até lançar-nos na solidão e na tristeza. Mas não pode tirar de nós nossa dignidade.Por isso o triunfo de Jesus é celebrado no início da sema- na da Paixão: ao percorrer o calvário, Jesus chega ao triunfo,e ao mesmo acon- tecerá conosco quando precisarmos enfrentar o sofrimento.

Para muitos, os primeiros dias da Semana Santa são dias normais de trabalho. Mesmo assim, devemos nos esforçar por organizar essa semana de um jeito dife- rente. Em meu caso, faz parte de minha liturgia pessoal da Semana Santa ouvir com toda a calma a Paixão segundo São João e a Paixão segundo São Mateus, de Johann Sebastian Bach. E leio também comentários dos Evangelhos, para me aproximar do mistério da Paixão de Jesus. Percebo em mim mesmo ser impossí- vel esgotar o potencial de meditação que o sofrimento de Jesus tem em si. Sem- pre reaparece a pergunta: Qual o sentido da Paixão de Jesus? O que sig- nifica professarmos na liturgia que Cristo nos salvou por sua morte na cruz? Como devo compreender meu sofrimento em face da Pai- xão de Jesus, e como dar conta desse sofrimento.

QUINTA-FEIRA SANTA

O primeiro ponto alto da Semana Santa é a Quinta-Feira Santa. Com ela entra- mos no assim chamado triduum sacrum, ingressamos no mistério dos três dias sagrados. Celebramos a instituição da Eucaristia na última ceia. Jesus quis dar a nós um sinal visível para deixar claro seu amor até o fim. A Eucaristia é o lugar em que podemos experimentar a cada novo dia o mistério do amor de Jesus. Ao partir o pão e dá-lo aos discípulos, Jesus deixou clara sua maneira de entender a própria morte na cruz: como consumação de seu amor, como entrega de si mes- mo para nós. Ele também poderia ter escapado à prisão e ter fugido para outro país. Mas persistiu porque não quis abandonar seus discípulos , para os quais ha- via pregado o amor de Deus e o demonstrado concretamente, por suas ações. Com sua morte na cruz, Jesus mostrou-lhes que os amava até as últimas conse- qüências. Em cada Eucaristia participamos do amor de Jesus, que não fraquejou nem mesmo diante da morte.


Todo grande amor supera a morte. Como sinal de seu amor Jesus lavou os pés de seus discípulos. Esse antigo rito da tradição é cumprido pelo sacerdote na litur- gia da comunidade, para tornar visível o que Jesus fez por nós com sua morte na cruz. Ele se curvou até nós, rebaixou-se até a poeira da morte, lavou e curou nossos pés sujos e feridos.

SEXTA-FEIRA SANTA

Como a Sexta-Feira Santa é feriado, deveríamos aproveitá-la para dedicar-nos aos acontecimentos sagrados que celebramos na liturgia da tarde. Esse poderia ser um dia muito especial. Muitos o tomam como um dia de silêncio, permane- cem calados durante o café da manhã, e ouvem uma música que combine com a situação. Um café da manhã em silêncio une a família de um jeito diferente do que acontece com as conversas dos dias normais. Muitos jejuam durante a Sex- ta-Feira Santa. Comem apenas pão seco ou se limitam a tomar líquidos. Faz bem à alma afastar esse dia da rotina de sempre, cumprir nossos próprios rituais de Sexta-Feira Santa, enquanto indivíduo e enquanto família. Algumas famílias rezam juntas os Salmos ou meditam juntas sobre o calvário.


O ponto alto da Sexta-Feira Santa é a liturgia às 15 horas, a hora em que Jesus morreu. É uma celebração antiga e tradicional entre os católicos; não se trata de uma celebração eucarística, mas de uma liturgia marcada somente pela palavra, por cânticos e ritos. Ela começa com um longo silêncio, durante o qual o sacer- dote e os auxiliares permanecem deitados no chão. Com esse gesto inusitado, os celebrantes da liturgia expressam a idéia de que só conseguimos nos aproximar do mistério da morte de Jesus na cruz quando estamos em silêncio. Em seguida, o texto da Paixão segundo o Evangelho de São João é lido em voz alta ou canta- do. João descreve a Paixão de Jesus de maneira semelhante ao que fazem os si- nóticos: com a prisão, interrogatório pelos sacerdotes no Templo, interrogató- rio por Pilatos, flagelação e crucificação. Jesus, no entanto, percorre soberano essas estações de seu sofrimento. Desde o início João deixa claro quem é esse homem que os milicianos aprisionam. Diante dele caem por terra, e vêem-se o- brigados a prestar-lhe homenagem como rei verdadeiro. Pilatos tenta intimidar Jesus. Mas mesmo detendo o poder político, ele surge diante de Jesus como im- potente e fraco. Jesus menciona a razão de sua própria soberania: “Minha reale- za não é deste mundo” (Jô 18,36). A dignidade de Jesus não é deste mundo. Ele desceu do céu para a terra. O mundo não tem nenhum poder sobre ele, mesmo que por fora pareça ser assim.

Não ouvimos o relato da Paixão de Jesus para admirá-la, mas para meditar em Jesus Cristo sobre a superação do próprio sofrimento. Vivenciamos em nossa vi- da as mesmas estações de sofrimento que Jesus percorreu antes de nós. Somos presos, condenados, mal compreendidos, feridos, expulsos e por fim somos pre- gados na cruz de nossas próprias contradições. Lá avançaremos solitários pelos portões da morte adentro. Mas em tudo isso vale também para nós o fato de ter- mos em nós uma realeza que não é deste mundo, o fato de haver algo divino em nós, algo que não se submete a nenhum poder deste mundo. Isso nos dá a confi- ança de que seguiremos nosso caminho rumo à glória de Deus com liberdade e dignidade, ao lado de Jesus.

Depois das grandes preces nas quais a Igreja reza por todas as pessoas do mun- do, a veneração da cruz constitui o ponto alto da liturgia da Sexta-Feira Santa. Não se venera a cruz como símbolo de sofrimento, mas como ima- gem de nossa salvação. A cruz é sinal de que Cristo assumiu todas as contra- dições da condição humana e transformou-as por meio de seu amor, que ele de- monstrou ter por nós, até sua consumação na cruz. Nada mais em nós está ex- cluído desse amor de Deus. Tudo em nós foi tocado por esse amor, que fulgura de maneira mais clara por intermédio do Filho de Deus que pende na cruz. É por isso que, diante da cruz, proclamamos nossa alegria pelo amor de Jesus, cantan- do: “Veneramos vossa Cruz, ó Senhor, proclamamos e louvamos vossa ressurreição santíssima: pois vede, através do lenho da cruz a alegria chegou ao mundo“.

A cruz não quer oprimir, mas elevar; não quer ferir, mas curar; não quer sobre- carregar, mas tornar a carga mais leve. Na cruz vemos o mistério de nossa salva- ção e libertação.

SÁBADO DE ALELUIA

Para muitos, o Sábado de Aleluia é apenas um dia de faxina ou de preparação pa- ra a Páscoa. No entanto, esse dia sem liturgia tem um significado espiritual pró- prio. Jesus morreu por nós, e permaneceu três dias no sepulcro. Assim, também deveríamos nos dedicar com plena consciência ao teor espiritual desse dia. Isso acontece melhor em meio ao silêncio, quando nos posicionarmos quanto à ver- dade e à situação sepulcral de nós mesmos.

Cristo desceu ao reino da morte, ao Hades, o reino das sombras. Posso imaginar como Jesus desce aos cantos tenebrosos de minha própria existência. O que ex- cluo da vida? Quais os lugares para os quais não gosto de olhar? Onde foi que tratei de recalcar alguma coisa, empurrar algo para as câmaras escuras de minha alma? Para onde me nego a olhar? O que pretendo esconder de mim mesmo, dos outros e de Deus? Jesus propõe-se descer exatamente a esses rincões da morte e da escuridão, para mexer em tudo o que há de escuro e rançoso em mim, tudo o que há de mortiço e entorpecido, e então despertar-me para a vida.

Os ícones da Igreja oriental sempre representam a ressurreição de Jesus com Cristo subindo do reino dos mortos, trazendo consigo os mortos pela mão. No dia de Sábado de Aleluia permito que Cristo desça até o meu reino dos mortos, para que tome todos os mortos pela mão, inclusive o que há de morto em mim mesmo, e nos reconduza à luz, a fim de despertar-nos para a vida.

Cristo esteve no sepulcro. Assim, o Sábado de Aleluia convida-me a olhar para minha própria situação sepulcral. O que me caberia enterrar? Que feridas em minha história de vida precisam ser enterradas de uma vez por todas? Quando sepulto todas as ofensas, paro de usá-las como armas para agredir as outras pes- soas. Não as carregarei mais em mim mesmo, como se fossem uma recriminação tácita aos que feriram em algum momento. Com isso, posso descartar minha má- goa, meus ressentimentos e minha irritação. Não preciso de mais nada disso co- mo pretexto para justificar minha recusa a olhar a vida de frente.

Pretendo sepultar também os sentimentos de culpa que consomem e dos quais não consigo me afastar. Preciso ter confiança em que Cristo também desceu ao meu sentimento de culpa e a todo martírio interno que imponho a mim mesmo, com auto-acusações; e desceu até aí para libertar-me. Quando paro de andar em círculos em torno de minha culpa, aí sim realmente posso despertar para a vida nova.

No Sábado de Aleluia desço até meu próprio sepulcro e imagino de que forma Cristo repousa lá, a fim de trazer tudo o que lá está para uma nova vida. Cristo desceu ao sepulcro de meu medo, minha resignação, minha autocompaixão e minha morbidez, a fim de salvar-me e transformar-me no mais fundo de minha alma. Para ressuscitar na Páscoa como uma pessoa salva e liberta, preciso ter a coragem de meditar acerca de meu sepulcro e de sepultar tudo o que me distan- cia da vida.

PÁSCOA

No dia da Páscoa celebramos não só a ressurreição de Jesus, mas também nossa própria ressurreição. A liturgia da noite de Páscoa começa com a escuridão. Ain- da permanecemos conscientemente na escuridão de nosso sepulcro. Sentamos juntos na igreja, com as luzes apagadas. Mas logo o diácono entra na igreja com o círio pascal – e a luz de uma única vela ilumina a escuridão. Essa luz é passada a- diante a cada um dos fiéis que trouxe sua vela para a celebração da Páscoa.

Muitos as terão enfeitados: os ornamentos são símbolos que representam vida e luz para cada uma das pessoas. E pouco depois, enquanto o diácono entoa o ma- ravilhoso cântico Exsultet, todos os fiéis continuam segurando suas velas já in- candescentes em meio à escuridão,para que tudo se torne mais claro em seus co- rações, para que o sol pascal também possa luzir em cada um deles e espantar to- da escuridão. A luz de Cristo quer irradiar-se por todos os cantos de nosso cora- ção, trazer o calor da vida para a frieza que possa haver dentro de nós, trazer vi- vacidade aonde haja desalento, confiança aonde haja medo.

O Aleluia! Faz parte da festa da Páscoa. Depois de quarenta dias de Quaresma o Aleluia! Ressoa pela primeira vez na noite de sábado para domingo. Para nos ha- bituarmos ao som alegre dos cânticos de Páscoa, cantamos o Aleluia! Três vezes, um tom mais alto a cada vez; assim, ele chega cada vez mais fundo ao coração e afasta toda a tristeza de lá.A ressurreição precisa ser exaltada com cantos. Preci- sa ganhar expressão. Não basta apenas crer nela com a cabeça. O corpo quer res- suscitar. E ele o faz cantando. Por meio do canto cresce em nós o amor por aqui- lo que exaltamos. No Aleluia! Pascal projetamo-nos com nosso canto para den- tro do milagre do amor, do amor que é mais forte que a morte. Mas só poderei sentir de fato a alegria pela ressurreição de Jesus e por minha própria ressurrei- ção quando cantar de coração. Aí, a pessoa inteira tem de se transformar no cân- tico que entoa. Só assim sentirá o amor que o Ressuscitado pretende despertar em cada um. Ao cantar, surge diante de nossos olhos uma imagem do que exalta- mos com nosso canto. Com o canto temos a noção de que o Ressuscitado está no meio de nós e nos concede participar da amplitude e liberdade de sua ressurrei- ção.

A Páscoa é a festa da vida. Celebramos a superação da morte pela vida. Cristo derrotou a morte. A vida é mais forte que a morte. Já não se pode matar a vida. E cabe agora celebrá-la.Essa comemoração da vida acontece na refeição festiva da Eucaristia. E no momento em que desejamos “Feliz Páscoa” uns aos outros.A no- va vida também pede um novo convívio.

Celebramos a Páscoa durante cinqüenta dias. Nosso dia-a-dia é o teste para ver se comemoramos a Páscoa somente com um sentimento de euforia, ou se a res- surreição acontece de fato em meio a nossa vida. Nós tratamos de nos inserir na vida da ressurreição. Aprendemos a levantar sempre, mesmo quando alguma coisa dá errado no  trabalho,  quando  surgem  conflitos  nos  relacionamentos, quan- do fracassamos e nos decepcionamos com nós mesmos. Ressurreição quer dizer levantar-se sempre de novo, não ficar no chão quando levamos um tombo. E ressurreição significa que creio estar acompanhado do Ressuscitado enquanto caminho.

Cristo ressurge sempre em minha vida, apontando novos caminhos. Ele vem até mim para mostrar-me que a ressurreição transforma em êxito o que parecia per- dido, o que estava morto renasce, e a escuridão torna-se luz. A fé na ressurreição cura as mágoas de minha vida e ensina-me a erguer-me e prosseguir em direção à verdadeira vida, à vida que Deus concebeu para mim.A ressurreição quer me en- sinar desde já, no aqui e agora, o que a vida é. Ela me traz a promesa de que esta vida também ultrapassa o limiar da morte, renova em mim a certeza de que não se pode acabar com a vida, porque com a morte e ressurreição de Jesus o amor derrotou a morte, para todo o sempre.

Mensagem de Quaresma

Amados irmãos e irmãs!

A Quaresma, que nos conduz à celebração da Santa Páscoa, é para a Igreja um tempo litúrgico muito precioso e importante, em vista do qual me sinto feliz por dirigir uma palavra específica para que seja vivido com o devido empenho. Enquanto olha para o encontro definitivo com o seu Esposo na Páscoa eterna, a Comunidade eclesial, assídua na oração e na caridade laboriosa, intensifica o seu caminho de purificação no espírito, para haurir com mais abundância do Misté- rio da redenção a vida nova em Cristo Senhor (cf. Prefácio I de Quares- ma).

Esta mesma vida já nos foi transmitida no dia do nosso Batismo, quando, «ten- do-nos tornado partícipes da morte e ressurreição de Cristo» iniciou para nós «a aventura jubilosa e exaltante do discípulo» (Homilia na Festa do Baptismo do Senhor, 10 de Janeiro de 2010). São Paulo, nas suas Cartas, insiste repetidas ve- zes sobre a singular comunhão com o Filho de Deus realizada neste lavacro. O fa- to que na maioria dos casos o Batismo se recebe quando somos crianças põe em evidência que se trata de um dom de Deus: ninguém merece a vida eterna com as próprias forças. A misericórdia de Deus, que lava do pecado e permite viver na própria existência «os mesmos sentimentos de Jesus Cristo» (Fl 2, 5), é comuni-cada gratuitamente ao homem.

O Apóstolo dos gentios, na Carta aos Filipenses, expressa o sentido da transfor- mação que se realiza com a participação na morte e ressurreição de Cristo, in-dicando a meta: que assim eu possa «conhecê-Lo, a Ele, à força da sua Ressurreição e à comunhão nos Seus sofrimentos, configurando-me à Sua morte, para ver se posso chegar à ressurreição dos mortos» (Fl 3, 1011). O Batismo, portanto, não é um rito do passado, mas o encontro com Cristo que informa toda a existência do batizado,doa-lhe a vida divina e chama-o a uma conversão sincera, iniciada e apoiada pela Graça, que o leve a alcançar a estatura adulta de Cristo.

Um vínculo particular liga o Batismo com a Quaresma como momento favorável para experimentar a Graça que salva. Os Padres do Concílio Vaticano II convi- daram todos os Pastores da Igreja a utilizar «mais abundantemente os elementos batismais próprios da liturgia quaresmal»( Sacrosanctum Concilium, 109). De fato, desde sempre a Igreja associa a Vigília Pascal à celebração do Batismo: nes- te Sacramento realiza-se aquele grande mistério pelo qual o homem morre para o pecado, é tornado partícipe da vida nova em Cristo Ressuscitado e recebe o mesmo Espírito de Deus que ressuscitou Jesus dos mortos (cf. Rm 8, 11). Este dom gratuito deve ser reavivado sempre em cada um de nós e a Quaresma oferece-nos um percurso análogo ao catecume- nato, que para os cristãos da Igreja antiga, assim como também para os catecú- menos de hoje, é uma escola insubstituível de fé e de vida cristã: deveras eles vi- vem o Batismo como um ato decisivo para toda a sua existência.

Para empreender seriamente o caminho rumo à Páscoa e nos prepararmos para celebrar a Ressurreição do Senhor – a festa mais jubilosa e solene de todo o Ano litúrgico – o que pode haver de mais adequado do que deixar-nos con- duzir pela Palavra de Deus? Por isso a Igreja,  nos  textos  evangélicos  dos domingos de Quaresma, guia-nos para um encontro particularmente intenso com o Senhor, fazendo-nos repercorrer as etapas do caminho da iniciação cristã: para os catecúmenos, na perspectiva de receber o Sacramento do renascimento, para quem é batizado, em vista de novos e decisivos passos no seguimento de Cristo e na doação total a Ele.

O primeiro domingo do itinerário quaresmal evidencia a nossa condição do homens nesta terra. O combate vitorioso contra as tentações, que dá iní- cio à missão de Jesus, é um convite a tomar consciência da própria fra- gilidade para acolher a Graça que liberta do pecado e infunde nova força em Cristo, caminho, verdade e vida (Ordo Initiationis Christianae Adultorum, n. 25). É uma clara chamada a recordar como a fé cristã implica, a exemplo de Jesus e em união com Ele, uma luta «contra os dominadores deste mundo tenebroso» (Ef 6, 12), no qual o diabo é ativo e não se cansa, nem sequer hoje, de tentar o homem que deseja aproximar-se do Senhor: Cristo disso sai vitorioso, para abrir também o nosso coração à esperança e guiar-nos na vitória às seduções do mal.

No segundo domingo, o Evangelho da Transfiguração do Senhor põe di- ante dos nossos olhos a glória de Cristo,que antecipa a ressurreição e que anun- cia a divinização do homem. A comunidade cristã toma consciência de ser conduzida, como os apóstolos Pedro, Tiago e João, «em particular, a um alto monte» (Mt 17, 1), para acolher de novo em Cristo, como filhos no Filho, o dom da Graça de Deus: «Este é o Meu Filho muito amado: n’Ele pus todo o Meu enle- vo. Escutai-O» (v. 5). É o convite a distanciar-se dos boatos da vida quotidiana para se imergir na presença de Deus: Ele quer transmitir-nos, todos os di- as, uma Palavra que penetra nas profundezas do nosso espírito, on- de discerne o bem e o mal (cf. Hb 4, 12) e reforça a vontade de se- guir o Senhor.

pedido de Jesus à Samaritana: «Dá-Me de beber» (Jo 4, 7), que é propos- to na liturgia do terceiro domingo, exprime a paixão de Deus por todos os ho- mens e quer suscitar no nosso coração o desejo do dom da «água a jorrar para a vida eterna» : é o dom do espírito Santo, que faz dos cristãos «verda- deiros adoradores» capazes de rezar ao Pai «em espírito e verdade». Só esta água pode extinguir a nossa sede do bem, da verdade e da beleza! Só esta água, que nos foi doada pelo Filho, irriga os desertos da alma inquieta e insatis- feita, «enquanto não repousar em Deus», segundo as célebres palavras de Santo Agostinho.

No quarto domingo, o cego de nascença apresenta Cristo como luz do mundo. O Evangelho interpela cada um de nós:«Tu crês no Filho do Homem?». «Creio, Senhor» (Jo 9, 35.38), afirma com alegria o cego de nascença, fazendo-se voz de todos os crentes. O milagre da cura é o sinal que Cristo, junta- mente com a vista, quer abrir o nosso olhar interior, para que a nossa fé se torne cada vez mais profunda e possamos reconhecer n’Ele o nosso único Salvador. Ele ilumina todas as obscuridades da vida e leva o ho- mem a viver como «filho da luz».

Quando, no quinto domingo, nos é proclamada a ressurreição de Lázaro, so- mos postos diante do último mistério da nossa existência: «Eu sou a ressur- reição e a vida… Crês tu isto?» (Jo 11, 25-26). Para a comunidade cristã é o momento de depor com sinceridade, juntamente com Marta, toda a esperança em Jesus de Nazaré: «Sim, Senhor, creio que Tu és o Cristo, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo». A comunhão com Cristo nesta vida prepara-nos para superar o limite da morte, para viver sem fim n’Ele.A fé na res- surreição dos mortos e a esperança da vida eterna abrem o nosso olhar para o sentido derradeiro da nossa existência: Deus criou o homem para a ressurreição e para a vida, e esta verdade doa a dimensão autêntica e definitiva à história dos homens, à sua existência pessoal e ao seu viver social, à cultura, à política, à eco- nomia. Privado da luz da fé todo o universo acaba por se fechar num sepulcro sem futuro, sem esperança.

O percurso quaresmal encontra o seu cumprimento no Tríduo Pascal (Quinta-feira Santa, a Sexta-feira da paixão, a vigília do Sábado de Aleluia), particular- mente na Grande Vigília na Noite Santa: renovando as promessas batis- mais, reafirmamos que Cristo é o Senhor da nossa vida, daquela vida que Deus nos comunicou quando renascemos «da água e do Espírito Santo», e reconfir- mamos o nosso firme compromisso em corresponder à ação da Graça para ser- mos seus discípulos.

O nosso imergir-nos na morte e ressurreição de Cristo através do Sacramento do Batismo, estimula-nos todos os dias a libertar o nosso coração das coi- sas materiais, de um vínculo egoísta com a «terra», que nos empo- brece e nos impede de estar disponíveis e abertos a Deus e ao próxi- mo. Em Cristo, Deus revelou-se como Amor (cf 1 Jo 4, 7-10). A Cruz de Cristo, a «palavra da Cruz» manifesta o poder salvífico de Deus (cf. 1 Cor 1, 18), que se doa para elevar o homem e dar-lhe a salvação: amor na sua forma mais radical (cf. Enc. Deus caritas est, 12). Através das práticas tradicionais do jejum, da es- mola e da oração, expressões do empenho de conversão, a Quaresma educa para viver de modo cada vez mais radical o amor de Cristo. O Jejum, que pode ter diversas motivações, adquire para o cristão um significado profun- damente religioso: tornando mais pobre a nossa mesa aprendemos a superar o egoísmo para viver na lógica da doação e do amor; supor- tando as privações de algumas coisas –e não só do supérfluo– apren- demos a desviar o olhar do nosso «eu», para descobrir Alguém ao nosso lado e reconhecer Deus nos rostos de tantos irmãos nossos. Para o cristão o jejum nada tem de intimista, mas abre em maior medida para Deus e para as necessidades dos homens, e faz com que o amor a Deus seja tam- bém amor ao próximo (cf. Mc 12, 31).

No nosso caminho encontramo-nos perante a tentação do ter, da avidez do di- nheiro, que insidia a primazia de Deus na nossa vida. A cupidez da posse provoca violência, prevaricação e morte: por isso a Igreja, especialmente no tempo qua- resmal, convida à prática da esmola, ou seja, à capacidade de partilha. A ido- latria dos bens, ao contrário, não só afasta do outro, mas despoja o homem, tor- na-o infeliz, engana-o, ilude-o sem realizar aquilo que promete, porque coloca as coisas materiais no lugar de Deus, única fonte da vida. Como compreender a bondade paterna de Deus se o coração está cheio de si e dos próprios projetos, com os quais nos iludimos de poder garantir o futuro? A tentação é a de pensar, como o rico da parábola: «Alma, tens muitos bens em de- pósito para muitos anos…». «Insensato! Nesta mesma noite, pedir-te-ão a tua al-ma…» (Lc 12, 19-20). A prática da esmola é uma chamada à primazia de Deus e à atenção para com o próximo, para redescobrir o nosso Pai bom e receber a sua misericórdia.

Em todo o período quaresmal, a Igreja oferece-nos com particular abundância a Palavra de Deus. Meditando-a e interiorizando-a para a viver quotidianamen- te, aprendemos uma forma preciosa e insubstituível de oração, porque a escuta atenta de Deus, que continua a falar ao nosso coração, alimenta o caminho de fé que iniciámos no dia do Batismo. A oração permite-nos também adquirir uma nova concepção do tempo: de fato, sem a perspectiva da eternidade e da trans- cendência ele cadencia simplesmente os nossos passos rumo a um horizonte que não tem futuro. Ao contrário, na oração encontramos tempo para Deus, para co- nhecer que «as suas palavras não passarão» (cf. Mc13, 31), para entrar naquela comunhão íntima com Ele «que ninguém nos poderá tirar» (cf. Jo 16, 22) e que nos abre à esperança que não desilude, à vida eterna.

Em síntese, o itinerário quaresmal, no qual somos convidados a contemplar o Mistério da Cruz, é «fazer-se conformes com a morte de Cristo» (Fl 3, 10), para realizar uma conversão profunda da nossa vida: deixar-se transformar pela ação do Espírito Santo, como São Paulo no caminho de Damas- co; orientar com decisão a nossa existência segundo a vontade de Deus; libertar-nos do nosso egoísmo, superando o instinto de domí- nio sobre os outros e abrindo-nos à caridade de Cristo. O período quaresmal é momento favorável para reconhecer a nossa debilida- de, acolher, com uma sincera revisão de vida, a Graça renovadora do Sacramento da Penitência e caminhar com decisão para Cristo.

Queridos irmãos e irmãs, mediante o encontro pessoal com o nosso Redentor e através do jejum, da esmola e da oração, o caminho de conversão rumo à Páscoa leva-nos a redescobrir o nosso Batismo. Renovemos nesta Quaresma o acolhi- mento da Graça que Deus nos concedeu naquele momento, para que ilumine e guie todas as nossas ações. Tudo o que o Sacramento significa e realiza, somos chamados a vivê-lo todos os dias num seguimento de Cristo cada vez mais gene- roso e autêntico. Neste nosso itinerário, confiemo-nos à Virgem Maria, que ge- rou o Verbo de Deus na fé e na carne, para nos imergir como ela na morte e res- surreição do seu Filho Jesus e ter a vida eterna.

Escrito por: Papa Bento XVI

A data da Páscoa

A páscoa judaica (Pesach), que ocorre 163 dias antes do início do ano judaico, foi instituída na época de Moisés, uma festa comemorativa feita a Deus em agra- decimento à libertação do povo de Israel escravizado pelo Faraó, o rei do Egito. Esta data não é a mesma da Páscoa Juliana e Gregoriana.

O dia da Páscoa cristã, que marca a ressurreição de Cristo, de acordo com o de- creto do papa Gregório XIII (Ugo Boncampagni, 1502-1585), Inter Gravissimas em 24.02.1582, seguindo o primeiro concílio de Nicéia de 325 d.C., convocado pelo imperador romano Constantino, é o primeiro domingo depois da Lua Cheia que ocorre em ou logo após 21 de março , data fixada para o equi- nócio de primavera no hemisfério norte. Entretanto, a data da Lua Cheia não é a real, mas a definida nas Tabelas Eclesiásticas, que, sem levar totalmente em con- ta o movimento complexo da Lua, podia ser calculada facilmente, e está próxima da lua real.

De acordo com essas regras, a Páscoa nunca acontece antes de 22 de março nem depois de 25 de abril. A Quarta-Feira de Cinzas ocorre 46 dias antes da Páscoa e, portanto, a Terça-Feira de carnaval ocorre 47 dias antes da Páscoa.

A data da Páscoa de 1980 a 2024:

1980 Abril 6 1995 Abril 16 2010 Abril 4
1981 Abril 19 1996 Abril 7 2011 Abril 24
1982 Abril 11 1997 Março 30 2012 Abril 8
1983 Abril 3 1998 Abril 12 2013 Março 31
1984 Abril 22 1999 Abril 4 2014 Abril 20
1985 Abril 7 2000 Abril 23 2015 Abril 5
1986 Março 30 2001 Abril 15 2016 Março 27
1987 Abril 19 2002 Março 31 2017 Abril 16
1988 Abril 3 2003 Abril 20 2018 Abril 1
1989 Março 26 2004 Abril 11 2019 Abril 21
1990 Abril 15 2005 Março 27 2020 Abril 12
1991 Março 31 2006 Abril 16 2021 Abril 4
1992 Abril 19 2007 Abril 8 2022 Abril 17
1993 Abril 11 2008 Março 23 2023 Abril 9
1994 Abril 3 2009 Abril 12 2024 Março 3

Para calcular a data da Páscoa para qualquer ano no calendário Gregoriano (o calendário civil no Brasil), veja algumas fórmulas aqui!