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O que é ter fé em Deus?

«Eu vim ao mundo como luz, para que todo o que crê em Mim
não fique nas trevas
(Jo 12, 46)

Amar a DeusPensando nesta passagem da Bíblia nos vem a seguinte pergunta: o que é crer em Jesus? O que é ter fé em Deus?

Lendo um livro chamado “Introdução ao estudo de Santo Agostinho” passei por um capítulo que falava sobre a relação entre fé e razão, e lá, encontrei uma importante observação sobre o que é ter fé em Deus… segue o trecho transcrito abaixo (com algumas citações da bíblia):

“Tomada em sua essência, a fé agostiniana é simultaneamente adesão do espírito à verdade sobrenatural e abandono humilde do homem em sua totalidade à graça do Cristo. Ademais, como as duas coisas poderiam se separar? A adesão do espírito à superioridade de Deus supõe a humildade; e a humildade por sua vez, uma confiança em Deus que é, em si mesma, um ato de amor e de caridade. Se tomamos, portanto, a vida espiritual em sua complexidade concreta, aquele que adere a Deus pela fé não submete simplesmente seu espírito a fórmulas; ele curva sua alma e todo o seu ser à autoridade de Cristo, que nos dá o exemplo de sabedoria e nos confere os meios de chegar à ela. Assim entendida, inicialmente, a fé tanto é purificadora como iluminadora; […]

Por isso, o pensamento humano deve também encontrar-se profundamente transformado. A recompensa que ele recebe da fé é precisamente a inteligência. Ele não a receberia se a fé fosse somente uma simples aceitação da autoridade divina, por assim dizer, uma submissão bruta do espírito. E nesse caso, crer é somente acreditar em Deus; o que é preciso, além disso, é querer fazer a vontade de Deus, e é por isso que as Escrituras não nos ordenam somente acreditar em Deus, mas também ter fé em Deus.

«Disseram-lhe, pois: Que faremos para executarmos as obras de Deus?
Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta:
Que creiais naquele que ele enviou.
»
(João 6:28-29)

Sem dúvida, para ter fé Nele, é preciso, antes, acreditar Nele, mas aquele que acredita Nele não necessariamente crê Nele, pois até os demônios acreditam em Deus mas não tem fé em Deus; […]

«Crês que há um só Deus. Fazes bem.
Também os demônios creem e tremem.»
(Tiago 2:19)

«Quando os espíritos imundos o viam, prostravam-se diante dele e gritavam: Tu és o Filho de Deus!»
(Marcos 3:11)

O que é, portanto, ter fé em Deus? É, ao acreditar Nele, amá-lo, gostar Dele com ternura, ter comunhão com Ele através do amor, incorporar-se aos seus membros.

«Jesus respondeu, e disse-lhe: Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos para ele, e faremos nele morada.»
(João 14:23-24)

«Como podeis vós crer, recebendo honra uns dos outros,
e não buscando a honra que vem só de Deus?»

(João 5:44)

«Tende muito cuidado de pôr em prática os mandamentos e as leis que vos prescreveu Moisés, servo do Senhor: amar o Senhor, vosso Deus, andar em todos os seus caminhos, guardar os seus mandamentos e unir-vos a ele, servindo de todo o vosso coração e de toda a vossa alma
(Josué 22:5)

Eis a fé que Deus exige de nós e que, depois de tê-la exigido, só a encontra em nós porque a doou a nós para, em seguida, poder encontrá-la em nós.

«Respondeu-lhes Jesus: Não murmureis entre vós.
Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o atrair; e eu hei de ressuscitá-lo no último dia
(João 6:43-44)

Logo, não é qualquer fé a que Deus reivindica, mas, segundo a palavra do apóstolo: a fé que opera através da caridade.

«Quanto a nós, é espiritualmente,da fé, que aguardamos a justiça esperada.
Estar circuncidado ou incircunciso de nada vale em Cristo Jesus,
mas sim a fé que opera pela caridade

(Gálatas 5:5-6)

Se esta fé encontra-se em nós, ela nos dará a inteligência, pois nos dá-la é de sua natureza.”

«porque o Senhor é quem dá a sabedoria, e de sua boca é que procedem a ciência e a prudência. Ele reserva para os retos a salvação e é um escudo para os que caminham com integridade; protege as sendas da retidão e guarda o caminho de seus fiéis. Então compreenderás a justiça e a equidade, a retidão e todos os caminhos que conduzem ao bem
(Provérbios 2:6-9)

Jesus

Para complementar essa reflexão sobre a fé em Deus segue abaixo trechos da Encíclica Lumen Fidei do Papa Francisco I:

“Antes da sua paixão, o Senhor assegurava a Pedro: «Eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça» (Lc 22, 32). Depois pediu-lhe para «confirmar os irmãos» na mesma fé. Consciente da tarefa confiada ao Sucessor de Pedro, Bento XVI quis proclamar este Ano da Fé, um tempo de graça que nos tem ajudado a sentir a grande alegria de crer, a reavivar a percepção da amplitude de horizontes que a fé descerra, para a confessar na sua unidade e integridade, fiéis à memória do Senhor, sustentados pela sua presença e pela ação do Espírito Santo. A convicção duma fé que faz grande e plena a vida, centrada em Cristo e na força da sua graça, animava a missão dos primeiros
cristãos.”

“Nas Atas dos Mártires, lemos este diálogo entre o prefeito romano Rústico e o cristão Hierax: «Onde estão os teus pais?» — perguntava o juiz ao mártir; este respondeu: «O nosso verdadeiro pai é Cristo, e nossa mãe a fé n’Ele». Para aqueles cristãos, a fé, enquanto encontro com o Deus vivo que Se manifestou em Cristo, era uma «mãe», porque os fazia vir à luz, gerava neles a vida divina, uma nova experiência, uma visão luminosa da existência, pela qual estavam prontos a dar testemunho público até ao fim.”

“A fé cristã é fé no Amor pleno, no seu poder eficaz, na sua capacidade de transformar o mundo e iluminar o tempo. «Nós conhecemos o amor que Deus nos tem, pois cremos nele» (1 Jo 4, 16). A fé identifica, no amor de Deus manifestado em Jesus, o fundamento sobre o qual assenta a realidade e o seu destino último.”

“A plenitude a que Jesus leva a fé possui outro aspecto decisivo: na fé, Cristo não é apenas Aquele em quem acreditamos, a maior manifestação do amor de Deus, mas é também Aquele a quem nos unimos para poder acreditar. A fé não só olha para Jesus, mas olha também a partir da perspectiva de Jesus e com os seus olhos: é uma participação no seu modo de ver.”

“«Cremos em» Jesus, quando O acolhemos pessoalmente na nossa vida e nos confiamos a Ele, aderindo a Ele no amor e seguindo-O ao longo do caminho (cf. Jo 2, 11; 6, 47; 12, 44).”

“A salvação pela fé consiste em reconhecer o primado do dom de Deus, como resume São Paulo: «Porque é pela graça que estais salvos, por meio da fé. E isto não vem de vós, é dom de Deus.» (Ef 2, 8)”

“Por meio da sua encarnação, com a sua vinda entre nós, Jesus tocou-nos e, através dos sacramentos, ainda hoje nos toca; desta forma, transformando o nosso coração, permitiu-nos — e permite-nos — reconhecê-Lo e confessá-Lo como Filho de Deus. Pela fé, podemos tocá-Lo e receber a força da sua graça. Santo Agostinho, comentando a passagem da hemorroíssa que toca Jesus para ser curada (cf. Lc 8, 45-46), afirma: «Tocar com o coração, isto é crer».”

«Para que Cristo habite pela fé nos vossos corações; a fim de, estando arraigados e fundados em amor, poderdes perfeitamente compreender, com todos os santos, qual seja a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade, e conhecer o amor de Cristo, que excede todo o entendimento, para que sejais cheios de toda a plenitude de Deus
(Efésios 3:17-19)

«Todos sois filhos de Deus pela fé em Jesus Cristo.»
(Gálatas 3:26)

Proferir palavras duras

 Não haja contendas entre vocês, ou se as houver, terminem-nas depressa para que a ira não chegue até o ódio e de uma palha se faça uma viga , convertendo-se a alma em homicida; pois assim se lê: “O que odeia seu irmão é homicida“.

Aquele que ofender alguém com injúria, ultraje ou acusando-o de alguma falta, procure remediar o quanto antes o mal que provocou e aquele que foi ofendido perdoe-o logo, sem vacilar. Porém se tiverem-se ofendido mutuamente, devem se perdoar a ofensa , porque, do contrário, a sua recitação do Pai Nosso se transforma numa mentira. No mais, quanto mais frequentes forem suas orações, com tanta maior sinceridade devem fazê-las. Contudo, é muito melhor alguém que, mesmo, deixando-se levar pela ira, se apressa a pedir perdão àquela a quem ofendeu, que o outro que demora em irar-se, mas opõe mais resistência em pedir perdão. Aquele que, pelo contrário, nunca quer pedir perdão ou não o pede de coração , em vão se encontra na casa religiosa, mesmo que dali não seja expulso. Portanto, abstenham-se de proferir palavras duras em excesso e, se alguma vez, elas deslizarem, não se envergonhem de aplicar o remédio saído da mesma boca que produziu a ferida.

No entanto, quando a necessidade da disciplina os obriga a empregar palavras duras ao corrigir os mais novos, se perceberem que foram excedidas no modo, não lhes é exigido pedir perdão aos ofendidos, pois não aconteça que, por ter uma excessiva humildade para com aqueles que devem ser obedientes, fique debilitada a autoridade de quem governa. Pelo contrário, peça-se perdão ao Senhor de todos, que conhece benevolência com que são amados inclusive aos quais talvez foram corrigidos além da medida. O amor entre vocês não deve ser carnal, mas espiritual.

FonteRegra de Santo Agostinho

Regra de Santo Agostinho é um conjunto de regras criadas por Santo Agostinho de Hipona que se refere à vida monástica de muitas comunidades e ordens religiosas católicas desde o século V até hoje. Os princípios essenciais da Regra de Santo Agostinho são: a pobreza, a castidade, a obediência, o desapego do mundo, a repartição do trabalho, o dever mútuo de superiores e irmãos, caridade fraterna, a oração, a abstinência comum e proporcional à força do indivíduo, o cuidado dos doentes, o silêncio, a leitura e a vida em fraternidade.

Viver uma vida virtuosa

Nenhuma alma viciada pode dominar outra munida de virtudes.
(Santo Agostinho)

Segundo a doutrina da Igreja Católica, e especialmente S. Gregório de Nissa, a virtude é “uma disposição habitual e firme para fazer o bem“, sendo o fim de uma vida virtuosa tornar-se semelhante a Deus. Existem numerosas virtudes que se relacionam entre si tornando virtuosa a própria vida. No Catolicismo, existem 2 categorias de virtudes:

*As virtudes teologais, cuja origem, motivo e objeto imediato são o próprio Deus. Os cristãos acreditam que elas são infundidas no homem com a graça santificante, e que elas tornam os homens capazes de viver em relação com a Santíssima Trindade. Elas fundamentam e animam o agir moral do cristão, vivificando as virtudes humanas. Para os cristãos, elas são o penhor da presença e da ação do Espírito Santo nas faculdades do ser humano. As virtudes teologais são três:

    • : através dela, os cristãos crêem em Deus, nas suas verdades reveladas e nos ensinamentos da Igreja, visto que Deus é a própria Verdade. Pela fé, “o homem entrega-se a Deus livremente. Por isso, o crente procura conhecer e fazer a vontade de Deus, porque «a fé opera pela caridade» (Gal 5,6)“.
    • Esperança: por meio dela, os crentes, por ajuda da graça do Espírito Santo, esperam a vida eterna e o Reino de Deus, colocando a sua confiança perseverante nas promessas de Cristo.
    • Caridade (ou Amor): através dela, “como amamos a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos por amor de Deus. Jesus faz dela o mandamento novo, a plenitude da lei“. Para os crentes, a caridade é «o vínculo da perfeição» (Col 3,14), logo a mais importante e o fundamento das virtudes. São Paulo disse que, de todas as virtudes, “o maior destas é o amor” (ou caridade). O Amor é também visto como uma “dádiva de si mesmo” e “o oposto de usar“.

*As virtudes humanas que são perfeições habituais e estáveis da inteligência e da vontade humanas. Elas regulam os atos humanos, ordenam as paixões humanas e guiam a conduta humana segundo a razão e a fé. Adquiridas e reforçadas por atos moralmente bons e repetidos, os cristãos acreditam que estas virtudes são purificadas e elevadas pela graça divina.

Segundo a Igreja Católica Apostólica Romana existem quatro virtudes cardinais (ou virtudes cardeais) que polarizam todas as ou­tras virtudes humanas. O conceito teológico destas quatro virtudes foi derivado inicialmente do esquema de Platão e adaptado por Santo Ambrósio de Milão, Santo Agostinho de Hipona e São Tomás de Aquino.

Segundo a Doutrina da Igreja Católica, elas “são perfeições habituais e estáveis da inteligência e da vontade humanas, que regulam os nossos actos, ordenam as nossas paixões e guiam a nossa conduta segundo a razão e a fé. Adquiridas e reforçadas por actos moralmente bons e repetidos, são purificadas e elevadas pela graça divina”. As virtudes cardeais são quatro:

  • prudência, que “dispõe a razão para discernir em todas as circunstâncias o verdadeiro bem e a escolher os justos meios para o atingir. Ela conduz a outras virtudes, indicando-lhes a regra e a medida“, sendo por isso considerada a virtude-mãe humana.
  • a justiça, que é uma constante e firme vontade de dar aos outros o que lhes é devido;
  • fortaleza (ou Força) que assegura a firmeza nas dificuldades e a constância na procura do bem;
  • e a temperança (ou Moderação) que “modera a atracção dos prazeres, assegura o domínio da vontade sobre os instintos e proporciona o equilíbrio no uso dos bens criados“, sendo por isso descrita como sendo a prudência aplicada aos prazeres.

Obs.: Essas virtudes “cardinais” não são o mesmo que a trindade de “virtudes teológicas” ou “teologais” da fé, esperança e caridade. Juntas, elas englobam o que é conhecido como as virtudes celestiais ou algumas vezes as sete virtudes cardinais.

“…o império das paixões ao lhe impor sua tirania, perturba todo o espírito e a vida desse homem, pela variedade e oposição de mil tempestades, que tem de enfrentar. Ir do temor ao desejo; da ansiedade mortal à vã e falsa alegria; dos tormentos por ter perdido um objeto que amava ao ardor de adquirir outro que ainda não possui; das irritações de uma injúria recebida ao insaciável desejo de vingança. E de o do lado a que se volta,  a avareza cerca esse homem, a luxúria o consome, a ambição o escraviza, o orgulho o incha, a inveja o tortura, a ociosidade o aniquila,  a obstinação o excita,
a humilhação o abate.”
(“O Livre Arbítrio” de Santo Agostinho)

As sete virtudes são derivadas do poema épico Psychomachia, escrito por Prudêncio, intitulando a batalha das boas virtudes e vícios malignos. A grande popularidade deste trabalho na Idade Média ajudou a espalhar este conceito pela Europa. É alegado que a prática dessas virtudes protege a pessoa contra tentações dos sete pecados capitais, com cada um tendo sua respectiva contra-parte.

Ordenadas em ordem crescente de santicidade, as sete virtudes sagradas são:

– Castidade (latim: castitas) — opõe luxúria.
Auto-satisfação, simplicidade. Abraçar a moral de si próprio e alcançar pureza de pensamento através de educação e melhorias.

– Generosidade (latim: liberalitas) — opõe avareza.
Desprendimento, largueza. Dar sem esperar receber, uma notabilidade de pensamentos ou ações.

– Temperança (latim: temperantia) — opõe gula.
Auto-controle, moderação, temperança. Constante demonstração de uma prática de abstenção.

– Diligência (latim: diligentia) — opõe preguiça.
Presteza, ética, decisão, concisão e objetividade. Ações e trabalhos integrados com a própria fé.

– Paciência (latim: patientia) — opõe ira.
Serenidade, paz. Resistência a influências externas e moderação da própria vontade.

– Caridade (latim: humanitas) — opõe inveja.
Auto-satisfação. Compaixão, amizade e simpatia sem causar prejuízos.

– Humildade (latim: humilitas) — opõe soberba.
Modéstia. Comportamento de total respeito a Deus e em segundo lugar ao próximo.

Fonte: Catecismo da Igreja Católica e “O Livre Arbítrio” de Santo Agostinho.

Mensagem aos gananciosos

De grande proveito a piedade que se faz acompanhar de prudência. Nada trou- xemos para este mundo; dele nada devemos levar. Se temos com que viver e vestir-nos, fiquemos contentes, porquanto quem quer ficar rico cai nas ciladas do tentador, se perde nos desejos insensatos e funestos que precipitam o ho- mem no abismo da morte. A cupidez é a raiz de todos os males. Escravos de tal paixão, vários desviaram-se da fé e enveredaram por caminhos dolorosos.

Os que querem tornar-se ricos caem na tentação , o Apóstolo não censura o emprego das riquezas, mas o desejá-las, tanto assim que noutra passagem re- comenda aos ricos do mundo não serem altivos, nem porem as esperanças na instabilidade das riquezas, mas em Deus vivo, que em abundância nos dá todas as coisas, para delas gozarmos, e serem benfeitores, ricos em boas obras, gene- rosos, darem esmolas e erguerem sobre esses tesouros de caridade o sólido fundamento do futuro, a fim de alcançarem a vida eterna.

Com efeito, os cristãos que ouviram este mandamento do Senhor: Não amon- toeis para vos tesouro escondido na terra, onde o verme e a traça o devoram, donde os ladrões o tiram e roubam, mas amontoai para vos tesouros no céu, onde o ladrão, em absoluto, não penetra, onde o verme nada pode corrom- per, pois onde estiver teu tesouro, aí estará o teu coração, ficaram sabendo, no dia das tribulações, como foram inteligentes, não desprezando o mestre verdadeiro, o mais fiel e invencível guardião de seu tesouro.

Nu sai do seio de minha mãe e nu voltarei para o da terra. O Senhor deu-me tudo, o Senhor tirou-me tudo. O que me aconteceu, aconteceu porque aprouve a  Deus. Bendito seja seu nome. Servo fiel, sua riqueza é a vontade do Senhor. Tal submissão aumenta-lhe a reserva espiritual; não se aflige por ser abandonado, em vida, pelas coisas que logo mais, ao morrer, deve abandonar.

Trecho do livro: A Cidade de Deus (parte I) de Santo Agostinho

Doutores da Igreja – PARTE 1

Doctores Ecclesiae

O título de Doutor é canônico (definido pelas regras do direito canônico). Ela proclama a extraordinária importância deste ou daquele santo na compreensão da doutrina da Igreja Católica. Quase todos os doutores homens realizaram um trabalho de teologia racional, sobre qualquer tema teológico particular. Os últi- mos três doutorados são mulheres: Teresa de Ávila, Catarina de Sena e Teresa de Lisieux. Entre elas, brilha uma outra forma de Doutorado, complementar ao doutorado de inteligência racional: é um doutorado “da vida” onde  toda a vida cristã é feita, de maneira prática, compreensível. Alguns Doutores da Igreja são também Padres da Igreja, mas nem todos os Padres são Doutores.Todos os Dou- tores são canonizados. Os requisitos são quatro:

  1. Eminens doctrina (conhecimento eminente);
  2. Insignis vitae sanctitas (um alto grau de santidade);
  3. Ecclesiae declarati(proclamação da Igreja);

Bento XIV explicou o terceiro como uma declaração do Soberano Pontífice ou de um conselho geral. Mas, apesar dos conselhos gerais terem aclamado os es- critos de certos doutores, nenhum concilio conferiu o título de Doutor da Igre- ja. Na prática, o procedimento consiste em estender para a igreja universal o uso do Oficio e Missa de um santo em que o título de doutor é aplicado a ele. O decreto é composto pela Congregação dos Sagrados Ritos e aprovada pelo Papa, após um estudo cuidadoso dos escritos do santo. É de nenhuma maneira, uma decisão “ex catedra“, nem mesmo uma declaração que indique que não existem erros nos ensinamentos do Doutor.

A LISTA COMPLETA DOS DOUTORES DA IGREJA

Em 1295, o Papa Bonifácio VIII, confere pela primeira vez o título de Doutor da Igreja aos Padres latinos da Igreja:

Santo Ambrósio (340-397). É considerado um dos qua- tro máximos doutores da Igreja, aprendeu de Orígenes a conhecer e a comentar a Bíblia. Ele lutou contra o arianis- mo no Ocidente. Bispo de Milão e mentor de Santo Agostinho. Uma relação de suas obras aqui e trechos se- lecionados (em espanhol)  aqui ! Veja também: um bom resumo e um vídeo.

A castidade duma alma é de um preço aos olhos de Deus maior que a dos anjos, pois que os cristãos só podem adquirir esta virtude pelos combates, enquanto que os anjos a têm por natureza.”

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Santo Agostinho (354-430). Bispo de Hipona.  Um dos quatro doutores originais da Igreja latina. O maior dos Padres do Ocidente e um dos grandes Doutores da Igreja, estabeleceu as bases da teologia católica; “Doutor da Graça”.  Em breve, postarei em outro artigo, todas as obras agostinianas que encontrei. Cito algumas delas:  Confissões,  O Cuidado Devido aos MortosO Livre Arbítrio, etc. Veja uma lista completa aqui! Veja também suas obras em inglês,  em espanhol,  em francês (completa) e em latim (completa). Um filme e um vídeo sobre sua história.

Por maior que seja o temor da morte, deve vencê-lo a força do amor com que se ama aquele que, sendo nossa vida, quis sofrer até a morte por nós.

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São Jerônimo (343-420). Um dos quatro Doutores originais da Igreja Latina. É conhecido sobretudo como tradutor da Bíblia do grego antigo e do hebraico para o latim. A edição de São Jerônimo, a Vulgata (em latim), é ainda o texto bíblico oficial da Igreja Católica Romana.  Uma de suas obras:  De Viris Illustribus  (Sobre  homens ilustres) em latim e em inglês. Suas obras em francês.  Dois vídeos (vídeo 1 e vídeo 2) sobre sua história.

Quando rezamos falamos com Deus, quando lemos é Deus que nos fala.”

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São Gregório Magno (540-604).  Papa.  Quarto e último dos quatro Doutores originais da Igreja Latina. Defendeu a supremacia do Papa e trabalhou pela reforma do clero e da vida monástica. Introduziu o canto gregoriano na Igreja. Lista de suas obras em português, algumas obras em espanhol e todas as suas obras em francês. Um vídeo e um bom resumo sobre sua história. Veja também a Catequese do Papa Bento XVI sobre este Doutor da Igreja.

” O verdadeiro pastor das almas é puro em seu pensamento. Sabe aproximar-se de todos, com verdadeira caridade. Eleva-se acima de todos pela contemplação de Deus.”

Em breve, será postada a Parte 2 ! 😉

Meu testemunho de conversão

Assistindo a um filme que relata a história de Santo Agostinho (que indico a to- dos, veja aqui) percebi quanto o seu testemunho de vida, de sua conversão, foi importante para mim, e acredito que para milhares de pessoas, que viveram uma vida longe de Deus (como ele), querendo somente saber de festas, de prazeres pessoais, de conseguir um emprego que ganhe muito (e como a maioria dos bra- sileiros…sem trabalhar muito), de conquistar bens, e outras coisas mais da satis- fação da carne. Assim, acredito que todo o testemunho de conversão é impor- tante e contribui para que muitos parem para refletir sobre o que acontece em suas próprias vidas. E então apresento aqui um pouco do meu “começo” com Deus.

Eu agradeço a meus pais de terem me batizado na Igreja Católica quando criança e depois aos 10 anos me levarem para as aulas da Primeira comunhão. Infeliz- mente, eles não me levavam as missas com frequência, com exceção da época em que fazia as aulas na Igreja.

Depois de ter recebido a Primeira Comunhão, eu fui me afastando mais e mais da igreja…chegando a ser o que muitos chamam da católica do IBGE … (diz que é , e nunca vai às missas). Namorava, estudava numa universidade pública, tinha pai e mãe ajudando em tudo, e  vivia a vida só para satisfazer os meus sonhos e von- tades. Sempre me sentia um tanto “vazia”, não entendia o que se passava comi- go. Via várias coisas acontecerem em minha vida e nada parecia algo de efetivo e importante, mas mesmo assim continuava no mesmo modo de viver. E assim foi até quando conheci meu marido Matheus. Ele participava da missa, sabia muitas coisas da Palavra de Deus (que eu nem sabia que lá estava). Fui pouco a pouco aprendendo com ele tudo o que Deus dizia de cada ação, se era errada ou não, e como deveríamos agir para então mudar. E é sobre isso que todos nós devemos estar esclarecidos…Deus nos dá a chance de mudar, de parar de cami- nhar para longe Dele… e passar a andar mais e mais perto.

Quando estava no início de minha aproximação do Senhor, muitas pessoas vi- nham a mim, e perguntavam: Como podes ter tanta certeza que o que esta escri- to na Bíblia é verdade? Parece que muitas coisas são radicais demais.

Na época, ainda não sabia como argumentar com fatos concretos, a verdade contida na Palavra de Deus, pois toda a minha confiança no que estava escrito, vinha de dentro de mim, algo que não compreendia bem como acontecia … deve ser como o que muitos gostam de dizer : o sexto sentido. Mas depois compreendi que era minha fé…ela estava aumentando a cada momento que sabia mais de Deus. Eu acho que todas as pessoas de bom coração, sabem que seguir os man- damentos de Deus, é sem sombra de dúvidas, o verdadeiro caminho a seguir. Mas para elas é difícil abandonar os seus prazeres da carne, as suas satisfações pessoais; e também acham que as forças necessárias para vencer essas concupis- cências vêm delas próprias, e é neste ponto que erram.

Lembro neste momento, de um trecho do filme que mostra a busca de Santo Agostinho (já bispo) em unir Católicos e Donatistas.  Segue abaixo o trecho:

Agostinho nos mostra quanto Deus é misericordioso. E que na vida há em quem depositar a nossa total confiança: em Deus, e somente em Deus.

Hoje…eu já sei o que tenho que buscar…tenho que seguir a minha vocação (o chamado de Deus para mim). E agora posso responder a quem me pergunte so- bre a veracidade da Palavra. Eu diria a elas: entreguem-se de todo coração à vontade de Deus, e você vivera experiências do amor de Deus em sua vida, ex- periências de um amor que jamais tenha imaginado antes! E a partir dai, preci- sara somente continuar alimentando a fé, que já existe em você!

Deixo abaixo momentos onde Santo Ambrósio ensina sobre a Verdade a  Santo Agostinho, antes de sua conversão.

Até o próximo testemunho! Se Deus quiser!

Os Mistérios de Deus

Santo Agostinho é o pensador que, através da sua vasta produção literária, mar- cou mais profundamente a especulação cristã. Sua profunda cultura humanista tornou-se sensível aos grandes temas que preocupavam e preocupam o ser hu- mano: o bem e o mal, a liberdade, o destino humano, a história e sobretudo o di- lema entre fé e razão. Estudava desesperadamente matemática, filosofia, mecâ- nica (a física na época era rudimentar), teologia, com o propósito de explicar a existência de Deus através da razão humana. Observava a natureza e acreditava que o homem através de sua inteligência iria finalmente explicar o porquê de Deus e colocar os parâmetros da fé em bases científicas. Santo Agostinho não descansava, passava horas a estudar e a meditar, tentando entender o que sig- nificava onipresença, onisciência, infinito, Santíssima Trindade, consubstancia- ção, espírito e corpo, diversidade espiritual, atemporalidade…os Mistérios de Deus. Várias vezes foi visto vagando sozinho na noite, angustiado, tentando des- cobrir a resposta científica para a fé. Foi quando…

Certo dia, Santo Agostinho, após longo período de trabalho e muito compene- trado na sua angústia, adormeceu no claustro. Teve um sonho revelador: caminhava sobre uma praia deserta, a contemplar o mar e o céu. De repente, avistou um menino que com um balde de madeira ia até a água do mar, enchia o balde e voltava, onde despejava a água num pequenino buraco na areia. Santo Agostinho, perplexo e curioso perguntou ao menino: – O que você está fazendo? O menino calma- mente olhou para Santo Agostinho e respondeu: -Vou colocar toda água do mar nesse buraco! Santo Agostinho sorriu e retrucou: – Isso é impossível garoto. Observe quanta água existe no oceano e você quer colocá-la toda nesse diminuto buraco! Mais uma vez o menino olhou para Santo Agostinho e de forma ríspida e corajosa disse: – Em verdade vos digo. É mais fácil colocar toda água do oceano nesse pequeno buraco do que a inteligência humana compreender os mistérios de Deus!! E num átimo Santo Agostinho acordou assustado e desorienta- do. Tivera uma mensagem divina que acalmaria sua alma conturbada.

Que essa história sirva também aos nossos dias. O homem precisa rever posi- ções, precisa abandonar seu humanismo cético em favor do dogma teológico. Não pode haver ciência sem base teológica. Aqueles que duvidam disso, lembrem-se do menino.

Fonte: http://www.doutrina.linear.nom.br