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E não nos deixes cair em tentação

A formulação deste pedido é para muitos escandalosa: Deus não nos conduz à tentação. Na realidade, diz-nos S. Tiago: “Ninguém que caia em tentação pode dizer: fui levado por Deus à tentação. Pois Deus não pode ser tentado a fazer o mal e Ele mesmo não leva ninguém à tentação” (Tg 1,13). A tentação vem do demônio, mas faz parte da missão messiânica de Jesus vencer as grandes tentações que desviaram a humanidade de Deus e continuam a desviar. Ele deve, como vimos, suportar as tentações até a morte na cruz e assim nos abrir o caminho da redenção. Não é só depois da morte, mas também nela e em toda a sua vida, que, por assim dizer, deve “descer ao inferno”, ao espaço das nossas tentações e derrotas, para nos pegar pela mão e nos trazer para cima. A Carta aos Hebreus atribuiu a este aspecto um valor muito especial, evidenciou-o como uma parte essencial do caminho de Jesus: “Porque Ele mesmo foi conduzido à tentação e sofreu, pode ajudar aqueles que são levados à tentação” (Hb 2,18). “Nós de fato não temos um Sumo Sacerdote que não possa compadecer-se com as nossas fraquezas, mas um que em tudo foi tentado como nós, mas que não pecou” (Hb 4, 15).

Uma vista de olhos no Livro de Jó, no qual, sob muitos aspectos, é já desenhado o mistério de Cristo, pode ajudar-nos em outros esclarecimentos. Satanás escarnece do homem para escarnecer de Deus: a sua criatura, que Ele criou à sua imagem, é uma criatura miserável. Tudo o que nela parece bom é apenas fachada; na realidade, o que interessa ao homem, a cada homem, é apenas e sempre o próprio bem-estar. Este é o diagnóstico de Satanás, que o Apocalipse caracteriza como o “acusador dos nossos irmãos“, “que os acusa dia e noite diante de Deus” (Ap 12,10). A difamação do homem e da criação é, em última análise, difamação de Deus, justificação para a sua renúncia. Satanás quer demonstrar em Jó a sua tese: quando tudo lhe for tirado, também ele deixará cair a sua piedade. Então Deus dá a Satanás a liberdade para a provação, mesmo se com limites bem definidos.

Deus não deixa o homem cair, mas ser provado. Aqui aparece de modo muito suave, quase imperceptível, o mistério da representação que alcança grande forma em Isaías, capítulo 53: os sofrimentos de Jó servem para a justificação do homem. Ele restabelece, por meio da sua fé conservada  no sofrimento, a honra do homem. Assim, os sofrimentos de Jó são antecipadamente sofrimentos em comunhão com Cristo, que restabeleceu para todos nós a honra perante Deus e nos mostra o caminho para, mesmo na obscuridade, não perdermos a fé em Deus.

O Livro de Jó pode também nos ajudar numa distinção entre provação e tentação. Para se tornar maduro, o homem precisa de provação, para realmente encontrar uma piedade numa sempre mais fundamentada comunhão de ser com a vontade de Deus. Tal como o sumo da uva deve fermentar para se tornar um vinho generoso, do mesmo modo o homem precisa de purificações, de transformações, que são perigosas para ele, nas quais pode cair, mas que também são caminhos indispensáveis para chegar a si mesmo e a Deus. O amor é sempre mais um processo de purificações, de renúncias, de dolorosas transformações de nós mesmos e assim caminho de maturidade. Quando S. Francisco Xavier em oração com Deus podia dizer: “Eu amo-te não porque tu tens o céu ou a terra para dar, mas simplesmente porque tu és — meu rei e meu Deus”, é porque certamente tinha sido necessário um longo caminho de interiores purificações até chegar a esta última liberdade: um caminho da maturação, no qual a tentação e o perigo da queda espreitavam, e, no entanto, um caminho necessário.

Assim, já podemos explicar de modo mais concreto o sexto pedido do Pai-Nosso. Com ele dizemos a Deus: “Eu sei que preciso de provações para que o meu ser se torne puro. Se tu sobre mim dispões estas provações, se tu — como em Jó — dás ao mal um pedaço de espaço livre, então pensa, por favor, na medida limitada da minha força. Não confies demasiado em mim. Não puxes para demasiado longe os limites dentro dos quais eu posso ser tentado e estejas próximo com a tua mão protetora, quando se tornar demasiado para mim”. Foi neste sentido que S. Cipriano explicou este pedido. Ele diz: quando pedimos “e não nos conduzas à tentação”, expressamos a consciência de que o inimigo não pode tudo contra nós, se não lhe for antes permitido, de modo que, no nosso temor, a nossa doação e a nossa atenção se voltam para Deus, porque ao mal nada é permitido, se não lhe for dado o pleno poder para isso” (De dom.or. 25, p. 285s).

E ele explica então ponderadamente a forma psicológica da tentação, de tal modo que pode haver duas diferentes razões pelas quais Deus concede ao mal um poder limitado. Isso pode acontecer por penitência, para dominar o nosso orgulho, para que experimentemos de novo a pobreza da nossa fé, da nossa esperança e do nosso amor e não nos vangloriemos de sermos grandes por nós mesmos: pensemos no fariseu que conta a Deus as suas próprias obras e que parece não necessitar de nenhuma graça. Infelizmente, S. Cipriano não explica mais detalhadamente o que significa a segunda espécie da provação — a tentação que Deus nos impõe ad gloriam, para a Sua glória. Mas não devemos aqui pensar que Deus carregou com uma carga de tentação especialmente pesada aqueles homens que Lhe estavam mais próximos, os grandes santos, desde Sto. Antão no deserto até Sta. Teresa de Lisieux no mundo piedoso do seu Carmelo. Eles se situam, por assim dizer, no seguimento de Jó, como apologia do homem, que é ao mesmo tempo defesa de Deus. Mais ainda: eles estão de um modo muito especial em comunhão com Jesus Cristo, que sofreu até o fim as nossas tentações. Eles são chamados a vencer as tentações no seu próprio corpo, na sua própria alma, suportá-las por nós, as almas habituais, e nos ajudar a chegar àquele que tomou sobre si a carga de todos nós.

Na nossa oração do sexto pedido do Pai-Nosso deve estar contida, por um lado, a disponibilidade para tomarmos sobre nós mesmos a carga na provação que nos está atribuída. Mas por outro lado trata-se precisamente do pedido para que Deus não nos atribua mais do que aquilo que podemos agüentar; que Ele não nos deixe escapar das Suas mãos. Nós dizemos esta oração na certeza confiante para a qual S. Paulo nos deu estas palavras: “Deus é fiel; Ele não vai permitir que sejais tentados acima das vossas forças. Na tentação Ele há-de encontrar para vós um caminho de saída, de tal modo que a ela possais resistir” (1 Cor 10,13).

Fonte: livro Jesus de Nazaré do Cardeal Joseph Ratzinger (BentoXVI)

Motivos pelos quais Deus permite que os demônios nos ataquem

Pode-se encontrar cinco motivos pelos quais Deus permite que os demônios nos ataquem:

1) Primeiro, para que, através desses ataques e contra-ataques, nos tornemos hábeis em distinguir o que é bom do que é mau;

2) Segundo, de modo que nossa virtude se mantenha no calor da luta, e assim seja confirmada numa posição inexpugnável

3) Terceiro, de modo que, à medida que avançamos em virtude,sejamos curados da presunção, aprendendo a humildade;

4) Quarto, de modo a inspirar-nos um repúdio completo ao mal, em seguida à experiência que temos dele;

5) Quinto, e acima de tudo, de modo que conservemos nossa liberdade interior e nos tornemos convictos tanto das nossas fraquezas como da força daquele que veio em nosso auxílio.

Escrito por: São Máximo, o Confessor.

E não nos deixeis cair em tentação

Há pecadores que desejam obter o perdão de seus pecados; confessam-se e fazem penitência, mas não se aplicam como devem, para não recaírem no pecado. São inconseqüentes consigo mesmos, pois choram e se arrependem de seus pecados, para em seguida caírem novamente nos mesmos pecados e assim acumularem motivo para lágrimas futuras. A propósito disto, diz o Senhor em Isaías (1, 16): Lavai-vos, purificai-vos, tirai de diante de meus olhos a malignidade de vossos pensamentos; deixai de fazer o mal.

É por isso que Cristo, como dissemos, nos ensina, no pedido anterior, a implorar o perdão de nossos pecados e neste, a graça de evitar o pecado dizendo: e não nos deixeis cair em tentação, pois é verdadeiramente a tentação que nos induz ao pecado.

Neste pedido três questões atraem nossa atenção:

a) Que é a tentação?
b) Como e por quem o homem é tentado?
c) Como se livra da tentação?

a) Que é a tentação?

Tentar não quer dizer mais do que: por à prova. Assim, tentar o homem, é por à prova sua virtude. A tentação pode ser de duas maneiras, segundo as exigências da virtude humana. Uma, quanto à perfeição da obra e outra, que o homem se guarde de todo o mal. É o que diz o Salmista (Sl 34, 14): Evita o mal e faze o bem.

A virtude do homem será pois provação, tanto do ponto de vista da excelência de se agir, quanto do seu afastamento do mal.

Se sois provados para saber, se estais prontos para praticar o bem, como, por exemplo, jejuar, e estais efetivamente prontos para o bem, grande é a vossa virtude.

Deste modo Deus prova o homem, não porque Ele não conhece sua virtude, mas para que assim todos a fiquem conhecendo e o tenham como exemplo. Deste modo Deus tentou Abraão (Gn 22) e Jó. Por isso Deus envia tribulações aos justos; se suportam com paciência, sua virtude é manifesta e progridem na virtude. O Senhor vosso Deus vos tenta, para se fazer manifesto se o amais ou não, dizia Moisés aos Hebreus (Dt 13, 3): Portanto Deus tenta o homem, provocando-o a fazer o bem.

O segundo modo de tentar a virtude do homem é incitá-lo ao mal. E se o homem resiste fortemente e não consente, sua virtude é grande, mas se ele não resiste, onde está sua virtude?

Deus nunca tenta o homem deste modo, pois nos diz São Tiago (1, 13): Ninguém, quando é tentado, diga que Deus é que o tenta, pois Ele é incapaz de tentar para o mal. Mas quem tenta o homem é a própria carne, o diabo e o mundo.

b) Como e por quem é o homem tentado?

A carne tenta o homem de dois modos.

Primeiro, instigando o homem para o mal, pela procura dos gozos carnais, que são sempre ocasião de pecado. Quem permanece nos gozos carnais, negligencia as coisas espirituais. Diz-nos São Tiago: Cada um é tentado por sua própria concupiscência que o arrasta e seduz (Tg 1, 14).

Em segundo lugar, a carne nos Continuar lendo

Ore para resistir à tentação

Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova em mim um espírito reto.
Não me lances fora da tua presença,e não retires de mim o teu Espírito Santo.
Torna a dar-me a alegria da tua salvação, e sustém-me com
um espírito voluntário
.”
(Salmos 51:10-12)

Davi escreveu essas palavras depois que o profeta Natã confrontou-o sobre o adultério com Bate-Seba. Para seu crédito, Davi reconheceu o pecado. O salmo é, portanto, uma súplica por pureza e uma oração em que Davi clama a Deus para ser restaurado na alegria de um relacionamento reto. Davi, no entanto, poderia ter-se poupado de muito sofrimento e tristeza (assim como a Bate-Seba e seu marido) se primeiro tivesse levado a Deus seus sentimentos por Bate-Seba.

Deus quer que vivamos em completo contraste com o mundo. O mundo está totalmente absorvido pela carne. Tentação sexual de um tipo ou de outro se encontra em toda parte. A atitude em relação ao sexo casual e à imoralidade em nossa sociedade avançou muito mais que a maioria das pessoas pode imaginar. Os que têm alguma percepção de seu propósito e da pessoa que Deus os criou para serem sabem que não se podem envolver nesse aspecto. O preço é alto demais. As consequências grandes demais.

Deus diz: “Que vos abstenhais das concupiscências da carnais, que combatem contra a alma“(1Pe 2:11). Aquilo que cobiçamos – seja sexo, bens materias, prestígio, dinheiro, poder – destrói nossa alma. Pode levar-nos a abandonar a paz. Não se trata de Deus não desejar que tenhamos nenhuma dessas coisas, mas que devemos nos submeter a seu caminho e a seu tempo, e permitir que Ele nos abençoe conforme sua vontade.

Existe um meio de resistir às tentações da carne, especialmente à tentação sexual: adorar a Deus. Essa deve ser, porém, a nossa primeira reação, e não a segunda, como resposta ao fato consumado. O rei Davi deveria ter agido assim. Entretanto, quando Bate-Seba descobriu que estava grávida, Davi tentou encobrir o adultério arranjando para que o marido dela fosse morto em combate.

Tudo começou com um pensamento pecaminoso. Ninguém comete adultério sem antes ter pensado nisso. É ao primeiro pensamento que a oração deve ser feita. Mais tarde Davi foi confrontado pelo profeta Natã, e o rei, para seu crédito, confessou tudo e mostrou-se profundamente arrependido. Mesmo assim, graves consequências resultaram de seus atos, não sendo a última e nem a menor delas a morte do filho recém-nascido de Davi e Bate-Seba. A partir dessa época coisas terríveis como assassinato, morte e traição se tornaram parte de sua familia e de seu reinado.

Todos cometem erros. Não permita que a culpa oriunda deles o separe de Deus ou o faça sentir-se distante Dele. Esse é o plano do inimigo para impedi-lo de obter o que Deus lhe reserva. Para vencer a tentação apresente-se ao Senhor tão logo ela lhe surja na mente pela primeira vez. Não espere como fez Davi. Não acolha esse pensamento nem por um momento. Vá a Deus imediatamente e confesse. A seguir louve-o como o Deus que é mais poderoso que qualquer tentação.

Escrito por: Stormie Omartian em A Biblia da Mulher que Ora.

Fuga das ocasiões de pecado: um dos mais graves deveres da vida espiritual

I. Da obrigação de evitar as ocasiões perigosas

Um sem número de cristãos se perde por não querer evitar as ocasiões de peca- do. Quantas almas lá no inferno não se lastimam e queixam: Infeliz de mim! Se tivesse evitado aquela ocasião, não estaria agora condenado por toda a eter- nidade!

Falando aqui da ocasião de pecado, temos em vista a ocasião próxima, pois de- ve-se distinguir entre ocasiões próximas e remotas. Ocasião remota é a que se nos depara em toda a parte e que raramente arrasta o homem ao pecado. Oca- sião próxima é a que, por sua natureza, regularmente induz ao pecado.Por exem- plo, achar-se-ia em ocasião próxima um jovem que muitas vezes e sem necessi- dade se entretêm com pessoas levianas de outro sexo.Ocasião próxima para uma certa pessoa é também aquela que já a arrastou muitas vezes ao pecado. Algumas ocasiões consideradas em si não são próximas, mas tornam-se tais,contudo, para uma determinada pessoa que, achando-se em semelhantes circunstâncias, já caiu muitas vezes em pecado em razão de suas más inclinações e hábitos. Portanto, o perigo não é igual nem o mesmo para todos.

O Espírito Santo diz: ‘Quem ama o perigo nele perecerá‘ (Ecli 3, 27). Se- gundo S. Tomás, a razão disso é que Deus nos abandona no perigo quando a ele nos expomos deliberadamente ou dele não nos afastamos. São Bernardino de Siena diz que dentre todos os conselhos de Jesus Cristo, o mais importante e como que a base de toda a religião, é aquele pelo qual nos recomen- da a fuga da ocasião de pecado.

Se fores, pois, tentado, e especialmente se te achares em ocasião próxima, acau- tela-te para não te deixares seduzir pelo tentador. O demônio deseja que se entretenha com a tentação, porque então torna-se-lhe fácil a vitória. Deves, porém, fugir sem demora, invocar os santos nomes de Jesus e Maria, sem prestar atenção, nem sequer por um instante, ao inimigo que te tenta. S. Pedro nos afirma que o demônio rodeia cada alma para ver se a pode tragar: ‘Vosso ad- versário, o demônio, vos rodeia como um leão que ruge,procurando a quem de- vorar‘ (I Ped 5, 8). São Cipriano, explicando essas palavras, diz que o demônio espreita uma porta por onde possa entrar na alma; logo que se oferece uma ocasião perigosa, diz consigo mesmo: ‘eis a porta pela qual poderei entrar‘, e imediatamente sugere a tentação. Se então a alma se mostrar indolente para fu- gir da tentação, cairá seguramente, em especial se se tratar de um pecado impu- ro.É a razão por que ao demônio mais desagradam os propósitos de fugirmos das ocasiões de pecado, que as promessas de nunca mais ofendermos a Deus, porque as ocasiões não evitadas tornam-se como uma faixa que nos venda os olhos para não vermos as verdades eternas, as ilustrações divinas e as promessas feitas a Deus.

Quem estiver, porém, enredado em pecado contra a castidade, deverá, para o futuro, evitar não só a ocasião próxima, mas também a remota, enquanto possível, porque em tal se sentirá muito fraco para resistir. Não nos deixemos enganar pelo pretexto da ocasião ser necessária, como Continuar lendo

Inteiramente Homem, Completamente Deus

Não é difícil, a partir do título, deduzir quem é o protagonista deste despretensi- oso ensaio… Ele mesmo, Jesus Cristo. Difícil talvez seja compreender a pro- fundidade do que é ser ao mesmo tempo homem e Deus. Em cada esquina encon- tramos religiões e seitas que tentam transformar homens em deuses, ou que ten- tam encontrar nos homens características que os aproximam de Deus. Jesus, po- rém, não é um destes homens que querem ser Deus, ele é Deus que quis ser ho- mem (para a concretização do plano divino de salvação).

O nosso mestre era inteiramente homem no que dizia respeito a si mesmo, nunca se aproveitava do fato de ser Deus quando o assunto dizia respeito a suas pró- prias dificuldades. Olhe por exemplo a tentação no deserto (Lucas 4.1-13). Fo- ram quarenta dias em que o diabo o tentou em todas as coisas. Ele poderia ter se livrado do diabo na primeira investida, porém a cada vez que o diabo colocava em xeque a identidade de Jesus como filho de Deus, ele o respondia, certo de que era o filho de Deus que viera como homem.

Diabo:  “Se és o filho de Deus, dize a esta pedra que se transforme em pão
Jesus:  “Está escrito que nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra de Deus”.

Era óbvio que Jesus poderia naquele momento transformar as pedras em pão (pouco tempo depois ele transformaria água em Continuar lendo